A suplementação de selênio tem sido cada vez mais comentada quando o assunto é saúde da tireoide. Nas redes sociais e até em algumas recomendações informais, o mineral aparece como uma espécie de “aliado indispensável” para quem tem hipotireoidismo, hipertireoidismo ou doenças autoimunes da tireoide. Mas até que ponto isso é verdade?. E quando a suplementação pode ser desnecessária ou até prejudicial?.
O selênio é, de fato, um micronutriente essencial para o funcionamento do organismo, e a glândula tireoide é um dos órgãos que mais concentram esse mineral. Ele participa da produção e da ativação dos hormônios tireoidianos e tem papel importante na proteção da glândula contra o estresse oxidativo. No entanto, como ocorre com muitos nutrientes, o benefício depende da dose, da indicação correta e do contexto clínico de cada paciente.
Verdade: o selênio é importante para a função da tireoide
É verdade que o selênio participa de enzimas fundamentais para a conversão do hormônio T4 em T3, a forma ativa do hormônio tireoidiano. Além disso, ele atua como antioxidante, ajudando a proteger as células da tireoide contra danos inflamatórios.
Por esse motivo, níveis adequados de selênio são importantes para a saúde tireoidiana, especialmente em pessoas com ingestão alimentar insuficiente.
Mito: todo paciente com problema na tireoide precisa suplementar selênio
Esse é um dos equívocos mais comuns. Nem todo paciente com doença da tireoide tem deficiência de selênio, e nem todo caso exige suplementação. Em muitas situações, uma alimentação equilibrada já fornece a quantidade necessária do mineral.
A suplementação indiscriminada, sem avaliação médica, não traz benefícios adicionais e pode gerar riscos. Antes de indicar o uso, é fundamental analisar o quadro clínico, os exames laboratoriais e os hábitos alimentares do paciente.
Verdade: o selênio pode ter papel específico em algumas doenças autoimunes
Em condições como a tireoidite de Hashimoto, alguns estudos mostram que a suplementação de selênio pode ajudar a reduzir marcadores inflamatórios e níveis de anticorpos em determinados pacientes. No entanto, os efeitos clínicos ainda são variáveis e nem sempre impactam sintomas ou a evolução da doença.
Além disso, isso não significa que o selênio substitua o tratamento convencional, nem que todos os pacientes terão o mesmo benefício. O uso deve ser individualizado, com dose e tempo de uso bem definidos, sempre com acompanhamento médico.
Mito: quanto mais selênio, melhor para a tireoide
O excesso de selênio pode ser prejudicial. Doses acima do recomendado podem causar efeitos colaterais como queda de cabelo, alterações gastrointestinais, fadiga e, em casos mais graves, toxicidade sistêmica. A tireoide não se beneficia de doses elevadas e desnecessárias do mineral.
Por isso, a ideia de “reforçar” a tireoide com altas doses de selênio é um mito e pode trazer mais riscos do que benefícios.
Verdade: a alimentação é a principal fonte de selênio
Alimentos como castanha-do-pará, peixes, frutos do mar, ovos e carnes são boas fontes de selênio. Em muitos casos, ajustar a alimentação é suficiente para garantir níveis adequados, sem necessidade de suplementos.
Vale lembrar que a castanha-do-pará, por exemplo, é extremamente rica em selênio, e mesmo pequenas quantidades já podem atingir ou ultrapassar a ingestão diária recomendada, tornando o consumo excessivo um risco.
O selênio é um nutriente importante para a saúde da tireoide, mas não deve ser encarado como solução universal para todos os problemas tireoidianos. A suplementação só é indicada quando há real necessidade, após avaliação individualizada e com orientação médica.
Na endocrinologia, não existe fórmula única. O cuidado com a tireoide envolve diagnóstico correto, tratamento adequado e escolhas seguras, sempre baseadas em evidências científicas e no acompanhamento profissional.
Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT