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Opinião

WILSON SANTOS – Há 100 anos, Adalgisa de Barros era empossada professora na Vila de Várzea Grande

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Em 1920 foi um ano de transformações no 3º Distrito Cuiabano. A partir da década de 20, Várzea Grande passa a receber melhor atenção dos governos na área de ensino, nos setores econômicos e sociais.
Os irmãos Curvo transferem o Saladeiro de Cuiabá para Várzea Grande, autorizados pela Intendência Municipal. Grande número de famílias de Nossa Senhora do Livramento e de Santo Antônio Leverger passam a radicar-se na terra Varzeana no decurso das décadas de 20, 30 e 40.
No governo de Dom Aquino Corrêa, a normalista Adalgisa Gomes de Barros, natural de Rosário Oeste foi nomeada professora de uma escola feminina de Várzea Grande. Assim, em 12 de fevereiro de 1920, dona Adalgisa era empossada no cargo de professora na Vila (3º Distrito Cuiabano), quando tudo era moroso, triste, atrasado e uma onda de crimes era uma constante no núcleo emperrado. Também sem luz elétrica, sem água, de ruas e estradas tortuosas sem nada enfim.
Esforçada e inteligente, dona Adalgisa deu novos rumos ao ensino e interessou-se pela Vila em todos os ramos de atividades, conseguindo muitos melhoramentos durante os 17 anos que passou em Várzea Grande.

OUTRAS PROFESSORAS

Adalgisa de Barros foi transferida para Cuiabá em 1937, por imposição do novo regime, O Estado Novo. Por sua indicação ao Interventor Antônio Mena Gonçalves, foi criada a primeira Escola Reunidas em 1931 e que deu margem ao desenvolvimento do ensino na Vila.
Em sua gestão, várias professoras cuiabanas foram dedicadas mestras em Várzea Grande, enfrentando a travessia em canoas ou pela morosa balsa do Didito, e o duro trajeto a ser feito num velho ônibus. Foram: Maria da Glória Freire, Maria Orgina Freire, Ângela Jardim, Maria E. Freire, Amélia Vieira de Figueiredo, Antônia de Arruda e Sá, Erzila Curvo, Eunice Modesto Curvo, Amália Marques de Arruda, Helena Marques, Jacy Serra, Alzira Santana (segunda diretora das Escolas Reunidas) entre outras.
Essas mestras cuiabanas prestaram relevantes serviços na época, pois firmaram a estabilidade do ensino na Vila, uma vez que até então existia somente duas escolas, uma masculina sob a direção do Mestre Jacobina, e outra feminina sob a orientação da professora Mariana Serra.
Fonte: Livro Várzea Grande – Passado e Presente Confrontos 1867/1987, de Ubaldo Monteiro.

Wilson Pires de Andrade é jornalista em MT.

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Opinião

EDMILSON DA COSTA PEREIRA – Legado da ética

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Aristóteles da Macedônia, discípulo de Platão (Século IV A.C.), considerava que todas as manifestações do conhecimento humano nascem do mesmo tronco, dando substancial importância à aproximação entre caráter e costume, registrando que a virtude do caráter, que é virtude da ética, não se adquire por meio de lições, mas pela prática e repetição, ou seja, pelo costume.

Ainda segundo Aristóteles, o ser humano tem duas características que o fazem diferente dos outros animais: uma é a noção do bem e do mal, do justo e do injusto; outra é a natureza associativa, resultando na sua caracterização como animal político.

Ética implica, portanto, em uma seleção de comportamentos informados por valores ligados à busca do bom e do justo. Tal seleção não se faz arbitrariamente ou por um processo meramente intelectual, mas ocorre a partir da reiteração da prática.

Por isso, a transmissão de ensinamentos sobre ética pode não ter qualquer significado prático, sendo irrelevante falar de ética, escrever sobre ética, simular respeito à ética, se não houver comportamento ético.

As noções de Ética e o respeito a princípios que culminam com a evolução da humanidade, só podem ser repassados por meio do conhecimento tácito, onde os exemplos sejam esboçados na busca do ideal de felicidade humana, direito reservado a todos, indistintamente.

