conecte-se conosco


Saúde

Varíola dos macacos: cientistas já viam risco de expansão da doença

Publicado

source
Imagem de microscópio colorizada artificialmente mostra vírus da varíola dos macacos (azul)
Foto: NIAID-NIH

Imagem de microscópio colorizada artificialmente mostra vírus da varíola dos macacos (azul)

O surto internacional de casos de varíola dos macacos fora da África em maio surpreendeu parte da comunidade médica, mas epidemiologistas que já estudavam a doença afirmam que a ocorrência deste evento era uma questão de tempo. Desde os anos 1970, a ocorrência de casos nativos vem aumentando a cada década, as infecções em outros continentes seguem em função destes.

Na República Democrática do Congo, principal centro endêmico, os casos que eram dezenas na década de 1970 se tornaram, centenas depois de alguns anos, depois milhares após a virada do século, e agora dezenas de milhares. Em outros países, casos que eram menos de dez na década de 1990 já eram mais de uma centena na década passada, agora já foram mais de 600 antes de ter se passado um quarto da década atual.

Em dezembro do ano passado, antes de o atual surto iniciar, pesquisadores liderados por Robert Steffen, professor da Universidade do Texas ligado à OMS revisaram toda a literatura médica de epidemiologia sobre o assunto, que era pequena, com 48 artigos relevantes. “A aparição de surtos além da África realça a relevância global da doença”, escreveram os cientistas. Como o estudo constatou que a idade das pessoas contraindo a doença está aumentando a cada década, os pesquisadores validaram a conclusão de que a doença estava emergindo entre pessoas nascidas depois da década de 1970, quando a varíola humana foi erradicada, e a vacinação cessou. O imunizante tinha proteção cruzada contra varíola dos macacos, que agora só existem em pessoas mais velhas, uma parcela menor da população.

Por ter uma letalidade relativamente baixa, a doença atraiu pouca atenção de autoridades sanitárias em países mais ricos, mas pode ser grave para pacientes com imunidade prejudicada. Como é uma virose que custa um pouco a passar, até um mês, e provoca vesículas em muitos casos, ela pode ter um impacto social razoável pela necessidade de isolar as pessoas. A variante do oeste africano, que circula agora globalmente, é menos letal que a da bacia do Congo, o maior centro endêmico, afirma Steffen.

Na bacia do Congo e na Nigéria, a doença é endêmica, porque ocorre em populações de roedores e outros animais. Estes ocasionalmente a transmitem para humanos. (Apesar do nome, não é uma doença típica de macacos).

O vírus entrou no radar das autoridades brasileiras impulsionado por outro patógeno. Quando ocorreu um grande surto do vírus ebola no oeste africano, o Brasil possui o desenho de um plano para lidar com doenças potencialmente emergentes, e a varíola dos macacos era uma delas.

“Em 2014, nós fizemos uma revisão no fluxo de comércio do Brasil com aqueles países da África Ocidental, porque nós temos grupos que vira-e-mexe se expõem nessa região. São militares em missões em regiões endêmicas, empresários que atuam nesses países, pessoas que vão trabalhar na diplomacia e outras”, conta Wanderson Oliveira, ex-chefe da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), órgão do Ministério da Saúde que cuida de epidemias.

Tanto na Copa do Mundo de 2014 quanto na Olimpíada em 2016, o plano especial do Brasil para lidar com eventuais doenças importadas tinha a varíola dos macacos na lista de preocupações. Pouca atenção foi dada ao fato, sobretudo depois que a zica já estava circulando no país. Segundo Oliveira, apesar das trocas de governos e de ministros da Saúde de lá até aqui, o plano de vigilância perdurou e está sendo implementado agora.

“Se tivermos um casos suspeito de varíola dos macacos já é emitido um alerta importante, e se surgir um caso confirmado já é considerado um surto”, diz Oliveira. Segundo Oliveira, por não ter ligação muito direta com as áreas endêmicas, o Brasil é menos vulnerável que outros países, e talvez passe incólume pelo atual surto global, mas é preciso reforçar a vigilância em “pontos-cegos” da vigilância, como a ligação da África subsaariana com grandes hubs aéreos fora de lá, especialmente nos aeroportos de Casablanca, Paris e Lisboa. Outro ponto vulnerável é o comércio marítimo, principalmente em zonas portuárias de Rio, Santos e Recife onde existem zonas de prostituição.

