Um pequeno espelho oval pendurado na parede da antiga barbearia do bairro, refletia histórias e segredos de gerações.
Entre navalhas e conversas fiadas, o cronista revisita aquele tempo em que cortar o cabelo era também conversar sobre a vida.
A rua do Meio — entre a de Baixo, do comércio e a e de Cima, da aristocracia cuiabana, era o território das barbearias.
O pequeno espelho oval, pendurado na parede, permitia que o freguês, envolto em uma toalha branca, acompanhasse o trabalho do barbeiro e trocasse com ele longas conversas.
Os antigos barbeiros usavam navalhas que afiavam em pedras próprias para esse fim.
Ninguém tinha pressa, e as conversas se estendiam durante o corte de cabelo e a feitura da barba.
Falava-se de tudo: da família, dos filhos, da política e das fofocas da cidade.
Depois dos sete anos, meu pai passou a me levar para cortar o cabelo — foi quando entrei para a escola pública.
Antes disso, era minha mãe quem se encarregava da tarefa.
Ela sempre pedia ao meu pai que orientasse o cabelereiro a raspar minha cabeça com a máquina zero, para evitar os piolhos tão comuns entre as crianças de cabelos compridos, que voltavam da escola trazendo o ‘presente’ para casa e contaminando os irmãos.
Lembro-me bem dos pentes finos, que nunca faltavam nas casas daquele tempo.
E também do prazer das adultas em colocar a cabeça das crianças no colo e passar horas ‘matando piolhos e lêndeas’ — os ovos dos piolhos
Minha mulher, muitos anos depois, ainda usou drogas farmacêuticas para eliminar os indesejáveis visitantes.
Esses pequenos insetos parasitam o homem e causam uma doença chamada pediculose.
Hoje, xampus, pentes finos e cuidados com o contato físico entre crianças são as armas mais eficazes.
Mais tarde, aprendi que os piolhos não são fruto da sujeira, mas do contato pessoal e do uso de objetos comuns — pentes, bonés, travesseiros.
Por isso, adotei o corte à lá Ronaldo Fenômeno: cabeça raspada e uma pequena ‘pastinha’ na frente.
No ginásio o corte seguia o estilo militar — o dos cadetes, com as laterais raspadas.
Assim eram os tempos e as histórias refletidas nos espelhos das barbearias.
Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado
