conecte-se conosco


Opinião

SÉRGIO CINTRA – O Leviatã tupiniquim

Publicado

Thomas Morus, no início do século XVI, brindou a civilização com sua “Utopia” (do latim Utopia – o não-lugar) ilha imaginária, na qual as relações sociais eram ideais. Parte da humanidade viveu, em um passado recente, muitas utopias:  o movimento Hippie, o anarquismo de Proudhon e  de Malatesta, a Revolução Cubana, entre outros. Todos suplantados pelo individualismo e pelo utilitarismo capitalistas. A contemporaneidade é marcada por distopias (do grego dys + topos – ruim lugar) que vão desde regime ditatorial e manipulador – vide Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley até totalitarismo e tecnologia controlando os cidadãos –  1984, de George Orwell.

Comumente, na atualidade, grande parte dos brasileiros é surpreendida por atos e falas governamentais absurdos, que  mais se assemelham ao Surrealismo, especificamente a René Magritte, pintor surrealista que levou ao extremo o absurdo, desafiando, não sem genialidade, a lógica e a razão. Ao contrário do artista belga, Bolsonaro é um mestre na arte de infantilizar situações e/ou aparvalhar-se com falas que beiram a insanidade. Um surreal distópico (intencional). São inúmeros os exemplos de sandice do capitão: defender o trabalho infantil a partir dos nove anos de idade ou pôr em xeque o Inpe ou sugerir que as pessoas defequem dia sim, dia não.    Atônita e estupefata, parcela da sociedade imagina estar vivendo um pesadelo ou, ainda, uma hecatombe sem precedentes históricos em Pindorama.

O multifacetado Arnaldo Antunes , em seu texto-manifesto “Isto não é um poema” diz: “como li por aí:/ ‘como explicar a lei Rouanet para quem/ainda não assimilou a lei Áurea?’/ou: como explicar a lei da gravidade/para quem ainda crê/que a terra é plana?/e querem defender sua ignorância com dentes/e garras/querem/matar atirar vingar/a quem?/em nome de quem?/ (pátria, família, propriedade, segurança?)”. O presidente e suas estultices contaminam diversos segmentos da sociedade e parte da imprensa conivente, fazendo daquilo que seria apenas hilário, algo demasiadamente trágico para o presente e para o futuro, comprometendo, irremediavelmente, as próximas gerações.

Não conseguimos, infelizmente, nos livrar dos tentáculos da Ditadura Militar (1964 – 1985), o Leviatã de Thomas Hobbes, autoritário e conservador,  emerge na Lagoa Rodrigo de Freitas e se transmuta para o Paranoá, trazendo consigo  reminiscências de coturnos e de censura; de fardas e de farsas; de generais e de falácias; de armas e de mortes. Apesar da noite que, novamente, se avizinha, é necessário que não se esqueça do poeta e guerrilheiro angolano Fernando Costa Andrade (1936 – 2009): “Juntei na mão/ os meus poemas/ e lancei-os ao deserto/ para que as areias/ se transformem em protesto”.

Sérgio Cintra é professor de Linguagens e de Redação em Cuiabá.

[email protected]

 

publicidade
Clique para comentar

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Opinião

PERCIVAL PUGGINA – Orgulho e preconceito: As tias do Zap

Publicado

Em comentário a um artigo que escrevi sobre mazelas nacionais, uma leitora se exclamou dizendo não ver saída nem solução. “O que posso fazer eu, que sou uma pobre tia do Zap?”, perguntou.
A indagação carregava clara desconsideração do próprio valor. Expliquei a ela que a expressão “tia do Zap” foi criada em laboratório com o intuito de suscitar precisamente esse sentimento, levando as mulheres a abdicarem de sua atividade como cidadãs em uma sociedade politicamente conflituosa.

Quem dera muitos milhões de mulheres se acrescentassem aos milhões de tias do Zap já motivadas! De fato, o Brasil já muito lhes deve. Elas estão nas ruas e estão nas redes sociais e estavam na linha de frente da mobilização que promoveu a derrota esquerdista em 2018.

