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Saúde

Seis meses de sintomas de Covid-19: “não sei como vou melhorar”

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BBC News Brasil

Monique
Monique Jackson/BBC

Monique mantém diário ilustrado sobre seus sintomas e suas tentativas vãs de obter tratamento

Monique Jackson contraiu  Covid-19 no início da pandemia e, quase seis meses depois, continua mal. Uma das milhares de pacientes afetadas por esse quadro, ela tem mantido um diário ilustrado sobre seus sintomas e suas tentativas vãs de obter tratamento.

Há cerca de um ano, ela assistiu a uma palestra do TED sobre cogumelos e ficou fascinada. O reino Fungi, afirmava o palestrante, é a original “world wide web” (ou rede mundial de computadores, na tradução corrente), com redes que percorrem florestas inteiras e permitem às árvores que ajudem umas as outras em caso de problema.

Nesses dias, em sua 24ª semana seguida de luta contra a Covid-19 , isso é algo em que pensa bastante.

Ela aparentemente tem o que se chama de “covid de cauda longa”, uma reação específica ao vírus que os médicos ainda estão longe de entender. Ela ficou doente em março, num quadro que parecia uma versão branda da doença, mas seus sintomas nunca foram embora. Meses depois, ela ainda tenta entender o que está acontecendo com seu corpo.

Monique é extrovertida, e quase hiperativa, segundo suas palavras. Em tempos normais, ela pratica boxe tailandês e jiu-jitsu, e pedala quase 20 km por dia para ir e voltar de seu emprego em uma galeria de arte no centro de Londres.

Mas, nos últimos meses, sua vida se transformou completamente. Agora, ela tem uma lista em seu quarto para lembrá-la de guardar energia suficiente a cada dia para escovar os dentes.

“Eu não sou uma pessoa preguiçosa”, diz. Alguns dias, no entanto, tudo que ela consegue fazer é descer as escadas.

Enquanto seu corpo se recusa a colaborar, ela encontrou uma válvula de escape no Instagram, onde começou um diário ilustrado de seus sintomas .

Ela usa o diário para falar sobre essa nova condição e se conectar com outras pessoas na mesma posição, os long-haulers (algo como “os que enfrentam longas jornadas”).

Muitos elementos do novo coronavírus ainda confundem os médicos, e a covid-19 “de cauda longa” é uma das características mais intrigantes da pandemia. Por que algumas pessoas contraem uma versão do vírus que simplesmente não vai embora, mesmo sendo geralmente pessoas que foram só levemente afetadas?

A drawing of Monique sweating

Monique Jackson

Monique ficou doente na mesma época que uma amiga, depois que fizeram uma viagem de trem juntas. No início, elas se mantinham em contato, seus sintomas estavam praticamente no mesmo ritmo, mas depois interromperam o contato por um tempo.

“Eu tive que parar, era muito estranho”, diz Monique.

Durante as primeiras duas semanas, ela se sentiu doente — estava tão cansada que mal conseguia se levantar da cama. Ainda estava frio em Londres, mas ela estava vestindo pouca roupa e segurava um saco de gelo na cabeça para se refrescar. Ela não mediu sua temperatura, mas acha que estava com febre.

“Eu sei que é estranho falar ‘eu acho’ sobre isso, mas muito do que eu passo é isso, eu acho, mas simplesmente não sei.”

Na segunda semana, ela começou a ter dificuldade para respirar. Uma ambulância chegou para atendê-la, mas seus níveis de oxigenação estavam normais. “Eles me disseram que eu estava tendo um ataque de pânico, provavelmente disparado pelos sintomas.” Ela não chegou a ser testada para covid-19 porque, em março, o Reino Unido restringia os testes apenas para os casos mais graves.

A drawing of an ambulance

Monique Jackson

Ela tentou se tratar com remédios naturais. Comeu alho cru e pimentas inteiras, e se lembra de ter pensado na estranheza de não sentir nenhum gosto. E ela estava exausta.

Depois de duas semanas, alguns sintomas sumiram, mas acabaram substituídos. “Senti um aperto no centro do peito. E ele se transformou no que parecia uma espécie de queimação”, diz ela. “Era uma, no lado esquerdo, de ranger os dentes. Achei que estava tendo um ataque cardíaco.”

A drawing of the feeling of heartburn

Monique Jackson

Ela ligou para a emergência, e eles recomendaram que ela tomasse paracetamol. Disseram a ela que o medicamento parecia fazer a dor desaparecer em algumas pessoas, embora não entendessem direito os motivos.