Com o tempo, aprendi que, independentemente de nossas manifestações de cunho científico, cultural ou religioso, a vida é simplesmente um sistema, porquanto não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento.

Os animais dependem da fotossíntese das plantas para ver atendidas as suas necessidades energéticas. As plantas, por sua vez, dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais e do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes e, juntos, vegetais, animais e microrganismos regulam a biosfera e mantêm as condições propícias à preservação da vida.

Nesse contexto, a definição de papéis sociais é, sem dúvida, o maior desafio do ser humano. Como, afinal, conectar esse sistema universal com as nossas ações diárias, com o nosso mundo particular, sobretudo na perspectiva de que somos agentes revestidos de poder para empreender a tarefa de transformação da sociedade.

John Kenneth Galbraith afirmou que “o exercício do poder é inevitável na sociedade moderna e nada em absoluto se realiza sem isso…. O poder pode ser maligno, do ponto de vista social, mas, do mesmo ponto de vista também é essencial”. Essa essencialidade reside no fato de que o poder é o meio de resolução dos conflitos gerados nas organizações sociais.

O Poder tem sido tergiversado por aqueles que se habilitam a exercê-lo, além da dimensão pessoal. Confundem-no como se fosse uma extensão dos seus domínios – materiais e intelectuais, e, por isso, não é raro constatar práticas reducionistas para adoção de medidas supostamente igualitárias como restritas à sua área de discernimento. Exercer o Poder exige sintonia com o todo. Por isso acredito que alguns dirigentes da modernidade são bem mais incompetentes que aqueles que, arbitrariamente construíram as bases da sociedade moderna.

Os arautos da modernidade criam teses e antíteses que acomodam seus interesses, reproduzindo-as, pelos meios disponíveis, democratizados pela tecnologia, como se fossem a única verdade. E mais…. ousam rotular de incompetente aqueles que propagam posições diversas. Mas na prática, no cotidiano, executam ações completamente díspares.

Além de se portar com Ética é indispensável, ao homem, a sintonia com o todo. Isso pode parecer inexequível. Não é, basta entender a sua finitude e empreender ações voltadas para a compreensão do ser humano, além do nível intelectual ou econômico que ostenta. Não se combate a prepotência com as mesmas armas adotadas pelo opressor. A história está cheia de exemplos.

Sócrates, o grande Sócrates da Grécia antiga, filho de exímio artesão, deixou o conforto e a segurança do lar paterno, abandonou o ofício de ourives, de grande reconhecimento no Século V A.C., para dedicar-se à discussão de princípios de liberdade no mercado municipal de Atenas.

Os gregos perderam um ourives, mas legaram ao mundo o grande filósofo, cuja nota mais marcante foi a sua obsessão pela transformação do homem, na incessante busca da perfeição.

Não é preciso ter grandes conhecimentos para concluir que a sociedade foi construída com as bases lançadas por homens que se não conseguiram a projeção de Sócrates, agiram com suporte em ideias libertárias como as dele.

Assim somos nós. Que me perdoem os ímpios, mas não basta acreditar na possibilidade de construção de uma Nação justa como sonhamos, reproduzindo teses a respeito, sem desencadear esforços para isso. É fundamental a conexão com a realidade. E antenar-se com a realidade requer aproximação, capacidade de interpretação e de transformação dos conflitos. As mudanças não se operam pela peroração de um discurso, mas sim, pela construção de toda a peça.

É desse poder especial que falo – da consciência do todo, do universo…, ainda que na reflexão de coisas diminutas, insignificantes. E isso não se resume à ocupação das redes sociais para ofender ou mesmo disseminar interpretações pessoais sobre algo. Aliás, quase ninguém comunica mais nada. Todos se acham no direito de expressar o que pensam sobre tudo – a partir de fatos e dados – não raro mal elaborados, comentam e julgam, sem qualquer pudor.

Não…. muito do que se dissemina por aí atualmente, não pode ser interpretado como legado de ética. É só a expressão de soberba, vaidade e da arrogância intelectual – mesmo de quem não tem.

Aristóteles da Macedônia, discípulo de Platão (Século IV A.C.), considerava que todas as manifestações do conhecimento humano nascem do mesmo tronco, dando substancial importância à aproximação entre caráter e costume, registrando que a virtude do caráter, que é virtude da ética, não se adquire por meio de lições, mas pela prática e repetição, ou seja, pelo costume.

