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Saúde

Vacina mais eficaz contra pneumonia é testada em humanos

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Pesquisadores do Instituto Butantan e do Boston Children’s Hospital, da Universidade Harvard (Estados Unidos), estão trabalhando juntos nos testes em humanos de uma nova vacina contra pneumonia, mais barata e abrangente que as versões atualmente usadas no Brasil.

Até agora, acredita-se que o imunizante é capaz de proteger contra todos os sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, causadora da doença.

O trabalho inicial foi conduzido pela pesquisadora do Laboratório Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan, Luciana Cezar de Cerqueira Leite, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp.

Segundo ela, Os testes clínicos fase I e II foram realizados na África e coordenados nos Estados Unidos pela equipe de Harvard, com apoio das Fundações Bill&Melinda Gates e do Path (Program for Appropriate Technologies in Health).

“Foram mais de dez anos de pesquisa até chegar a essa vacina celular. Inicialmente investigamos proteínas que poderiam ser usadas como alvo. Ao longo do percurso, surgiu a proposta da vacina celular, onde desenvolvemos o processo de produção e mudamos o adjuvante [substância capaz de potencializar a resposta imune] e até a via de administração. Inicialmente, pretendíamos criar uma vacina de administração intranasal, mas percebemos que o produto seria mais eficiente por via intramuscular”, explicou a pesquisadora.

Segundo Luciana, a pesquisa optou por usar uma estratégica diferente para ativar a resposta autoimune da vacina, usando como alvo proteínas comuns a todas os sorotipos do microrganismo, ao invés de usar os polissacarídeos presentes na cápsula bacteriana, como fazem as vacinas hoje disponíveis.  

De acordo com estimativas, existem em todo o mundo mais de 90 sorotipos de Streptococcus pneumoniae que, além de pneumonia, causa doenças como meningite, otite e sinusite.

Os sorotipos são definidos com base na combinação de polissacarídeos presentes na cápsula que recobre o microrganismo. Nas vacinas convencionais, essa combinação de moléculas vai determinar o antígeno que, quando introduzido no organismo, induz a formação de anticorpos.

Já o produto desenvolvido no Butantan é capaz de ativar a resposta imune independentemente do sorotipo da bactéria.

Luciana disse que é importante desenvolver uma vacina contra pneumonia que seja acessível e funcione para todos os sorotipos de pneumoniae.

“No caso específico da pneumonia, insistir na inclusão de novos sorotipos em vacinas conjugadas só aumenta a complexidade e os custos de produção, fazendo com que vacinas que já são caras se tornem ainda menos acessíveis a países em desenvolvimento, como o Brasil”, disse.

Versões

As vacinas pneumocócicas conjugadas disponíveis hoje protegem contra 10 a 13 sorotipos da bactéria. Uma versão não conjugada compreende 23 sorotipos, mas não é eficaz em crianças, sendo usada mais em adultos.

“A primeira geração de vacinas conjugadas era hepta valente, eficaz contra os sete sorotipos mais prevalentes na Europa e nos Estados Unidos. Porém, como a prevalência varia de uma região para outra, não apresentava uma cobertura muito boa para Brasil. Abrangia em torno de 60% apenas”, observou.

Com o tempo, a capacidade de conjugar cepas variadas foi aumentando e surgiram as versões 10-valente e a 13-valente.

“Mas há um problema nessa estratégia. Quando se tira de circulação as bactérias de um determinado sorotipo, outras cepas vão surgindo naturalmente e o imunizante perde eficácia. É a chamada substituição sorotípica”, disse.  

Além de mais abrangente, a vacina celular desenvolvida no Butantan não sofre o problema de substituição sorotípica.

“Outra vantagem está no preço. Embora seja difícil definir valores antes que o imunizante seja aprovado e comece a ser produzido, estima-se algo próximo a US$ 2. Atualmente, a vacina polissacarídica, a 13-valente, custa US$ 60 na rede privada e US$ 15 no Sistema Único de Saúde. Além disso a vacina anterior demora dois anos para ser produzida e a nova pode ser produzida em até dois meses”, reforçou Luciana.