O paracetamol funcionou, mas assim que a dor passou, seu estômago e garganta começaram a queimar “como fogo” quando comia. Os médicos pensaram que ela estava com uma úlcera. Só tempos depois se descobriu que problemas gástricos eram um dos sintomas associados à covid-19.

Cerca de seis semanas depois, Monique começou a ter sensações de queimação ao urinar e dores nas costas. O médico prescreveu três antibióticos diferentes antes de concluir que não era uma infecção bacteriana.

“Foi apenas uma agonia”, diz ela. “E, de repente, simplesmente desapareceu.”

Monique in hospital on an IV

Monique Jackson

Monique se afastou das redes sociais. Até ouvir podcasts se tornou difícil porque qualquer menção à covid-19 a deixava ansiosa e afetava sua respiração. Viciada em notícias, ela simplesmente não conseguia lidar com isso.

Temia que, caso acessasse as redes sociais, veria uma postagem atrás da outra sobre mortes e cadáveres. Encontrou consolo nas compras online, mas mesmo ao colocar tamanho de vestidos nas buscas a levavam a histórias de terror sobre novos sintomas da doença. “Na verdade, estava com medo de entrar no Google.”

Depois de um tempo, pediu a um amigo que lhe contasse o que estava acontecendo no mundo. Uma das primeiras coisas que ouviu é que havia uma proporção maior de mortes de pessoas negras e de origens étnicas minoritárias. Monique é mestiça e estava com medo.

“Parecia um filme de terror onde todos os negros morrem.”

Monique in the bath listening to podcasts

Monique Jackson

No decorrer das semanas, alguns sintomas foram novamente substituídos por outros, e a situação foi ficando cada vez mais bizarra. Uma dor na nuca era acompanhada por uma estranha sensação na orelha. Suas mãos ficavam azuis, e ela precisava sacudi-las com força para que o sangue voltasse a elas.

“Continuei ligando para o médico para falar sobre novos sintomas e me perguntaram: ‘Como está sua saúde mental?'”, relata . “A conclusão é que esses sintomas não eram tratáveis ou não eram ‘reais’.”

Ela tinha erupções cutâneas estranhas por todo o corpo, seus dedos dos pés ficavam vermelhos, ela acordava com dores agudas em diferentes partes do corpo.

Uma noite, enquanto falava com uma amiga por telefone, sentiu o lado direito do rosto cair. Ela foi direto para o espelho, mas seu rosto parecia normal. Estava preocupada que estivesse tendo um derrame, mas os médicos não encontraram nenhuma evidência de que ela tenha sofrido um.

Monique looking at her face in the mirror

Monique Jackson

Monique também tinha sensações estranhas por todo o corpo. Às vezes, parecia que alguém estava agarrando a perna dela com as mãos ou os cabelos sendo arrastados pelo rosto, até mesmo dentro da boca.

Ela passou muito tempo tentando explicar a médicos o que estava acontecendo com ela. Em geral, tinha apenas cinco ou dez minutos por telefone para tentar retransmitir tudo o que estava acontecendo em seu corpo. Mas nunca era suficiente.

“Se eles me dissessem que eu tinha covid-19, mas não tinham ideia de como tratar, teria sido tudo bem.”

Ela hesita ao falar sobre seu tratamento, reluta em criticar os profissionais de saúde do NHS (sistema britânico de saúde pública), muitos dos quais foram bastante cuidadosos. Mas, para Monique, o sistema não consegue lidar com pessoas em sua situação.

Foram nove semanas até que Monique pudesse ser testada para coronavírus (o resultado foi negativo, mas não significa que não teve a doença). Nesse ínterim, ela temia ter passado o vírus para outras pessoas.

O governo britânico recomenda que as pessoas se isolem por sete dias ou até os sintomas sumirem. Mas o que fazer se eles nunca forem embora?

A drawing of the fridge

Monique Jackson

As pessoas que dividem a mesma casa que ela desenvolveram métodos para evitar contato, como os pontos da porta da geladeira que poderiam ser tocados por cada uma delas.

Passaram também a comer sozinhas em seus quartos.

Um dia, ela foi tomar um pouco de ar fresco em um parque perto de sua casa com um amigo quando uma criança pequena correu para perto dela. Monique deu um pulo para se afastar, e deixou a mãe indignada. “A criança não estava perto de você!” Monique tentou explicar que não tinha medo de contrair o vírus, mas sim de transmiti-lo. Pessoas doentes deveriam ficar em casa, respondeu a mãe da criança.

Ela espera que seu diário ajude as pessoas a entender que nem sempre é tão simples.