Ainda segundo Aristóteles, o ser humano tem duas características que o fazem diferente dos outros animais: uma é a noção do bem e do mal, do justo e do injusto; outra é a natureza associativa, resultando na sua caracterização como animal político.

Ética implica, portanto, em uma seleção de comportamentos informados por valores ligados à busca do bom e do justo. Tal seleção não se faz arbitrariamente ou por um processo meramente intelectual, mas ocorre a partir da reiteração da prática.

Por isso, a transmissão de ensinamentos sobre ética pode não ter qualquer significado prático, sendo irrelevante falar de ética, escrever sobre ética, simular respeito à ética, se não houver comportamento ético.

As noções de Ética e o respeito a princípios que culminam com a evolução da humanidade, só podem ser repassados por meio do conhecimento tácito, onde os exemplos sejam esboçados na busca do ideal de felicidade humana, direito reservado a todos, indistintamente.

Com o tempo, aprendi que, independentemente de nossas manifestações de cunho científico, cultural ou religioso, a vida é simplesmente um sistema, porquanto não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento.

Os animais dependem da fotossíntese das plantas para ver atendidas as suas necessidades energéticas. As plantas, por sua vez, dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais e do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes e, juntos, vegetais, animais e microrganismos regulam a biosfera e mantêm as condições propícias à preservação da vida.

Nesse contexto, a definição de papéis sociais é, sem dúvida, o maior desafio do ser humano. Como, afinal, conectar esse sistema universal com as nossas ações diárias, com o nosso mundo particular, sobretudo na perspectiva de que somos agentes revestidos de poder para empreender a tarefa de transformação da sociedade.

John Kenneth Galbraith afirmou que “o exercício do poder é inevitável na sociedade moderna e nada em absoluto se realiza sem isso…. O poder pode ser maligno, do ponto de vista social, mas, do mesmo ponto de vista também é essencial”. Essa essencialidade reside no fato de que o poder é o meio de resolução dos conflitos gerados nas organizações sociais.

O Poder tem sido tergiversado por aqueles que se habilitam a exercê-lo, além da dimensão pessoal. Confundem-no como se fosse uma extensão dos seus domínios – materiais e intelectuais, e, por isso, não é raro constatar práticas reducionistas para adoção de medidas supostamente igualitárias como restritas à sua área de discernimento. Exercer o Poder exige sintonia com o todo. Por isso acredito que alguns dirigentes da modernidade são bem mais incompetentes que aqueles que, arbitrariamente construíram as bases da sociedade moderna.

Os arautos da modernidade criam teses e antíteses que acomodam seus interesses, reproduzindo-as, pelos meios disponíveis, democratizados pela tecnologia, como se fossem a única verdade. E mais…. ousam rotular de incompetente aqueles que propagam posições diversas. Mas na prática, no cotidiano, executam ações completamente díspares.

Além de se portar com Ética é indispensável, ao homem, a sintonia com o todo. Isso pode parecer inexequível. Não é, basta entender a sua finitude e empreender ações voltadas para a compreensão do ser humano, além do nível intelectual ou econômico que ostenta. Não se combate a prepotência com as mesmas armas adotadas pelo opressor. A história está cheia de exemplos.

Sócrates, o grande Sócrates da Grécia antiga, filho de exímio artesão, deixou o conforto e a segurança do lar paterno, abandonou o ofício de ourives, de grande reconhecimento no Século V A.C., para dedicar-se à discussão de princípios de liberdade no mercado municipal de Atenas.

Os gregos perderam um ourives, mas legaram ao mundo o grande filósofo, cuja nota mais marcante foi a sua obsessão pela transformação do homem, na incessante busca da perfeição.

Não é preciso ter grandes conhecimentos para concluir que a sociedade foi construída com as bases lançadas por homens que se não conseguiram a projeção de Sócrates, agiram com suporte em ideias libertárias como as dele.

Assim somos nós. Que me perdoem os ímpios, mas não basta acreditar na possibilidade de construção de uma Nação justa como sonhamos, reproduzindo teses a respeito, sem desencadear esforços para isso. É fundamental a conexão com a realidade. E antenar-se com a realidade requer aproximação, capacidade de interpretação e de transformação dos conflitos. As mudanças não se operam pela peroração de um discurso, mas sim, pela construção de toda a peça.

