HENRIQUE LEÃO GUEDES

Problemas auditivos

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Problemas auditivos

Problemas auditivos vão muito além da audição em si. A perda auditiva, mesmo quando leve ou progressiva, interfere diretamente na comunicação, na autonomia e na participação social do indivíduo. Aos poucos, situações cotidianas como conversar em grupo, participar de reuniões ou manter diálogos em ambientes ruidosos passam a exigir esforço excessivo, gerando cansaço, frustração e afastamento social.

No consultório de otorrinolaringologia, é comum observar pacientes que relatam irritabilidade, desânimo e dificuldade de interação antes mesmo de associarem esses sintomas a um problema auditivo. Muitos passam a evitar encontros familiares, eventos sociais ou ambientes coletivos não por falta de interesse, mas pela dificuldade em acompanhar conversas e pelo constrangimento de pedir que as pessoas repitam o que foi dito.

Esse esforço constante para ouvir e compreender o outro tem impacto direto no bem-estar emocional. O cérebro precisa trabalhar além do esperado para compensar a limitação auditiva, o que pode levar à exaustão mental. Com o tempo, esse desgaste contribui para alterações de humor, redução da autoestima e sensação de incapacidade, especialmente quando o problema auditivo não é identificado ou tratado adequadamente.

Outro ponto importante é o estigma ainda associado à perda auditiva. Muitos pacientes adiam a busca por avaliação especializada por acreditarem que “ainda não está tão ruim” ou por associarem o uso de aparelhos auditivos exclusivamente ao envelhecimento. Esse atraso no cuidado prolonga o impacto negativo na qualidade de vida e intensifica o isolamento social.

É importante destacar que cuidar da audição não significa buscar uma audição perfeita, mas preservar a capacidade de comunicação, interação e participação ativa na vida cotidiana. O tratamento adequado, seja clínico, cirúrgico ou com o uso de dispositivos auditivos, costuma trazer benefícios que vão muito além da melhora técnica da audição, refletindo diretamente na autonomia e no bem-estar do paciente.

A saúde emocional está profundamente ligada à forma como nos relacionamos com o mundo. Ouvir bem é participar de conversas, manter vínculos, exercer autonomia e sentir-se incluído. Por isso, quando falamos em saúde mental, é fundamental ampliar o olhar e reconhecer que a audição exerce papel central nesse equilíbrio.

Neste momento em que se encerram as reflexões propostas pelo Janeiro Branco, vale reforçar que o cuidado com a saúde mental também passa por condições físicas frequentemente negligenciadas. Atenção à saúde auditiva, diagnóstico precoce e acompanhamento especializado são passos essenciais para promover não apenas uma melhor audição, mas uma vida mais ativa, integrada e emocionalmente saudável.

Henrique Leão Guedes é presidente da Sociedade de Otorrinolaringologia de Mato Grosso (SOMT)