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Opinião

LUCINEIA SOARES – O pós-Covid é terrível, mas é o “novo” normal e isso não é bom

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Quem está acompanhando a recuperação, se é que poderemos chamar de recuperação, ou será na verdade um outro normal, irá compreender o título do artigo.

A ordem angustiante da pandemia se inicia com o medo de contrair a COVID ou que alguém próximo seja contaminado. No meu caso, meu pai, naquele momento, com o teste positivo nas mãos, tudo o que se sabia sobre a doença, informações científicas a partir de fontes seguras deixam de existir e a vida da pessoa passa a depender até mesmo passa a pertencer a uma equipe de profissionais.

A você cabe ficar atento aos remédios que estão sendo administrados, correr no Google, buscar a sua utilidade, contraindicações, pesquisar quais protocolos estão seguindo e a cada entrada do enfermeiro, da técnica, da médica, tentar educadamente um esclarecimento, um alívio, um alento. Afinal, os profissionais também estão nos seus limites.

E lá se foram 29 dias de internação, muitos exames para tratar o quê a COVID provoca no organismo. E agora já sabemos que o vírus provoca muitas outras coisas. Dentre elas,  muitas foram provocadas pela desinformação largamente difundida e defendida, porque quem deveria agir com precaução, como o uso a Ivermectina que pode ter sido uma das causas de uma lesão no fígado. Sabemos que comprovadamente tratar vermes não tem nada a ver com o enfrentamento de um vírus.

Depois do medo de contrair, de morrer, você sai do hospital curado da COVID, somente dele, porque o pulmão não é o mesmo, o fígado, a força muscular, o ânimo, a disposição, a saúde mental, nada, nem do paciente e nem de quem está próximo dele.

E isso é terrível!!!

Não há mais um dia igual ao outro. Não há uma estabilidade, não há uma certeza de que tudo voltará, no mínimo, a ser próximo do que era.

E isso reafirma algo que muitos economistas dizem, inclusive, em outros artigo que escrevi, que não há dicotomia entre a vida e a economia. A economia depende da vida, da vida de pessoas saudáveis, com plena capacidade física e mental.

O meu pai tem 71 anos e é aposentado. O impacto da sua condição na economia é pequeno. Agora, imagine uma geração de jovens e adultos com sequelas que restringem a sua capacidade de trabalhar, de produzir, de ter renda, consumir, para além dos medicamentos, ter prazer pela vida e voltar a ter equilíbrio emocional

E isso tudo em um país onde é preciso trabalhar e contribuir por 40 anos para ter direito à aposentadoria.

Imagine!!!????

Esses trabalhadores precisarão mais vezes da Previdência Social, se estiverem no mercado de trabalho com a carteira registrada devidamente.

Se não estiverem nesta condição, o retorno à atividade laboral pós-Covid será no mercado informal, onde estarão desprotegidos e à margem dos direitos.

E em um cenário mais negativo, não conseguindo retornar ao mercado de trabalho formal ou informal, serão usuários da Política de Assistência Social.

Lembrando que a grande maioria das pessoas irá para o SUS em busca dos serviços de reabilitação pulmonar, muscular, vitaminas, medicamentos etc., não conseguindo, o seu quadro clínico não apresentará uma boa evolução.

Portanto, o mesmo Estado que é governado por um presidente que critica severamente as medidas de segurança sanitária, o país que mesmo tendo uma das políticas públicas de imunização mais eficientes do mundo e que não consegue avançar significativamente na vacinação contra a COVID, em um futuro próximo, virando a esquina, deverá, mas talvez não faça, a destinação de mais recursos para estas políticas públicas

À outra parte da sociedade que apoia estas críticas, peço que imagine o futuro da sua empresa que precisaria de trabalhadores criativos, ávidos, saudáveis fisicamente e principalmente mentalmente, terão à sua disposição no mercado de trabalho pessoas adoecidas, fragilizadas e muito distantes do que seria sua produtividade sem a COVID.

Após um mês de alta do hospital, o retorno ao médico, o resultado dos exames deixou claro que o período pós-Covid é terrivelmente amedrontador, porém, será o nosso normal e isso não é bom nem para a vida dos brasileiros e nem para economia.

Lucineia Soares – Economista, Mestra em Política Social e Doutora em Sociologia.

 

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2 Comentários

2 Comments

  1. Triste mais É real esse cenário em que não somos platéia mais vivenciando o Impacto da Economia na Vida e a Vida com e na Economia no jeito brasileiro.

  2. Maria Ester Moreira Machado disse:

    Pois é, é devido esse “repúdio de usar um remedinho de verme que não serve prá nada”, que muitas pessoas se contaminaram , várias morreram, outras se recuperaram , e outras ficaram com sequelas. Suponhamos que eu esteja dentro de um avião dele deu pane e está caindo , tem vários paraquedas que não tem a segurança do órgão responsável. Eu visto o paraquedas e tento salvar a minha vida ou vou me esborrachar com o avião? Óbvio que vou colocar o paraquedas. O mesmo para o remédio. Meu irmão com essa mesma colocação da Lucinéia ficou 17 dias na UTI e saiu com sequelas. Eu prefiro me precaver antes.

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Opinião

LICIO MALHEIROS – Regularização fundiária

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O engendramento e alinhamento entre os poderes constituídos, quando ocorre de forma harmoniosa e dirigida com objetivo de atender os mais humildes os expropriados do capital, aí a coisa flui.