Monique shouts at a child as it runs towards her in the park

Monique Jackson

Enquanto alguns amigos faziam de tudo para ajudá-la, Monique notou que outros estavam ficando de saco cheio. Nada do que estava acontecendo com ela fazia sentido para ninguém. “Uma pessoa me disse que eu estava ficando obcecada em ter covid-19.”

Quatro meses depois dos primeiros sintomas, ela decidiu mudar de casa. Estava muito difícil cumprir com as tarefas domésticas, e seria melhor ficar próxima do suporte familiar.

Havia uma melhora do fôlego dela, e, agora em julho, já conseguia subir uma escada sem precisar parar. Mas, depois de usar o aspirador de pó por cinco minutos para tentar limpar seu quarto, ela colapsou por falta de ar.

Depois do episódio, passou três semanas de cama. E Monique não tem ideia de como ficar melhor.

Monique shivering in her bed late at night

Monique Jackson

Os médicos ainda não sabem como ajudar as pessoas cujos sintomas de covid-19 simplesmente não vão embora.

“Tem sido um pouco sobre o que eu posso ou não fazer, e ser flexível sobre meus planos porque meu corpo apenas não se importa com o que eu planejei.”

Monique passou a tratar também sua saúde mental, algo que lhe dá ferramentas para a nova realidade de sua vida. Uma coisa que ela não esperava é que a doença a fizesse se conectar com outros entusiastas de cogumelos.

Eles têm propriedades antivirais, escreve ela em uma de suas postagens. Mas também são parte de algo muito maior e mais bonito, diz ela.

Monique calling her friend who is outside her window

Monique Jackson

Eles são parte do micélio, uma rede subterrânea que se conecta com raízes de árvores próximas e troca nutrientes entre elas. Muitos especialistas no reino Fungi acreditam que essas estruturas ajudam as árvores a se comunicarem entre si, levando nutrientes de uma saudável para outra doente.

Isso faz com o que Monique se lembre dos amigos que deixavam comida em sua porta, mês após mês. Pessoas com as quais contou muito desde que ficou doente.

“Isolada no meu quarto”, ela escreveu no Instagram, “fez com que eu me sentisse mais conectada do que nunca”.

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Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Cinco capitais suspendem aplicação da 1ª dose contra Covid-19 nesta terça

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Cinco capitais suspendem aplicação da primeira dose contra Covid-19 nesta terça-feira (22)
Agência Brasil

Cinco capitais suspendem aplicação da primeira dose contra Covid-19 nesta terça-feira (22)


Cinco capitais suspenderam a aplicação da primeira dose de vacina contra a Covid-19 nesta terça-feira.  São Paulo interrompeu a administração de ambas as doses. Florianópolis, Aracaju, Campo Grande e João Pessoa alegaram falta de imunizantes para continuar a vacinação por faixas etárias, por isso decidiram vacinar apenas pessoas em busca da segunda injeção. As outras 22 capitais continuam a imunização normalmente.

São Paulo anunciou a suspensão da vacinação contra a doença por um dia por “desabastecimento pontual” causado pela alta demanda. Já os governos de Aracaju e Florianópolis disseram não ter previsão de recebimento de estoque para aplicação de primeiras doses.

Em Campo Grande, a secretaria municipal de Saúde disse que quer completar o ciclo vacinal de cerca de 5 mil pessoas que ainda precisam tomar a segunda injeção. E em João Pessoa, a prefeitura informou que vai focar na aplicação de segundas doses enquanto aguarda a chegada de novo lote de vacina.

Em nota ao G1, o Ministério da Saúde disse que envia as doses com base na população-alvo da campanha e que recomenda aos gestores locais que sigam à risca o plano nacional de operacionalização da vacinação contra a Covid-19. A pasta afirmou ainda que a responsabilidade pela distribuição de doses aos municípios é da gestão estadual.

A suspensão pode afetar o avanço da vacinação em faixas etárias mais jovens. Na segunda-feira, o Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, projetou para setembro o prazo para que toda a população vacinável – ou seja, acima de 18 anos — tenha recebido a primeira dose de vacina contra a doença. Também afirmou ser possível prever a conclusão da imunização de toda a população adulta até o fim deste ano.

Veja o cenário atual em cada uma das cinco capitais:

São Paulo

Após registrar o fechamento de cerca de 300 postos de vacinação contra a Covid-19 por falta de doses na segunda-feira, a cidade de São Paulo anunciou a suspensão da imunização por um dia. Segundo a prefeitura, a escassez dos imunizantes deve-se a “desabastecimento pontual” causado pela alta demanda, e as doses estão sendo remanejadas entre unidades de saúde.