Já foram concluídas a primeira (análise de segurança e toxicidade) e a segunda fase (análise de imunogenicidade) dos ensaios clínicos. “Pretendemos repetir a segunda fase nos Estados Unidos. É nessa etapa que se compara o tipo de resposta imune induzida em populações de diferentes países”, disse.

A terceira fase dos testes clínicos, ainda sem previsão para começar, envolve um número maior de pessoas e testa efetivamente a eficácia da vacina por meio da comparação entre uma população imunizada e outra que recebeu apenas placebo.

Edição: Kleber Sampaio

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Saúde

Para especialistas, medidas mais restritivas demoraram a vir em SP; entenda

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BBC News Brasil

Doria negou que a definição da data, um dia após o segundo turno das eleições municipais, tenha sido influenciada por questões políticas
Rafael Barifouse – Da BBC News Brasil em São Paulo

Doria negou que a definição da data, um dia após o segundo turno das eleições municipais, tenha sido influenciada por questões políticas

O governo de São Paulo anunciou um endurecimento das medidas de controle da pandemia de covid-19 . Todo o Estado está a partir de segunda-feira (30/11) na fase amarela do Plano São Paulo, que regula as atividades econômicas paulistas para combater o avanço do novo coronavírus (Sars-CoV-2).

As medidas anunciadas são uma reação ao aumento do número de casos, mortes e internações causadas pela doença no Estado nas últimas semanas.

Mas especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que as ações divulgadas hoje deveriam ter sido tomadas antes. Na sua visão, o governo de São Paulo ignorou seus próprios especialistas e foi “omisso” na condução do combate à pandemia.

O comitê que assessora o governo paulista havia, diante deste quadro, recomendado já na semana passada a adoção de mais medidas de controle, mas o governador João Doria (PSDB) preferiu esperar até o anúncio da reavaliação do plano, prevista para esta segunda-feira.

Doria negou que a definição da data, um dia após o segundo turno das eleições municipais, tenha sido influenciada por questões políticas e reafirmou que ela foi feita apenas com bases técnicas e científicas.

O que foi anunciado?

Até segunda-feira, seis das 18 regiões do Estado estavam na fase verde, a quarta das cinco etapas previstas pelo Plano São Paulo. Todas as outras regiões estavam na fase amarela, imediatamente anterior à verde.

Agora, as regiões que já estavam na fase verde voltarão para a fase amarela.

Entre estas regiões, estão a capital e sua a região metropolitana, as regiões de Campinas, Sorocaba, Taubaté, Piracicaba e a Baixada Santista. Elas representam 76% da população do Estado.

A alteração implica nas seguintes mudanças:

– Comércio de rua, shopping centers, galerias e outros centros comerciais: ocupação máxima passa de 60% para 40% da capacidade, com adoção de período de funcionamento limitado a dez horas.

– Serviços: ocupação máxima passa de 60% para 40% da capacidade, com adoção de período de funcionamento limitado a dez horas.

– Bares, restaurantes e similares: consumo só será permitido ao ar livre ou em áreas arejadas; ocupação máxima passa de 60% para 40% da capacidade, com adoção de período de funcionamento limitado a dez horas; manutenção do horário de funcionamento até 22h.

– Salões de beleza e barbearias: ocupação máxima passa de 60% para 40% da capacidade, com adoção de período de funcionamento limitado a dez horas.

– Academias de ginástica: ocupação máxima passa de 60% para 30% da capacidade, com adoção do período de funcionamento limitado a dez horas; atendimento passa a ser com hora marcada e agendamento prévio; suspensão de atividades em grupo, com permissão apenas de aulas e atividades individuais.

– Eventos: ocupação máxima passa de 60% para 40% da capacidade do local; manutenção do controle de acesso obrigatório, com hora marcada; adoção de assentos marcados; manutenção do distanciamento mínimo entre assentos; proibição de eventos com público em pé.

O que disse o governo de SP?

Doria justificou a mudança ao dizer que houve um “claro aumento da instabilidade da pandemia”, mas esclareceu que bares, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais, além das escolas, não serão fechados.

O governador afirmou que as medidas têm como objetivo “evitar aglomerações e o aumento do contágio”. “É uma medida de prudência que estamos tomando para melhorar o controle da pandemia”, disse Doria.