Estigma e transmissão

O surto atual, com 1.300 casos na África, até quinta-feira já contabilizava 350 casos fora do continente. O espalhamento global, sobretudo para EUA e Europa e Austrália, foi relacionado por epidemiologistas a dois “eventos superdisseminadores”. No caso, duas raves, uma modalidade de festa em que há muito contato próximo entre os frequentadores. Alguns dos casos ocorreram em homens gays.

Estigma e preconceito contra homossexuais, houve quem associasse a doença à promiscuidade. Mas a varíola dos macacos não está necessariamente ligada ao sexo, apesar de o contato sexual tornar a transmissão mais provável. Os primeiros casos dessa década na Inglaterra incluíam uma criança que contraiu o vírus dos país e uma enfermeira que cuidou de um doente, segundo estudo da Universidade de Liverpool.

“O sexo envolve muito contato de todo tipo, não só a penetração vaginal ou anal, mas também contato de pele. Esfregando pele com pele ocorre a transmissão”, explica o médico Alexandre Naime, professor da Unesp e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Ele ressalta que o sexo anal tem um potencial maior de transmissão, pela fragilidade da mucosa intestinal, e que o uso de preservativo pode ajudar na prevenção.

Assim como Oliveira, Naime acredita que o Brasil tem uma chance razoável de ser poupado da importação de casos, mas é preciso estar alerta até o surto se arrefecer. “A perspectiva mais provável é que o surto tenha ainda algum crescimento no número em alguns países, sobretudo com o mundo todo atento para detectar os casos. Pode ocorrer um aumento de duas ou três vezes no número de casos, nas próximas duas ou quatro semanas, depois um platô e uma queda, porque temos uma vigilância global ativa”, diz Naime.

A atenção da vigilância é importante no momento também para o Brasil, sobretudo depois de a Argentina ter confirmado dois casos na última sexta-feira, os primeiros da América Latina.

Entre no  canal do Último Segundo no Telegram e veja as principais notícias do dia no Brasil e no Mundo. Siga também o  perfil geral do Portal iG .

Fonte: IG SAÚDE

publicidade
Clique para comentar

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Saúde

Jovem mais alérgico do mundo morre: ‘Só queria viver uma vida normal’

Publicado

Homenagens foram feitas para Paul Braithwaite
Reprodução 07/07/2022

Homenagens foram feitas para Paul Braithwaite

Conhecido como o “menino mais alérgico do mundo”, Paul Braithwaite morreu aos 20 anos de idade nesta terça-feira, em Manchester, na Inglaterra. Ainda quando bebê, médicos diagnosticaram Paul com “gastroenteropatia eosinofílica”, o primeiro caso registrado no mundo desde 1906.

Trata-se de uma doença rara que prevalece no sexo masculino e causa dores abdominais devido a infiltração de eosinófilos (célula de defesa do sangue) no trato gastrointestional. A vida do jovem era repleta de restrições devido as alergias.

Aos 20 anos ele ainda vestia roupas para crianças de 10 a 11 anos, pois seu crescimento foi atrofiado pelas medicações.

“Ele só queria viver uma vida normal: queria ter um cachorro, queria aprender a dirigir e dar a volta no quarteirão. Ele tinha um conjunto de necessidades muito complexas e lutava a cada passo. Esteve em ambulâncias aéreas, reanimação e terapia intensivas e nada o derrubou”, disse Kelly, mãe de Paul, em entrevista ao The Sun.

Outro sonho que não pode ser realizado pelas alergias era o de ter um cachorro e comer diferentes tipos de alimentos, coisa que muitas pessoas tem garantidas por suas condições de saúde.

“Meu filho tinha vergonha de sua aparência e de quão pequeno ele era. Mas a coragem dele era inigualável. Ele não pediu para nascer assim, e eu fiz tudo o que pude por ele”, completou a mãe.

A condição exaustiva de saúde o fazia vomitar e ter erupções cutâneas se tivesse contato com a luz do sol, grama, tecidos, poeira e animais. As alergias deixavam a pele vermelha, mas o sofrimento diário não tirava a alegria de Paul.

“Ele era muito solitário, mas era feliz assim. A vida é muito curta. Tudo o que ele sempre quis foi ser normal”, lamentou o pai, Darren Braithwaite.

O funeral de Paul, jovem que solidarizou diversas pessoas ao longo da sua vida, será realizado em 18 de julho.

Entre no  canal do Último Segundo no Telegram e veja as principais notícias do dia no Brasil e no Mundo. Siga também o  perfil geral do Portal iG.

