conecte-se conosco


Opinião

ANDRÉ LUIZ BARRIENTO – LEIA ANTES DE MORRER

Publicado

Esse recado é para você. Sim, sabe bem que é para você. Você tem cargo, status, esposa, estudo, filhos e considera-se, de longe, o cara mais sortudo e bem-sucedido do antigo grupo das crianças da sua rua.

Também, não poupou esforços. Sangrou, chorou, suou, desistiu. Retomou, reergueu, tentou de novo e perdeu. Fez o que não queria, aquilo que podia, o que nunca teria coragem de admitir, mas fez. Jogou, perdeu, aliou-se e ganhou.

Agora, uísque, vinho e champanha. Sorrisos, favores e manchetes. Remédio para dormir, para acordar e para suportar. Arrasta-se com o peso dos apertos de mão que foi obrigado a dar, das reuniões nauseantes que foi coagido a fazer e das promessas insuportáveis que teve de cumprir. Aquele dinheiro nem era para você, era apenas para continuar no jogo, aquele que você nem queria mais jogar.

Não vou te julgar, apesar de fazer sofrer, sei que também sofre. Vivemos no mesmo pedaço de pedra que se movimenta a 100 mil quilômetros por hora ao redor do sol. A gravidade da política, dos negócios e do poder, no entanto, é que é diferente. Ficar de pé é um esforço hercúleo para quem vive obrigado a fingir ter opções.

Leia Também:  CARLOS AVALLONE – Decisões de governo

Contudo, inoportunamente, a consciência trai a estratégia. A voz materna do tempo de criança surge suave e efetiva, faz o grande homem sentir-se pequeno, com medo. Então, você se questiona: existe algo que transcenda esse pequeno feudo escuro e sujo em que se meteu?

Nosso planeta é uma grande embarcação. Entramos e saímos dela em pouco tempo. Ficamos um pouco aqui, depois voltamos para casa. Morrer é voltar pra casa. A gente leva somente histórias e lembranças. Talvez te reste pouco tempo, sinceramente espero que não. Temos a obrigação de sermos a melhor versão possível de nós mesmos.

Começar de novo? O que os outros vão pensar? O que a imprensa vai dizer? E meus filhos, o que irão falar? E o partido? A empresa? A instituição? Como vou parar agora? São tijolos atirados nas vidraças da fachada que se vê obrigado a manter.

A casa, o carro, os investimentos, a poupança, o dinheiro guardado e aquele escondido, tudo isso não é seu, só está com você. O presente é o seu único ativo. Sei que é inteligente. Então, reflita sobre a grandeza do Universo e perceberá que tudo isso é pequeno, não passa de poeira. Entendera que somos como crianças distraídas brincando, acreditando ter controle sobre a fantasia.

Leia Também:  DIRCEU CARDOSOS - A importância do jornal na sua comunidade

Em breve você vai voltar pra casa. O que vai contar para sua mãe, para aquele amigo que ainda sente a falta do seu abraço? Talvez, seja uma daquelas crianças da sua rua, que verdadeiramente conhecia você e confiava no seu talento.

Olhe para dentro. Peça ajuda para pessoas de bem. Acredite, isso é libertador. Talvez decida recomeçar. Você pode até sangrar, chorar, suar e desistir. Retomar, reerguer, tentar de novo e ainda assim perder. Mas, desta vez, escolher fazer o que queria, o que facilmente admitiria e, quem sabe assim, jogar de um jeito em que todos possam ganhar.

André Luiz Barriento é jornalista, mestre em estudos de cultura contemporânea e graduando em Direito.

publicidade
Clique para comentar

Deixe um comentário

Please Login to comment
avatar
  Subscribe  
Notify of

Opinião

DIRCEU CARDOSO – As gorduras do funcionalismo

Publicado

O noticiário mostra que os Tribunais de Contas dos Estados pagam pinduricalhos, vantagens e outras esquisitices que elevam os rendimentos de seus membros acima dos R$ 39,2 mil mensais, salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal e teto para os ganhos do funcionalismo brasileiro. Esse, infelizmente, é apenas um item da perversa distribuição de renda que penaliza toda a população, tanto com baixos salários quanto com desemprego e outros males e enseja que uma minoria – se comparada aos 207 milhões de habitantes – viva nababescamente. Lembremos que os favorecimentos levam salários e vantagens a níveis astronômicos, também são encontrados nos diferentes níveis do Executivo, Legislativo e Judiciário.

Os salários das carreiras públicas de ponta são atrativos e, por isso, o ingresso é disputadíssimo. Depois de admitidos, muitos desses servidores adquirem direito a férias superiores às regulamentares de 30 dias ao ano, auxílio moradia, auxílio educação para si e familiares, licença remunerada para frequentar pós-graduação e uma série de outras benesses que chegam a multiplicar seus rendimentos. E ainda desfrutam de regulamentos especiais onde toda essa gordura não é classificada como rendimento, não sendo barrada pelo teto constitucional de salários e nem alcançada pela taxação tributária. Quando fica sabendo quanto ganha um desses senhores e senhoras que alcançaram o alto escalão e compara com seu salário, o trabalhador comum sente justificada depressão.

Leia Também:  WILSON FUÁH – O poder de decisão

A corte de marajás brasileiros é coisa montada ao longo de muitas décadas. Beneficiaram-se, preferencialmente, os servidores com representação mais forte e acesso aos detentores do poder. Os procuradores jurídicos, por exemplo, são poderosos tanto na União quanto nos estados e municípios. Uma das razões é serem eles os autores das sugestões de projetos – que acabam encampados pelos chefes do Executivo e aprovados no Legislativo – sobre as carreiras profissionais e, como diz o velho ditado, “quem parte e reparte, fica com a melhor parte”. Em muitos estados e municípios, os procuradores adquirem direitos especiais como, por exemplo, continuar recebendo, mesmo depois de aposentados – a sucumbência de processo onde atuaram em defesa do poder público. O correto, salvo melhor juízo, seria que, ao final dos processos, tais importâncias fossem recolhidas aos cofres públicos, que custearam as ações e não aos bolsos dos profissionais, que já receberam salários para executar seu trabalho.