É desse poder especial que falo – da consciência do todo, do universo…, ainda que na reflexão de coisas diminutas, insignificantes. E isso não se resume à ocupação das redes sociais para ofender ou mesmo disseminar interpretações pessoais sobre algo. Aliás, quase ninguém comunica mais nada. Todos se acham no direito de expressar o que pensam sobre tudo – a partir de fatos e dados – não raro mal elaborados, comentam e julgam, sem qualquer pudor.

Não…. muito do que se dissemina por aí atualmente, não pode ser interpretado como legado de ética. É só a expressão de soberba, vaidade e da arrogância intelectual – mesmo de quem não tem.

Edmilson da Costa Pereira é Procurador de Justiça em Mato Grosso

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Opinião

JUACY SILVA – A igreja e a ecologia integral

Publicado

A medida que a crise ambiental, com destaque para as mudanças climáticas, se agrava, boa parte dos países, das lideranças mundiais, das organizações não governamentais e de um grande número de pessoas conscientes da gravidade e da urgência desta que é, sem duvida, a maior crise que o planeta enfrenta nos últimos séculos , percebemos que o tempo e a hora de agirmos está se esgotando inexoravelmente, antes que uma grande catástrofe coloque em risco a própria sobrevivência da espécie humana.

Isto não é alarmismo, apenas uma visão de future baseado em in formações científicas que estão à disposição até mesmo das pessoas mais simples.

Ou lutamos de verdade e não apenas com palavras para enfrentar a degradação ambiental ou um verdadeiro desastre, de proporção catastrófica irá se abater sobre a humanidade. Agora estamos diante de uma já quase pandemia decorrente do CORONAVIRUS, que já infectou quase cem mil pessoas e levou a óbito/morte pouco mais duas mil pessoas. Um verdadeiro pânico esta tomando conta do mundo, é o assunto que domina os meios de comunicação, abala as bolsas de valores ao redor do mundo, desestabiliza a economia e as finanças mundiais.

No entanto, a poluição do ar mata a cada ano mais de sete milhões de pessoas no mundo. Segundo dados da ONU e suas agências especializadas, incluindo a Organização Mundial da Saúde, em 2018 existiam 24,5 milhões de pessoas com AIDS, 228 milhões com malária e 10 milhões com tuberculose. As mortes decorrentes somente dessas três doenças no mesmo ano foram: AIDS, 770 mil óbitos; malária 405 mil e tuberculose 1,5 milhão; ou seja, total de 1,675 milhão de mortes. Outras informações indicam que só a FOME levou a óbito/matou mais pessoas do que essas três doenças juntas.

Todavia, mesmo diante de uma catástrofe como esta, onde quase dez milhões de pessoas morrem por doenças já conhecidas, diagnosticadas e que tem tratamento, ou diante da morte de milhões de pessoas só por poluição do ar, sem falar de outras mazelas ambientais que acabam também levando a morte a milhões de pessoas, como a falta de saneamento básico, falta de acesso `a água tratada, habitações precárias e sub-humanas, essas tragédias pouca atenção recebem por parte de governantes, da mídia ou até mesmo por parte da população que parece estar a cada dia mais anestesiada diante de uma catástrofe sem precedente, decorrente da degradação ambiental.

É bom também mencionar que por ano 1,35 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito nas avenidas/ruas das cidades e nas rodovias ao redor do mundo; mais 2,35 milhões de trabalhadores morrem vitimas de acidentes de trabalho; 464 mil são vitimas de homicídios a cada ano;  por suicídio em 2017 foram 800 mil casos e óbitos/mortes por todos os tipos de câncer em 2017 foram 9,6 milhões de casos.

Alguém ou enfim, os leitores deste artigo, podem estar se perguntando, o que tem tudo isto a ver com o titulo do artigo? Passo a responder este questionamento relembrando que existe um silêncio conivente e pecaminoso quanto à crise ecológica e suas consequências, que na linguagem do Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si (139), quando afirma “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma e complexa crise sócio ambiental. As diretrizes para a solução desta grave crise requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza”.