É fácil compreender as razões da importância das mulheres para o apoio à preservação de princípios e valores, a saber: a preservação da inocência das crianças, a valorização do papel da instituição familiar, a defesa do direito ao trinômio vida-propriedade-trabalho, as mais veementes demandas por segurança pública, o combate à criminalidade e ao avanço das dependências químicas, a proteção da juventude contra influências nocivas no ambiente escolar.
Estas pautas são tão inerentes à condição feminina que, se explicitadas, constariam da agenda da imensa maioria das mães, avós e tias do Zap. Sabem por quê? Porque esses apreciáveis bens materiais e espirituais estão sob intenso ataque em todo o Ocidente e onde se façam sentir as filosofias embusteiras, tóxicas e destrutivas que nele prosperam periodicamente.
Tal enfrentamento político e cultural coloca o Brasil e seu atual governo no olho de um furacão publicitário e midiático. A política que rola aqui, em particular a futura eleição brasileira, interessa ao mundo e às suas tias do Zap bem mais do que os acontecimentos nos Estados Unidos, onde os mesmos problemas são enfrentados e onde as tias do Zap foram derrotadas em 2020.
Aos tropeços e por linhas tortas, com falta de meios e experiência, essa é uma empreitada em defesa da civilização ocidental, de sua cultura e de seus valores, frente a um novo totalitarismo emergente. O estrago que já fez mostra aonde quer chegar e certamente as mães, as avós, as tias e as educadoras de verdade percebem-no com cotidiana clareza.
Se há uma guerra contra a cultura ocidental e se essa é uma guerra sem armas letais, seus alvos e vítimas estão na essência do conservadorismo – religiosidade, instituição familiar, história e tradição.
Eis porque vejo com tanta esperança a ação das tias do Zap. Eis porque convivem elas com esse misto de justificado orgulho e malévolo preconceito.

PERCIVAL PUGGINA é arquiteto, empresário e escritor.

Continue lendo

Opinião

IRAJÁ LACERDA – Regularização fundiária: desenvolvimento dos Vales do Araguaia e do Guaporé

Publicado

Recentemente, produzi um artigo destacando o grande potencial de crescimento econômico das regiões dos Vales do Araguaia e do Guaporé, em Mato Grosso, que apesar de distantes geograficamente, possuem questões similares que envolvem problemas ambientais, fundiários e indígenas. Mas de que forma é possível superar essas dificuldades para oportunizar maior desenvolvimento a essas regiões?

O primeiro aspecto que podemos destacar é a regularização fundiária, pois toda pessoa que cumpre os requisitos legais e que possui a posse justa do imóvel, pode ter direito a sua regularização. Apesar de ser um mecanismo importante para o desenvolvimento regional, ainda requer atenção maior dos governantes de todo país. Mato Grosso já avançou muito, mas é importante dispensar todo o cuidado que essa questão merece para o estado avançar ainda mais.

Conforme estabelece a Nova Lei de Regularização Fundiária, Lei nº 13.465/2017, a regularização pode ser feita tanto na zona urbana, quanto na zona rural. Entretanto, a questão fundiária é bastante complexa, pois envolve questões jurídicas, econômicas, ambientais e sociais. Entre diversos problemas, destaca-se a falta de documentação, a impossibilidade de regularização de posses legítimas, os desmembramentos de matrículas com descrições precárias, além da posse em unidades de conservação e terras indígenas.

Uma questão fundamental é que a regularização proporciona segurança jurídica aos envolvidos, garantindo moradia e dignidade às famílias e acesso às linhas de crédito, o que garante recursos para investir na terra. Com isso, ocorrem melhorias significativas no ambiente dos assentamentos e dos municípios, o que contribui para impulsionar a economia local, da região e, consequentemente, do estado como um todo.

Por isso é tão relevante contar com um sistema de governança fundiária eficaz, que normatize, fiscalize e organize, determinando o acesso e o uso da terra. Para isso, são necessários estudos para elaboração de legislações, regulamentações e sistemas de informações interligados entre os órgãos competentes. Dessa forma, o poder público cumpre com o dever de promover a cidadania e fomenta o desenvolvimento de regiões estratégicas, como as do Vale do Araguaia e do Vale do Guaporé.

Irajá Lacerda é advogado e Chefe de Gabinete do Senador Carlos Fávaro. E-mail: irajá[email protected]

 

Continue lendo

Política MT

Policial

Mato Grosso

Esportes

Entretenimento

Mais Lidas da Semana