“Não é uma gripezinha, não é um resfriadinho. É uma pandemia gravíssima, a mais grave dos últimos cem anos, e isso vai exigir sacrifícios de todos e compreensão da situação dramática que estamos vivendo.”

João Doria celebra vitória de Bruno Covas

Reuters
Retrocesso em plano ocorre um dia após a reeleição de Bruno Covas (PSDB)

Doria descartou a adoção no Estado de um lockdown , como é chamado o conjunto de medidas de distanciamento social que prevê o fechamento do comércio não essencial e a proibição de circulação em espaços públicos.

“Não há perspectiva de lockdown . Não utilizamos o mecanismo em todos estes meses e, embora seja um mecanismo existente, não será aplicado”, afirmou o governador.

Antecipando críticas ao momento em que o anúncio foi feito, Doria negou que tenha havido um cálculo com base nas eleições municipais e num possível impacto negativo da repercussão do retrocesso sobre a candidatura do prefeito Bruno Covas (PSDB), que foi reeleito no domingo.

“O governo do Estado de São Paulo não teve, não tem e nunca terá nenhum interesse em medidas de ordem de saúde em medidas políticas nem eleitorais. As decisões são amparadas pelo que a ciência nos determina”, disse Doria.

“‘Ah, porque isso foi feito depois da eleição?’ Porque estava determinado dentro do programa do Plano SP. Não foi determinado pelo programa da eleição.”

A reclassificação estava orginalmente prevista para o dia 16 de novembro, mas foi adiada pelo governo estadual para o dia 30. Na época, houve um aumento de 18% nas internações por covid-19 no Estado.

O governo de São Paulo justificou a decisão na época dizendo que era preciso analisar os dados com mais cuidado, porque uma pane no sistema de dados do Ministério da Saúde poderia ter gerado distorções.

A secretária de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen, ressaltou durante o anúncio das novas medidas que o adiamento ocorreu para evitar que mais regiões do Estado passassem à fase verde, o que ocorreria se a reavaliação fosse feita naquele momento. Ellen não deu mais detalhes sobre os dados que embasaram essa decisão.

O que dizem os especialistas?

Na avaliação de epidemiologistas e infectologistas ouvidos pela BBC News Brasil, houve uma demora na adoção de medidas mais restritivas no Estado.

O próprio comitê de 20 especialistas que assessora o governo Doria no combate à covid-19 recomendou na quarta-feira passada (25/11) que as medidas de controle fossem ampliadas para combater a propagação do coronavírus.

Mas Doria preferiu esperar até a segunda-feira, quando já estava prevista uma atualização das ações. De acordo João Gabbardo, coordenador executivo do comitê, o governador avaliou que as sugestões feitas já estavam previstas no plano.

“Criar uma comissão de especialistas e não seguir sua recomendação é uma atitude um tanto petulante. Pra que a comissão existe se o governador não segue o que ela diz?”, questiona Marcio Sommer Bittencourt, médico do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP).

O epidemiologista avalia que as seis regiões que estavam na fase verde já deveriam ter regredido com o aumento de casos, mortes e internações das últimas semanas.

Bittencourt destaca ainda que o Plano São Paulo passou por mudanças que favoreceram a reabertura da economia.

“Eles mudaram os níveis de corte entre uma etapa e outra, tornando mais fácil progredir para fases com menos medidas de controle, e diminuíram a frequência de avaliação de a cada 14 dias para a cada 28 dias”, afirma.

Desta forma, diz o médico, não é possível falar em atraso, porque, na prática, o governo de São Paulo está cumprindo o prazo que havia sido estabelecido.

“Não é que deixaram de fazer o que deveriam, mas eles não estão adiantando medidas. Estão seguindo o plano, que é excessivamente frágil”, avalia Bittencourt.

Raquel Stucchi, infectologista da Universidade Estadual de Campinas, avalia que os índices dos últimos dez dias apontavam claramente um aumento de casos e de internações na rede pública e privada.

“Deveriam ter revisado ali as medidas. Não é fazer lockdown , mas retroceder um pouco para diminuir as chances de aglomeração”, diz ela.