Diante deste Quadro complexo e grave, mesmo assim o Papa Francisco vê sinais de um novo despertar mundial (Laudato Si 19) ao afirmar que “Depois de um tempo de confiança irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade está entrando em uma etapa de maior conscientização. Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza e cresce uma sincera e sentida  preocupação pelo que está acontecendo com o nosso planeta”.

Este despertar pode ser notado em relação a diversos governantes, organizações da sociedade civil, às universidades, comunidade científica internacional, clubes de serviços, entidades esportivas, escolas e, também, em diversas igrejas ou grupos religiosos, com destaque para a Igreja Católica que tem mais de 1,2 bilhões de seguidores ao redor do mundo, evangélicos articulados pelo Conselho Mundial de Igrejas com mais de 500 milhões de fiéis; Igreja Católica Ortodoxa, diversas outras igrejas evangélicas como Luterana, Batista, Metodista, presbiteriana, algumas neopentecostais e até mesmo entre mulçumanos.

Essas igrejas/religiões possuem milhões de templos e locais de adoração, enfim, locais onde semanalmente ou até mesmo diariamente reúnem bilhões de pessoas ao redor do mundo para orarem/rezarem, ouvirem prédicas, homilias, sermões, estudarem as sagradas escrituras ou seus livros sagrados.

`A medida que o despertar da consciência ambiental ou o que o Papa Francisco e diversos teólogos de diferentes credos religiosos denominam de conversão ecológica, tendo em vista que o desrespeito e a degradação ambiental é um pecado, o chamada pecado ecológico; neste contexto o papel das Igrejas na defesa, na preservação e conservação do meio ambiente é de suma importância. E este despertar deve ser convertido em obras, ações e não apenas em palavras.

Não se trata de transformar as igrejas em ONGs ou centros de debates ideológicos, mas sim, inserir a questão da ECOLOGIA INTEGRAL no contexto da fé que cada grupo religioso professa,  analisar e agir dentro dos parâmetros que tais textos indicam, afinal, para quem acredita que “ Deus, ou a divindade que seja o princípio criador, todas as obras na natureza foram criadas por Ele, inclusive o ser humano”. Assim, o papel das igrejas, religiões em geral e da Igreja Católica em particular é maior ainda pelas razões bem conhecidas.

Existem diversos sinais deste despertar, principalmente a partir do inicio da década de 1970, quando da publicação dos resultados dos trabalhos da Comissão Mundial sobre o meio ambiente e o desenvolvimento, que passou a ser conhecido como “NOSSO FUTURO COMUM”. Ao longo dessas praticamente 5 décadas a ONU tem feito um grande esforço para abrir espaço em suas Assembleias Gerais e outros fóruns internacionais buscando aprofundar o conhecimento científico sobre a crise ecológica e os riscos da degradação ambiental, principalmente para as futuras gerações.

Diversas conferências de Meio ambiente foram realizadas como a ECO-92 e a Rio+20, ambas em nosso país, os vários tratados e acordos internacionais sobre o clima com destaque para Kyoto e o mais recente Acordo de PARIS, além dos trabalhos de grupos de cientistas que monitoram com seus estudos sobre a questão das mudanças climáticas e seus reflexos no planeta.

Foi também iniciativa da ONU o estabelecimento dos OBJETIVOS DO MILÊNIO, que vigorou até 2015, tendo sido substituídos pelos OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, ou agenda 2030, onde diversos dos 17 objetivos estão relacionados direta ou indiretamente com a questão socioambiental.

Cabe aqui alguns destaques ou realce para alguns desses objetivos, os quais foram firmados pela quase totalidade dos 195 países e territórios, inclusive pelo Governo brasileiro. Praticamente todos os 17 objetivos do desenvolvimento sustentáveis podem ser inseridos no paradigma da Ecologia integral. Vejamos: 1) Erradicação da pobreza; 2) Fome zero e agricultura sustentável; 3) saúde e bem estar; 4) Educação de qualidade; 5) Igualdade de gênero; 6) ‘Agua limpa e saneamento; 7) Energia limpa e acessível; 8) Trabalho decente e crescimento econômico; 10) redução das desigualdades dentro e entre países; 11) Cidades sustentáveis; 12) Consumo e produção sustentáveis; 13) Ação contra as mudanças climáticas; 14) Vida na água; 15) Vida Terrestre; 16) Paz, justiça e instituições eficazes.