Fonte: IG SAÚDE

Continue lendo

Saúde

Estudos apontam que dívidas impactam na saúde cardiovascular e mental

Publicado

Estudos mostram como as dívidas impactam na saúde cardiovascular e mental; entenda
FreePik

Estudos mostram como as dívidas impactam na saúde cardiovascular e mental; entenda

A realidade de alta inflação, com o acumulado nos últimos 12 meses acima de dois dígitos, taxa elevada de desemprego e crise econômica levam o país a contar com uma fatia considerável de brasileiros endividados. O cenário afeta o bolso, mas também a saúde, apontam estudos.

E os impactos vão muito além dos já conhecidos, como aumento de ansiedade e depressão, sendo associados também a um risco maior para doenças cardiovasculares e a um sistema imunológico enfraquecido para combater infecções, alertam especialistas.

De acordo com uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), para 78% dos brasileiros a incerteza financeira é a principal causa de preocupação.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO explicam que esse estado de alerta permanente promove um quadro de estresse crônico que, consequentemente, provoca uma liberação constante de hormônios.

“São hormônios que respondem ao estresse físico, sendo liberados durante exercícios, por exemplo, mas que também respondem ao estresse psíquico, como é o caso do endividamento. É o caso da adrenalina, do cortisol e seus derivados, que aumentam a frequência cardíaca e a pressão arterial” , explica a endocrinologista Ana Carolina Nader, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Rio de Janeiro (SBEM – RJ).

Esse desequilíbrio na circulação causado pelos hormônios leva o risco para doenças cardiovasculares, e até mesmo de morte, a ser quase o dobro para adultos sem uma renda extra, mostrou um estudo conduzido por pesquisadores suecos, publicado na revista científica BMC Public Health. “Hoje nós temos diversos trabalhos mostrando esse verdadeiro eixo entre cérebro e coração. Esses mecanismos desencadeados pelo estresse levam a espasmos de vasos do coração, aumentando o risco de infarto e de acidente vascular cerebral (AVC). No caso de pessoas que já têm predisposição a doenças cardiovasculares, o quadro é piorado na fase de estresse”, afirma a cardiologista Salete Nacif, diretora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP).

Os maiores impactos são entre os mais velhos. Um estudo do Centro de Pesquisa de Finanças Pessoais (PFRC) da Universidade de Bristol e do Instituto Internacional de Longevidade do Reino Unido (ILC-UK) mostrou que aqueles que estão lutando para gerenciar suas finanças com mais de 50 anos são oito vezes mais propensos a ter níveis reduzidos de bem-estar mental do que as pessoas na mesma faixa etária com melhores condições econômicas.

Porém não são restritos a essa faixa etária. Pesquisadores da Universidade de Colorado Denver, da Dartmouth College e da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, descobriram que os impactos podem chegar cedo na vida.

Com base na análise de dados coletados entre 1994 e 2018, de mais de 4 mil pessoas que ao fim tinham até 44 anos, o estudo constatou que o risco para desfechos cardiovasculares foi consideravelmente maior entre aqueles que fizeram um empréstimo ou estavam constantemente endividados em relação aos que já fizeram um empréstimo, mas que foi pago, ou que nunca se endividaram.

Além do perigo para o coração, Ana Carolina acrescenta que há hormônios ligados à liberação da glicose que atuam para gerar mais energia quando o estresse é físico, mas no caso da preocupação crônica pela situação financeira podem estar por trás de quadros de hiperglicemia em pessoas diabéticas ou com genética suscetível à doença.

Maior risco para infecções

O estresse crônico também fragiliza o sistema imune. Segundo um novo estudo, publicado na revista científica Nature, esse impacto acontece porque ele ativa neurônios de uma região chamada de hipotálamo paraventricular.

Essa área impulsiona uma migração de células imunes em larga escala dos linfonodos – estruturas que funcionam como filtros para agentes infecciosos – para o sangue e a medula óssea.

Esse mecanismo diminui a ação dos agentes de defesa no combate a infecções. Para chegar a essa conclusão, especialistas realizaram um experimento com camundongos em que os animais foram expostos aos vírus da influenza e da Covid-19. Os grupos sob estresse tiveram menor ação do sistema imune, quadros mais graves da doença e índices maiores de óbito.