A capital paulista havia marcado para esta segunda e terça-feira (22), a vacinação daqueles entre 50 e 59 anos que ainda não tomaram a primeira dose, em sistema de repescagem. Segundo o calendário anteriormente divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde, as próximas faixas etárias a serem vacinadas seriam as pessoas de 48 e 49 anos na quarta-feira (23).

Com a suspensão da campanha por um dia, a vacinação de pessoas com 48 anos foi adiada e moradores com 49 anos seguem com a previsão de serem vacinados na quarta (23). Neste dia, também devem ser retomadas as aplicações de segundas doses das vacinas.

Em nota ao G1, a prefeitura da capital disse que espera receber, nesta terça, 188 mil doses do governo do estado para abastecer os estoques e dar prosseguimento ao calendário. No estado de SP inteiro, 34,68% da população receberam a primeira dose e 13,02% receberam a segunda, segundo dados do consórcio dos veículos de imprensa.

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Aracaju

A Secretaria Municipal da Saúde de Aracaju alegou que a suspensão ocorre porque o quantitativo de pessoas vacinadas neste fim de semana foi acima da previsão estabelecida: 20.127 pessoas foram imunizadas.

Até o momento, mais de 246 mil pessoas já foram vacinadas, o que representa 37% da população local. A capital começou a vacinar, nesta segunda (21), pessoas a partir dos 40 anos. Na terça, iniciaria a vacinação da faixa etária acima dos 38 anos.

A Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe afirma que não há previsão de chegada de doses, que as últimas destinadas à primeira dose foram distribuídas no sábado (19), e que as que chegaram no domingo serão destinadas somente à segunda dose, conforme orientação do Ministério da Saúde. O estado está com 30,89% da população vacinada com a primeira dose e 9,46% da segunda.

Campo Grande

Na capital sul-mato-grossense, o motivo alegado para suspender a aplicação da primeira dose foi reforçar a cobertura vacinal com as duas doses.

Segundo a secretaria municipal de Saúde, o reforço vacinal da AstraZeneca será antecipado de 90 para 60 dias e haverá também a aplicação da segunda dose da CoronaVac, que chegou a ficar em atraso devido a interrupção no fornecimento por parte do Ministério da Saúde.

Podem receber a segunda dose da CoronaVac pessoas que tomaram a primeira até 2 de junho e a segunda dose da AstraZeneca aqueles que receberam a primeira injeção até 22 de abril.

Em todo o estado, 38,35% da população foi vacinada com a primeira dose contra a Covid-19 e 14,42% com a segunda.

Florianópolis

A Prefeitura de Florianópolis afirma que está aguardando o recebimento de mais vacinas para retomar a aplicação em pessoas sem comorbidade por faixa etária e demais grupos.

Na noite de domingo (20), Santa Catarina recebeu 309 mil doses de AstraZeneca, mas voltadas para a segunda dose, e “não serão distribuídas neste momento”, segundo a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive) informou ao G1.

Na sexta-feira (18), Santa Catarina também recebeu doses e essas foram destinadas para aplicação de primeira dose, segundo o estado. As vacinas que a capital recebeu, usou no sábado e na segunda-feira, quando receberam a primeira dose pessoas com 50 anos ou mais sem comorbidades. Não foi informado o número de doses que há em estoque na capital catarinense.

Até o momento, Santa Catarina está com 33,62% da população vacinada com a primeira dose e 10,66% com a segunda.

João Pessoa

Enquanto aguarda a chegada do novo lote de vacinas, a campanha de imunização contra a Covid-19 da Prefeitura de João Pessoa se concentra nesta terça-feira (22) na aplicação da segunda dose dos imunizantes da AstraZeneca e da CoronaVac, para quem tomou a primeira dose há pelo menos 90 dias e 28 dias, respectivamente.

Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Especialista em ‘burnout parental’ diz que ‘não é hora de sermos superpais’

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BBC News Brasil

Pandemia 'não é hora de ser supermãe ou superpai', diz especialista em 'burnout parental'
Mariana Alvim – @marianaalvim – Da BBC News Brasil em São Paulo

Pandemia ‘não é hora de ser supermãe ou superpai’, diz especialista em ‘burnout parental’

Em 2018, as psicólogas Isabelle Roskam e Moïra Mikolajczak, da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica , começaram o  maior estudo global já feito sobre um tema das quais são pioneiras em pesquisar — o parental burnout , ou “burnout parental”, um adoecimento decorrente dos desafios de ser mãe ou pai.