Ora, se de fato, governantes e entes não governamentais estivessem de acordo com os compromissos firmados por praticamente todos os países, com certeza, tudo o que contém nos pressupostos e princípios da ecologia integral, nosso país e todos os demais não estariam enfrentando tantos problemas graves como os que já sobejamente conhecemos. O Brasil seria muito melhor e o mundo estaria em um novo patamar de desenvolvimento integral, diferente do que continuamos a perceber e sentir através da realidade tão cruel que dizima e exclui bilhões de seres humanos, o que não deixa de ser uma vergonha planetária.

Coincidindo com o “lançamento” dos objetivos do desenvolvimento sustentável, também em 2015, o Papa Francisco, de uma forma corajosa, destemida e inovadora publicou a chamada Encíclica Verde, a LAUDATO SI, que passou, desde então a ser uma referência tanto para a ação da igreja na questão do que se propugna seja não apenas um novo conceito, mas sim um NOVO PARADÍGMA, a chamada ECOLOGIA INTEGRAL quanto também para o agir das demais igrejas e credos religiosos. Como bem disse o Papa Francisco, a Laudato Si não é dirigida apenas aos Católicos, mas também “nesta Encíclica, pretende especialmente entrar em dialogo com todos acerca da nossa Casa Comum”.

Para elaborar esta Encíclica o Papa Francisco guiou-se, primeiro, pelos princípios e verdades contidas na Bíblia Sagrada, secundado pela Doutrina Social da Igreja, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, em 1891, passando pela Quadragésimo Ano de Pio XI em 1931; pela Encíclica Mater et Magistra de João XXIII em  1961; a Populorium Progresso do Papa Paulo VI em 1967; do mesmo Papa também a Encíclicas Octagessima Adveniens, de 1971  e as três Encíclicas do Papa, hoje São João Paulo II Laborens Exercens de 1981; Sollicitude Rei Sociali, de 1981 e Centesimus Annus de 1991, em comemoração ao centenário da Rerum Novarum.

Cabe aqui um destaque quanto à “consolidação” que foi fruto do trabalho do Pontifício Conselho  de Justiça do Vaticano em 2004, quando houve uma sistematização no “compêndio” da Doutrina Social da Igreja. Deve-se também destacar que outras contribuições que ajudaram a elaboração do texto final da Laudato Si também vieram dos resultados do Concílio Vaticano II, através da Encíclica Gaudium et Spes (Alegria e Esperança).

Mesmo que alguns setores da Igreja enfatizem que houve um certo “rompimento” ou mudanca de rumo entre o Papado de Bento XVI e das ênfases, orientações e exortações apostólicas do Papa Francisco, percebe-se, como mencionadas na Laudato Si, que por diversas vezes Bento XVI também apresentou suas exortações quanto `a necessidade dos cuidados com o meio ambiente, com constantes de suas Encíclicas Deus Caritas est (2005) e Caritas in Veritate (2009) quando afirma “Por isso a Igreja, com sua ação, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também e sobretudo, proteger o homem da destruição de si mesmo”.

Nesta mesma linha de raciocínio Bento XVI  afirma na Encíclica Caritas in Veritate (2009) que “o mercado, por si mesmo não garante o desenvolvimento humano integral e nem a inclusão social. Entretanto temos um superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora”.

Além da influencia das diversas Encíclicas dos Papas que o antecederam, ao formular seu paradigma da ECOLOGIA INTEGRAL, o Papa Francisco se inspira também nos escritos do  jesuíta, teólogo e filósofo francês Pierre de Teilhard de Chardin, bem como nas obras de  Thomas Berry (1994), Leonardo Boff e Virgil Elzondo (1995), Michael Cohen (1993), Jacques Maritain. Todos esses pensadores e escritores refletiram sobre as inter-relações entre o ser humano e a natureza e a necessidade de uma abordagem integradora, holística.

De uma forma ou de outra surgiram diversos conceitos para possibilitar a análise da realidade ambiental e suas inter-relações com o ser humano, na busca do “progresso” e “desenvolvimento”.