No entanto, Stucchi avalia que a aplicação do Plano São Paulo, que foi “bem executado” e teve “certo sucesso” até agora, foi influenciada nas últimas semanas por fatores políticos e que o governo de São Paulo foi “omisso”.

Vista aérea do minhocão, em São Paulo

EPA
São Paulo terá novas medidas de combate ao coronavírus

“Por que o governo decidiu não seguir um grupo de especialistas que afirma que a pandemia está fora de controle e que medidas precisam ser tomadas?”, questiona a médica.

“Não há nenhuma outra explicação para ações importantes terem sido adiadas a não ser que estavam pensando no segundo turno, imaginando que isso seria impopular ou talvez por medo de mostrar que não estavam conseguindo controlar a pandemia.”

Ana Freitas Ribeiro, do serviço de epidemiologia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, concorda que novas medidas já deveriam ter sido tomadas contra o agravamento da pandemia em São Paulo.

A médica sanitarista ressalta que é importante que haja uma reação rápida das autoridades ao aumento dos índices, porque o crescimento de casos e internações normalmente refletem infecções que ocorreram cerca de 15 dias antes.

Além disso, somente os casos graves são detectados com o sistema de testagem atual, e eles representam apenas 20% do total em média.

Ou seja, quando se percebe que a pandemia piorou, isso já está ocorrendo há algum tempo, e o que é captado pelas estatísticas é apenas uma pequena parcela da realidade.

Por isso, diz Ribeiro, o ideal é que haja uma reavaliação das medidas a cada 15 dias e não uma vez por mês.

“Se você espera mais do que isso, o crescimento (de casos) pode ser muito alto e não haver leitos suficientes. E se há um aumento não há nada que indique que vá cair se continuar a haver uma circulação intensa de pessoas, se você não conscientizar a população nem evitar aglomerações”, diz a médica.

Pedro Hallal, do Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), concorda que a reavaliação deve ser feita em períodos mais curtos.

“Nosso senso de urgência na pandemia está sempre atrasado. Quando as pessoas se apavoram porque começou a lotar UTIs é porque o controle foi perdido duas ou três semanas antes”, afirma Hallal.

Em uma situação assim, é essencial adotar rapidamente novas medidas de controle de circulação de pessoas, porque esta é a única forma de conter um aumento repentino do número de casos e internações.

“Retardar estas medidas é uma atitude típica de quem não entende a dinâmica da pandemia.”

Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Ao contrário do que disse Bolsonaro, máscaras protegem contra Covid-19

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BBC News Brasil

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André Biernath – Da BBC News Brasil em São Paulo

Ao contrário do que disse Bolsonaro, máscaras protegem contra covid-19

Em sua tradicional live de quinta-feira, transmitida pelas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro fez alguns comentários a respeito da pandemia de covid-19 que assola o Brasil e o mundo. Ao falar de métodos de prevenção, ele lançou dúvidas sobre a efetividade das máscaras.

“A questão da máscara, não vou falar muito porque ainda vai ter um estudo sério falando da máscara, se ela protege 100%, 80%, 90%, 10%, 4% ou 1%. Vai chegar esse estudo. Acho que falta apenas o último tabu a cair”, disse.

A fala do presidente, no entanto, está em total desalinho com as recomendações adotadas por todas as entidades nacionais e internacionais, que não identificam nenhum “tabu” a respeito do tópico no momento.

Desde junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o uso de máscaras de tecido para todo mundo que precisa sair de casa.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, fez a mesma indicação um pouco antes, a partir do mês de abril.

No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece que cobrir nariz e boca com tecido é uma das ações preventivas mais importantes — em seu site, a pasta até disponibiliza um guia para a confecção dessas peças em casa.

O próprio Bolsonaro, inclusive, sancionou a lei 14.019/2020, publicada no Diário Oficial da União no dia 2 de julho, que fala sobre “a obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção individual para circulação em espaços públicos e privados acessíveis ao público, em vias públicas e em transportes públicos”.

Em meio a essa polêmica, será que ainda existe alguma dúvida sobre a efetividade das máscaras entre os especialistas?

A ciência por trás dos rostos cobertos

Se você lembrar bem, no início da pandemia a orientação das autoridades era para que a população geral, sem sintomas sugestivos de covid-19, não botasse máscaras.