“Esse trabalho nos diz que o estresse tem um grande impacto em nosso sistema imune e na sua habilidade de combater infecções. Ele levanta muitas questões sobre como fatores socioeconômicos, estilos de vida e o ambiente em que vivemos controlam a forma como nossos corpos conseguem se defender”, disse o autor do estudo Filip K. Swirski, do Instituto de Pesquisa Cardiovascular da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, em Nova York, em comunicado.

Além disso, uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriu que o estresse contínuo pode acelerar o envelhecimento do sistema de defesa. 

Publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo observou que a realidade leva a uma diminuição acelerada no número das células T chamadas de imaturas, que conseguem responder melhor a novos vírus e bactérias. É a diminuição que leva, por exemplo, os idosos a serem mais vulneráveis a infecções, processo que acontece mais rápido sob estresse.

Ana Carolina, da SBEM-RJ, explica que um dos motivos para isso acontecer é porque o cortisol, um dos chamados “hormônios do estresse”, além de aumentar os riscos cardiovasculares, tem um efeito imunossupressor no organismo, reduzindo as barreiras de defesa.

“Ele funciona mediando uma série de funções no corpo, e aumentado no corpo promove alterações nos sistemas imunológicos, diminuição das defesas e sintomas relacionados a essa queda, como cansaço e fadiga”, afirma a endocrinologista.

Impactos na saúde

 Há ainda as consequências mais conhecidas, porém não menores, das dificuldades financeiras: os impactos para a saúde mental. E esses quadros acentuados de ansiedade e depressão tornam mais difícil sair de uma situação de endividamento, constatou um estudo publicado na revista científica International Journal of Social Psychiatry.

“Torna-se um ciclo vicioso, porque os impactos do estresse financeiro na saúde mental deixam a pessoa cada vez mais debilitada para lidar com a sua situação econômica. Quando a equação saúde física e financeira é positiva, isso estimula a pessoa a planejar e organizar a sua vida. O que não acontece quando ela é negativa”, explica a doutora em psicologia clínica, Ana Maria Rossi, presidente da ISMA – BR e diretora da clínica de Stress e Biofeedback.

Além disso, ela destaca que, em casos mais graves, esses quadros de saúde mental fragilizada pela situação financeira podem levar a cenários de abusos de substâncias, como álcool e remédios. Isso porque algumas pessoas acabam buscando uma forma de se “anestesiar” para lidar com a situação, explica a diretora da ISMA-BR.

 Para amenizar esses impactos do estresse crônico no corpo e na mente, as especialistas destacam que é preciso atuar em duas frentes: maneiras de organizar as finanças e formas de melhorar a saúde do corpo.

“Parte importante é o diálogo com a família, porque envolve gestão do orçamento e, em muitos casos, contenção de gastos. Pode ser necessária também uma orientação especializada, nesse caso iniciativas voluntárias são melhores para não gerar um novo gasto”, diz Ana Maria.

Para ter condições de pensar sobre o problema de forma prática e racional, a psicóloga reforça que é importante priorizar um sono reparador, sem que os problemas sejam levados para a cama. Isso porque noites mal dormidas também agravam os riscos de doenças cardiovasculares, aumentam a gordura abdominal e visceral e levam a uma rotina de fadiga que dificulta a realização de atividades como trabalho e gestão das finanças durante o dia.

“Como medidas preventivas para os desfechos cardiovasculares temos que pensar em dietas saudáveis, pobres em gordura e em sal e ricas em frutas e verduras, além de atividade física regular, com pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica por semana”, orienta a cardiologista Salete Nacif.

Para aqueles que podem ter dificuldades de encaixar o exercício físico na rotina, Ana Maria Rossi sugere que uma boa saída é aproveitar os momentos do dia em que é possível utilizar escadas no lugar de elevadores ou descer alguns pontos antes do ônibus para fazer uma caminhada. Embora não seja muito, o exercício já promove uma ajuda significativa, diz a diretora da clínica de Stress e Biofeedback. No entanto, os especialistas lembram que em casos mais acentuados de problemas de saúde mental e de efeitos na circulação, como dores no peito, taquicardia constante e pensamentos autodepreciativos, é indispensável a busca por uma ajuda médica especializada.

Entre no  canal do Último Segundo no Telegram e veja as principais notícias do dia no Brasil e no Mundo.  Siga também o  perfil geral do Portal iG.

Fonte: IG SAÚDE

Continue lendo

Política MT

Policial

Mato Grosso

Esportes

Entretenimento

Mais Lidas da Semana