Leonardo Boff e Elizon tanto em 1995 quanto 1997 destacam que existe uma conjugação entre o grito da terra e o grito dos pobres e que somente através do paradigma da ecologia integral que leve em consideração os aspectos culturais, sociais, políticos, econômicos e espirituais poderão viabilizar a ecologia integral em suas ligações necessárias para um desenvolvimento integral, sustentável, harmônico e, verdadeiramente, humano, que não gere pobreza, fome, miséria e nem exclusão social.

Para o Papa Francisco este é o caminho quando descreve essas realidades da ecologia ambiental, da ecologia econômica, da ecologia social, ecologia cultural e da ecologia politica, em uma nova síntese que seria a ECOLOGIA INTEGRAL e para complementar menciona também a Ecologia da vida humana, responsável pelo autêntico progresso que produza uma melhoria global na qualidade de vida humana e no espaço/território onde as pessoas transcorrem sua existência.

Fala também na Laudato Si (151) que “é preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentido de estar em casa, dentro da cidade (ou do território) que nos envolve e nos une”. Só assim, em minha opinião, a Igreja pode ter a “cara da Amazônia”, com sua diversidade cultural milenária, seus costumes, suas práticas religiosas, suas crenças e seus sonhos e ao mesmo tempo ser uma Igreja missionária, em saída, considerando sua opção preferencial pelos pobres e, ao mesmo tempo, uma Igreja acolhedora e profética, não temendo denunciar as injustiças e as práticas da violência, seja contra as pessoas ou o meio ambiente e a sua biodiversidade. A defesa da vida, em todas as suas formas, também faz parte da ecologia integral e é uma missão permanente da Igreja em todas as suas instâncias.

Como corolário do paradigma da Ecologia Integral o Papa Francisco destaca os tres “T” Terra, teto e trabalho, que são condições necessárias e fundamentais para a dignidade das pessoas e dos povos não apenas da Amazônia, mas também que se aplicam as demais regiões dos países, principalmente na América Latina, Ásia e África, onde estão concentrados os maiores contingentes de pobres e excluídos. No caso da Exortação Apostólica Pos Sinodal Querida Amazônia esta ideia, foi reforçada de forma bem clara.

Nesta Exortação Apostólica, além de reafirmar a importância do Documento Final do Sínodo dos Bispos “Amazônia: novos caminhos para  a Igreja e para uma Ecologia Integral”, aprovado por ampla maioria dos participantes, Francisco aponta alguns de seus sonhos para a Igreja e para a Amazônia, com destaque para:

  1. a)     Um sonho social – “ o nosso é o sonho de uma Amazônia que integre e promova todos os seus habitantes para poderem consolidar o “bem viver”;  mas impõe um grito profético e um árduo  empenho em prol dos mais pobres;
  2. b)      b) Um sonho Cultural – “ o objetivo é promover a Amazônia, isto, porém, não implica coloniza-la culturalmente, mas fazer de modo que ela própria tire o que for o melhor de si mesma;
  3. c)      Um sonho ecológico – “numa realidade cultural como a Amazônia, onde existe uma relação tão estreita entre o ser humano com a natureza, a vida diária é sempre cósmica. Libertar os outros de suas escravidões implica, certamente, cuidar do seu meio ambiente e defende-lo”.
  4. d)     Um sonho eclesial – “A igreja é chamada a caminhar com os povos da Amazônia…O caminho continua e o trabalho missionário, se quiser desenvolver uma igreja com rosto amazônico, precisa crescer numa cultura do encontro, rumo a uma harmonia pluriforme”.

Ao relatar este seu sonho ecológico, o Papa Francisco mencionada Bento XVI quando afirma “ Esta é primeira ecologia que precisamos. Na Amazônia, compreende-se as palavras de Bento XVI, quando dizia que “ ao lado da ecologia da natureza, existe uma ecologia que podemos  designar “humana”, a qual, por sua vez requer uma ecologia social”, esta é a ideia de que tudo esta conectado, tanto na Amazônia quanto nos demais território em todos os continentes, razão pela qual a ecologia integral é um novo paradigma que se aplica a todo o planeta.