Temos um amontoado de impropriedades que favorecem a casta privilegiada. É preciso uma ampla revisão que acabe com a sangria dos cofres públicos. Os salários dos ditos marajás já é alto assim têm de ser em função das responsabilidades do seu cargo. Mas o erário jamais deveria pagar despesas de caráter particular. Em vez de investir nos privilegiados, o Estado tem o dever de socorrer aqueles que necessitam de ajuda humanitária. Nada mais.

Leia Também:  JOSÉ DE PAIVA NETTO - A nobre destinação de um cristal

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

[email protected]                                                                                                     

Continue lendo

Opinião

GAUDÊNCIO TORQUATO – Julho cheio de tensões

Publicado

Há muita eletricidade no ar. Os curtos circuitos aumentam porque as redes de distribuição de energia falham por falta de manutenção. Julho tem sido um mês de sístoles. 

Convém explicar. Sístole e diástole são dois estágios do ciclo cardíaco nas pessoas. Por sístole, entende-se a fase de contração do coração, em que o sangue é bombeado para os vasos sanguíneos, já a diástole é a fase de relaxamento, fazendo com que o sangue entre no coração.

O general Golbery do Couto e Silva, no ano de 1980, usou os dois conceitos para tratar do país sob a visão da política. Pregava que os militares, após o ciclo da contração, se retirariam da política de forma organizada e tutelando a transição democrática. Viria a diástole.

Pois bem, o Brasil atravessa julho sob muita sístole, ao contrário do tempo de descontração, relaxamento, situação esperada para o sétimo mês do ano. As tensões envolvem os três Poderes, órgãos como Ministério Público, Receita Federal, Coaf, OAB, entre outros.

Os campos de tensão começam entre o Executivo e a esfera política na reforma da Previdência. Têm como pano de fundo um “certo desprezo” do presidente a respeito do presidencialismo de coalizão, o que implica não aceitar o confessionário onde parlamentares contam agruras e indicam figurantes aos cargos da estrutura. (Bolsonaro nesse aspecto se parece com a ex-presidente Dilma). E mais, Bolsonaro despreza o esforço do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao mobilizar os participantes a votar assuntos de interesse do Executivo. Maia acaba respondendo com veemência as estocadas, tomando a si a responsabilidade de criar uma agenda própria para o Legislativo. A equipe econômica reclama da desidratação do projeto pela Câmara, esquecendo que o próprio presidente da República trabalhou por essa desidratação ao defender privilégios para o pessoal da segurança pública.   

As expressões presidenciais funcionam como fios desencapados de curtos-circuitos. “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”. Ou: “A economia vai às mil maravilhas”. Dados contrários desmentem o presidente.

A indicação do filho Eduardo para chefiar a mais importante embaixada do Brasil no Exterior recebe questionamentos. Se passar no Senado, será por via da articulação da “velha política”, que ele execra.

A pauta do Executivo é aceita pela base de simpatizantes do governo, mas cada vez mais recebe sinais contrários da sociedade, como a questão do porte e posse de armas. Alguns projetos do Executivo são considerados inconstitucionais.

Na frente externa, países repelem a política ambientalista do governo. Países desenvolvidos reclamam do desmatamento, do pouco cuidado do país com questões ambientais. Alemanha e Noruega ameaçam parar de financiar um fundo em favor da preservação da Amazônia. Bolsonaro responde que nenhum país do mundo cuida tão bem de seu meio ambiente como o Brasil.

Há tensão entre o STF e o Ministério Público por causa de decisão do ministro Dias Toffoli de condicionar todas as investigações à autorização judicial. Essas investigações partem de informações principalmente do Coaf e da Receita, que apuram movimentações suspeitas. Para o MP, pode ser um golpe de morte contra a Lava Jato.

Há tensão entre o Executivo, o Legislativo e o MP por causa da Lava Jato. Políticos querem minar a operação, o MP defende sua plena continuidade e o Executivo tenta manter acesa a chama com apoio ao ministro Sérgio Moro.

Na frente da reforma tributária, as tensões começam a aparecer em torno dos projetos em pauta: um do ex-deputado Luiz Carlos Hauly, outro do relator e deputado Baleia Rossi, o terceiro de Marcos Cintra, chefe da Receita, defendido por Paulo Guedes e mais um patrocinado pelo movimento Brasil 200. A sociedade não quer ouvir falar na CPMF, mas dois projetos lembram a malfadada contribuição. Bolsonaro promete que ela não volta.

Há tensão entre Executivo e conselhos federais profissionais. Como a Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho de Medicina, de Arquitetura, dos Engenheiros, etc. Projeto do governo quer acabar com a obrigatoriedade de inscrição dos profissionais em conselhos de classe.

Há conflito até na estratégia para animação da economia, como é o caso da liberação do FGTS para trabalhadores ativos e inativos. Não houve consulta nem à Caixa nem à construção civil, que faz uso dos recursos do Fundo para a moradia.

E assim, sob sístoles, o corpo nacional vive seu mês de julho.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação [email protected]

 

Leia Também:  JOSÉ DE PAIVA NETTO - A nobre destinação de um cristal
Continue lendo

Envie sua denúncia

Clique no botão abaixo e envie sua denuncia para nossa equipe de redação
Denuncie

Política MT

Policial

Mato Grosso

Esportes

Entretenimento

Mais Lidas da Semana