Para que isso ocorra, necessário se faz, a quebra de paradigmas, mais do que isso, a ruptura das barreiras, institucionais, partidárias e por aí vai.

Principalmente, pelo despojamento dos seus pares, em deixar de lado: vaidade pessoal, egocentrismo, soberba e por aí vai, principalmente, em se tratando do Poder Público.

Quando isso ocorre, a tendência, é que a coisa tenda a caminhar, em direção a um bem comum que é restritamente dirigido à justiça social e igualdade.

No mundo moderno vivemos hoje, injustas desigualdades sociais, fruto do pluralismo, do individualismo e da intolerância, fatores estes, que acabam refletindo diretamente nas condições de vida de muitos brasileiros, desta forma ampliando cada vez mais a pobreza urbana, algo a ser corrigido.

Quando nos deparamos com uma notícia alvissareira por parte do governo estadual, na pessoa do governador Mauro Mendes (DEM), sobre Regularização Fundiária.

Regularização esta, que se deu através da sinergia e parceria entre os poderes constituídos, o Executivo e o Legislativo; que não mediram esforços no sentido de disponibilizar recursos, para este tão sonhado feito, a titulação desses imóveis de forma definitiva.

Nessa parceria entre os poderes, a ALMT, retirou de seus cofres R$ 7,5 milhões para garantir que o programa fosse à frente. Parabéns, ao Governo do Estado e aos trabalhos dos 24 deputados estaduais, que unidos liberaram orçamento da Assembleia para somar com o dinheiro do Intermat e do MT Par, para a realização desse feito memorável; atingindo os moradores dos bairros CPA I, II e IV respectivamente.

Os títulos entregues são documentos de posse definitivos, registrados em cartório. A emissão da certidão cartorária é o que garante, de fato, a propriedade do imóvel aguardada há décadas pelas famílias. Com a posse legal, o morador não só viverá com mais segurança, como terá o direito a sucessão (de herança), de venda, e de utilizar o imóvel como garantia para empréstimos.

Vale lembrar, que os documentos serão entregues nas casas das pessoas para evitar aglomerações, e sem custo algum.

Como sou adepto ao uso das redes sociais, mais precisamente ao Facebook; deparei-me, com a postagem do deputado estadual Elizeu Nascimento (PSL), político municipalista, portanto, com uma trajetória política voltada a atender os bairros da capital, principalmente os periféricos.

Em sua fala, exalta a alegria e satisfação pelo feito memorável alcançado, e vai além ao diz “Como vice-presidente da Comissão de Agropecuária, Desenvolvimento Florestal e Agrário e Regularização Fundiária da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT); hoje participei de um sonho que agora é realidade para os moradores dos bairros CPA I, II na entrega de títulos de regularização fundiária, que aconteceu na Escola Ana Maria do Couto no bairro CPA II e para os moradores do CPA IV 1 ETAPA na Escola Victorino Monteiro da Silva, esse feito é motivo de orgulho e satisfação por parte de alguém oriundo da periferia”, sábias palavras deputado.

Professor Licio Antonio Malheiros é geógrafo

 

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EMANUEL FILARTIGA – Os Saberes da Floresta

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À mangueira do quintal de casa, que me segurou quando eu caí.

O Brasil perde 24 árvores por segundo. Parece não haver tempo para os órgãos de fiscalização ambiental chegarem a todos os alertas de desmatamento feitos pelos satélites que monitoram, pelas denúncias anônimas que chegam, pelas chamadas por telefone que tocam …

Não conheci meu avô, mas lembro da sua voz. Quando eu andava pelo quintal, curioso, ao puxar uma folha verde de uma planta, o som forte e rouco veio: “Não faça isso, menino!”

Meu irmão, sempre que o chão duro e as palavras de chumbo da vida nos apertam, convida-nos a ter com as árvores e a cachoeira. Quando sai de baixo da queda d’água ou do meio da mata, ele diz: “Alas, tava precisando”. Meu irmão sabe da ecologia de saberes de que nos fala Boaventura Sousa Santos.

Não nos esqueçamos que o Brasil é país que tem nome de árvore. Ela está no nosso DNA. Lembremos sempre, leitor amigo, em nosso sangue não há apenas plasma, hemácias, leucócitos e plaquetas; há seiva, terra e vida.

E é com a dor de terra sem mata, com o grito da árvore quando tomba, com o vazio que enche olhos, que eu quero lembrar a você, a você com as motosserras físicas ou imaginárias: a floresta em pé tem mais valor que os troncos, galhos e folhas deitados.

Não me venha falar que isso é desenvolvimento, globalização ou necessária exploração de recursos naturais. Não é isso que vemos. Só vemos serra, fogo, ranger, quebra e vazio; acima de tudo vazio. Vejo o solo vazio, a gente vazia e a memória vazia.

Na Odisseia de Homero, Ulisses não pode, nem sequer por um segundo, “esquecer o retorno”, mesmo com todos os obstáculos, com todas as aventuras, ele não pode esquecer de onde veio. A viagem nunca é só de ida. O desejo de um futuro a ser conquistado é garantido pela memória de um passado.

Como disse Ítalo Calvino, “…a memória conta realmente – para os indivíduos, as coletividades, as civilizações – só se mantiver junto a marca do passado e o projeto do futuro, se permitir fazer sem esquecer aquilo que se pretendia fazer, tornar-se sem deixar de ser, ser sem deixar de tornar-se.”

Somos, no interior e no início e para sempre, povo da floresta.

*Emanuel Filartiga é Promotor de Justiça em Mato Grosso

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