O medo era que faltassem equipamentos de proteção para profissionais de saúde e pacientes, que são os grupos que mais precisam deles.

Além disso, suspeitava-se que ficar com o tecido na face causaria incômodo nas pessoas, que iriam levar mais as mãos ao rosto para coçar ou arrumar a posição da peça. A crença era que isso aumentaria os riscos de infecção.

“E, como tudo era muito novo, não sabíamos se o tecido comum protegeria de verdade”, relembra a infectologista Melissa Medeiros, que faz parte do corpo clínico do Hospital São José de Doenças Infecciosas e do Hospital São Camilo, ambos em Fortaleza.

Com o passar do tempo e o avançar da ciência, esses temores se mostraram exagerados. Por outro lado, começaram a surgir evidências de que o uso das máscaras, mesmo aquelas mais simples, feitas de pano, teria um papel importante a cumprir.

Foi justamente aí que OMS, CDC e outras organizações perceberam a mudança e atualizaram suas diretrizes.

Mas não existem trabalhos com o mais elevado grau de evidência que comprovem definitivamente a efetividade dessa estratégia.

Testes rigorosos, como aqueles que são feitos com as vacinas atualmente, são praticamente impossíveis de serem realizados com as máscaras.

Afinal, seria impraticável (e até antiético) pedir que milhares de pessoas fiquem semanas sem usá-las, se expondo ao risco de contrair um vírus mortal, só para comprovar uma hipótese de uma pesquisa.

O que temos, então, são estudos observacionais e epidemiológicos. Eles não refletem o nível máximo da evidência científica, mas é o melhor que se pode fazer na realidade atual. Portanto, são considerados suficientes para seguir com as recomendações.

As cabeleireiras do Missouri

Uma das primeiras pesquisas a indicar a efetividade da máscara aconteceu no Estado americano do Missouri. Duas funcionárias de um salão de beleza estavam com covid-19 e, sem sintomas, foram trabalhar normalmente.

Durante oito dias, elas interagiram por um período de pelo menos 15 minutos com 139 clientes diferentes. Detalhe importante: tanto as cabeleireiras como os fregueses usaram máscaras o tempo todo.

“Algum tempo depois, 67 dessas pessoas foram testadas e todas deram negativo. Era uma situação de alto risco e não foi observado nenhum caso secundário”, relata o médico Vitor Mori, do grupo Observatório Covid-19 BR.

Outros trabalhos do tipo foram realizados em vários países. Na Tailândia, por exemplo, mil pessoas foram entrevistadas para descobrir o risco de estarem com covid-19.

Aquelas que diziam usar máscaras em momentos com chances de exposição ao coronavírus tinham um risco 70% menor de ter a infecção.

De acordo com o CDC, outros sete estudos populacionais confirmaram os benefícios do uso generalizado das máscaras. Eles foram feitos com de milhares de pessoas num sistema hospitalar, numa cidade alemã inteira e em 15 Estados americanos, entre outros contextos.

Todas essas investigações revelaram que, após a orientação do uso desses equipamentos de proteção, a taxa de novas infecções se manteve estável ou até caiu. Em comparação, nos locais que não adotaram a estratégia, os números subiram nesse mesmo período.

O CDC ainda calcula que, se o uso das máscaras fosse ampliado em 15% nos Estados Unidos nos próximos meses, isso evitaria um novo lockdown no país e impediria um prejuízo de 1 trilhão de dólares, o equivalente a 5% do PIB americano.

Mas como a máscara funciona?

Os especialistas asseguram que a máscara traz ao menos dois benefícios: ela protege quem usa e, ao mesmo tempo, resguarda quem está por perto de um indivíduo infectado.

“O tecido vai impedir que o vírus entre no nosso nariz ou na nossa boca a partir das gotículas de saliva que saem de uma pessoa durante tosses, espirros ou conversas”, resume a médica Raquel Stucchi, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Foto do rosto de um homem, que usa uma máscara vermelha e preta

Getty Images
A máscara deve sempre cobrir boa parte do rosto (do topo do nariz até o queixo), sem passagens de ar nas bochechas

Esse mecanismo ganha mais importância porque já se sabe que a grande maioria dos pacientes com covid-19 não apresenta sintomas sugestivos (ou demora alguns dias para manifestar sinais da doença).