Quando fala de seu sonho Eclesial Francisco destaca em sua Exortação apostólica (63) “A autêntica opção pelos mais pobres e abandonados, ao mesmo tempo que nos impele a libertá-los da miséria material e defender seus direitos, implica propor-lhes a amizade com o Senhor que os promove e dignifica”.

Neste particular, inserido na ecologia integral Francisco fala da importância das florestas para a estabilização do clima; das águas; dos solos e da proteção e cuidados com os ecossistemas e a defesa da biodiversidade.

Para que a Ecologia integral seja possível de ser concretizada é necessário que a Igreja como um todo, suas estruturas eclesiáticas, bem como um engajamento mais firme por parte do clero e também do laicato, para que em todas as paróquias, comunidades, dioceses e Arquidioceses este novo paradigma inspire novas formas organizacionais, como as PASTORAIS DA ECOLOGIA INTEGRAL, os observatórios e inúmeras ações possam ser levadas a cabo tendo o meio ambiente e as pessoas como pontos de referência.

Neste particular merece uma reflexão especial e mais detida sobre o Documento Final  “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ECOLOGIA INTEGRAL”, aprovado por ampla maioria dos participantes do Sínodo dos Bispos para a Pan Amazônia.

No Capítulo que trata da Igreja que cuida da “Casa Comum” na Amazônia, este caminhar é explicitado em a) A dimensão socioambiental da evangelização, principalmente no item 79 quando afirma “A Doutrina Social da Igreja, que há muito tempo lida com a questão ecológica, é, hoje enriquecida com um olhar mais abrangente que abarca a relação entre os povos da Amazônia e seus territórios, sempre em dialogo com seus conhecimentos e sabedorias ancestrais”;

  1. b) Igreja pobre, com e para os pobres a partir das periferias vulneráveis, onde no item 80 afirma textualmente “ Reafirmamos nosso compromisso de defesa da vida em sua integralidade, desde   a concepção até o seu ocaso e a dignidade de todas as pessoas”.

No Capítulo que trata dos Novos Caminhos para a promoção da ECOLOGIA INTEGRAL, no item que discute a “interpelação profética e mensagem de esperança para toda a Igreja e para o mundo inteiro”, podemos destacar as discussões sobre o “pecado ecológico” como “uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, contra a comunidade e contra o meio ambiente”, é também “um pecado contra as futuras gerações. Propõe ainda a necessidade da “criação de ministérios especiais para o cuidado da Casa Comum e a proteção da ECOLOGIA INTEGRAL no nível paroquial e em cada jurisdição eclesiástica, que tenham como funções, entre outras, o cuidado com o território e das águas, bem como a promoção da Encíclica Laudato Si. Assumir o programa pastoral educativo e de incidência da Encíclica Laudato Si, seus capítulos V e VI, em todos os níveis e estruturas da Igreja”.

O item b, indica a necessidade ou sugere a criação do Observatório Sócio pastoral da Amazônia, como mecanismo para fortalecer “a luta em defesa da vida”. Este observatório seria uma integração das ações dos diversos movimentos,  organismos, instituições e pastorais que atuam diretamente na ação evangelizadora da Igreja, incluindo REPAM, CARITAS, Centros de Direitos Humanos, Universidades Católicas, CIMI, CPT e outros mais.

Com certeza, a implementação da ECOLOGIA INTEGRAL, não apenas na Amazônia, como nas demais regiões do Brasil e de outros países Amazônicos e Sul Americanos é um novo e grande desafio para a Igreja, mas do qual ela não poderá fugir, sob pena de que todo o arcabouço de sua Doutrina social e todas as referências sobre meio ambiente contidos na Bíblia Sagrada sejam transformados em meros conceitos acadêmicos ou até mesmo em palavras mortas, neste sentido, e tendo em vista a opção preferencial pelos pobres, a Igreja não pode estar abraçada com os poderosos e de costas para o sofrimento do povo, isto também é um pecado ecológico.

Oxalá passamos refletir mais profundamente sobre toda esta complexa realidade e a urgência que a catástrofe ambiental esta a exigir de cada cristão e da Igreja como um todo.

JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, colaborador de alguns veículos de comunicação. Email [email protected] [email protected]

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