O preocupante é que esses indivíduos assintomáticos transmitem o vírus normalmente. Estima-se que eles sejam responsáveis por pelo menos 50% dos novos casos. O uso geral das máscaras, portanto, ajudaria a impedir essa difusão silenciosa pelas pessoas que nem sabem que carregam o coronavírus em seu organismo.

Ainda há um terceiro efeito benéfico dessa peça. Estudos preliminares revelaram que indivíduos que usam máscara, e mesmo assim pegam covid-19, costumam ter uma versão mais leve da enfermidade.

Especula-se que, nesses casos, a quantidade de vírus que ataca o corpo é menor. “Uma carga viral baixa estaria ligada a sintomas brandos e uma recuperação mais tranquila”, completa Mori. Mas esses ganhos dependem, claro, da escolha do modelo perfeito e de seu uso adequado.

Como escolher a sua?

As entidades nacionais e internacionais pedem que as máscaras tenham duas ou três camadas e cubram bem o rosto, desde a parte superior do nariz até o queixo. Elas devem ser feitas com algodão ou poliéster, com uma trama de tecido mais densa.

Portanto, não compre ou utilize modelos feitos com crochê que são vendidos por aí. Há algumas opções com lâminas transparentes de plásticos, que são ineficazes e até dificultam a respiração. “Evite também aquelas com rendas, bordados e pedrarias, pois isso dificulta a lavagem”, acrescenta Medeiros.

Existem vários cortes e estilos disponíveis hoje em dia. Procure aqueles que fiquem mais confortáveis e não machuquem as orelhas ou a nuca. No entanto, é importante que o tecido fique bem justo à pele e não apareçam passagens de ar nas bochechas, na maçã do rosto ou no queixo.

“A recomendação é que todas as pessoas com mais de dois anos de idade usem máscara o tempo todo que estiverem fora de casa”, diz Stucchi. A peça deve ser trocada imediatamente caso fique suja ou úmida. Se você vai ficar na rua por algumas horas, leve uma ou duas opções de reserva.

Dá pra lavar as máscaras na máquina, junto com o restante das roupas. Deixe secar bem antes de utilizá-las novamente. E, claro, se perceber algum rasgo nas camadas, é hora de jogar no lixo e renovar suas peças.

Vale lembrar que a máscara não é um salvo-conduto para relaxar as outras medidas. Ao sair, é primordial continuar cumprindo o distanciamento físico de pelo menos 2 metros e lavar bem as mãos com água e sabão ou, se não tiver uma pia e uma torneira por perto, com álcool em gel.

Modelos mais rebuscados

Além das versões de tecido, atualmente está mais fácil encontrar é a N95. Será que vale apostar nelas? Na maioria das vezes, as convencionais já dão conta do recado.

“Porém, caso você faça parte do grupo de risco para complicações pela covid-19 ou precisa se expor a uma situação mais arriscada, esses tipos podem trazer mais proteção”, sugere Mori. O mesmo recado vale para as máscaras cirúrgicas.

Foto de uma máscara N95 cinza

Getty Images
Máscaras profissionais, como a N95, podem ser utilizadas por idosos, pacientes com doenças crônicas ou quando o indivíduo vai se expor a uma situação de alto risco de infecção pelo coronavírus

Outro equipamento que gera muitas dúvidas é o face shield , aquela lâmina de acrílico que é presa a um aro na cabeça e forma um escudo em toda a face. Ele é essencial para profissionais de saúde ou aqueles que têm contato direto com o público (como recepcionistas, por exemplo). Mas em hipótese alguma deve ser utilizado sozinho, sem as máscaras.

Apesar da polêmica e das informações falsas que pintam por aí, precisamos ter em mente que precisaremos usar as máscaras por um longo período.

“Até que tenhamos vacinas seguras e eficazes e com uma grande porcentagem da população já imunizada, continuaremos a depender delas para nos protegermos”, adianta Stucchi.

Eis uma moda que chegou para ficar — pelo menos enquanto a pandemia estiver entre nós.

Fonte: IG SAÚDE

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