Três anos depois, o estudo envolvendo mais de 17 mil pais em 42 países foi publicado em um período em que o mundo todo se tornou um verdadeiro laboratório da vida real sobre o burnout parental. Isolando milhões de crianças, adultos e idosos em suas casas, a pandemia de coronavírus de repente tirou boa parte do suporte que mães e pais têm para criar seus filhos.

Para falar do burnout parental, Roskam costuma fazer a analogia da balança: esse esgotamento acontece quando o lado “fatores de estresse” pesa mais do que o lado “recursos”, um desequilíbrio que costuma afetar o adulto ao longo de um tempo considerável.

“Na pandemia, o problema é que a balança de muitos pais ficou desequilibrada, com mais estresse: você não tinha as escolas (presenciais), mas também em alguns casos precisou fazer trabalho remoto; não pôde mais ter a ajuda dos avós em algum dia da semana; não teve mais atividades de lazer e extracurriculares que ajudavam a dar conta da criança”, diz a pesquisadora, mãe de cinco filhos e professora de psicologia na Universidade de Louvain, em entrevista à BBC News Brasil por teleconferência.

Ela argumenta que já há evidências de que o burnout parental aumentou na pandemia, inclusive em uma nova rodada de pesquisa que ela e colegas realizaram pelo mundo e cujos resultados devem ser publicados nos próximos meses.

No estudo global envolvendo 42 países, publicado em março na revista científica Affective Science , Roskam e Mikolajczak coordenaram cerca de 100 cientistas pelo mundo — incluindo o Brasil , com participação das pesquisadoras Elizabeth Barham (UFSCar), Luciana Carla dos Santos Elias (USP) e Vanessa Romera (UERJ).

Usando índices sobre valores culturais — por exemplo, se um país é mais ou menos machista, ou permissivo ao ócio e ao lazer —, as autoras concluíram que países com culturas individualistas são mais propensos a levarem ao burnout de mães e pais. O individualismo se mostrou mais prejudicial do que desigualdades entre países ou o número e a idade de crianças em uma família.

Por isso, segundo a pesquisa, países ocidentais apresentaram a maior prevalência deste burnout no mundo. No topo do ranking, apareceram Estados Unidos, Bélgica e Polônia (acima de 7%). O Brasil aparece com prevalência de 1,3% — mas Roskam reconhece que, internamente em um país, pode haver muitas particularidades e a variações por trás deste valor nacional.

Roskam sorri para foto, em pé em área externa de casa

Divulgação/Alexis Haulot
Mãe de cinco filhos e professora de psicologia na Universidade de Louvain, Isabelle Roskam diz que pandemia foi pesadelo para muitos pais, mas também oportunidade para alguns mudarem ritmo de vida

Com a colega Moïra Mikolajczak, Roskam fundou um centro de pesquisa e um instituto de treinamento sobre o burnout parental, além de ter publicado livros sobre o tema (nos títulos originais, sem tradução e versão em português: Le Burn-out parental: L’éviter et s’en sortir e Comment traiter le burn-out parental – Manuel d’intervention clinique ).

Confira os principais trechos da entrevista à BBC News Brasil.

BBC News Brasil – Escolas fechadas parecem ter sido um dos principais problemas para pais durante a pandemia. A falta que elas estão fazendo mostra que as escolas se tornaram muito importantes, talvez até demais, na gestão do tempo e do cuidado das crianças na vida moderna?

Isabelle Roskam – As escolas fechadas foram um grande problema, mas para mim, o problema foi mais geral. Se sentir realizado como uma mãe ou pai significa que você tem menos fatores estressantes do que recursos para encará-los. Quando você está realizado no seu papel parental, é porque você tem alegrias e prazer com suas crianças, e muito mais recursos do que fatores estressantes.

Na pandemia, o problema é que a balança de muitos pais ficou desequilibrada, com mais estresse: você não tinha as escolas (presenciais), mas também em alguns casos precisou fazer trabalho remoto; não pôde mais ter a ajuda dos avós em algum dia da semana; não teve mais atividades de lazer e extracurriculares que ajudavam a dar conta da criança.

Foi preciso gerir o tempo dos filhos todos os dias, todas as semanas; ser mãe ou pai, mas também um trabalhador e um professor.

Há também os casos de famílias com questões particulares, por exemplo uma criança com necessidades especiais. Normalmente, há instituições, serviços que ajudam a lidar com uma criança com hiperatividade ou autismo, por exemplo, mas na pandemia as soluções sumiram.

Então sim, para muitos pais, foi uma fase muito difícil — e acho que isso explica por que observamos em tantos países um aumento na violência dentro das famílias. Não só entre os casais, mas entre pais e filhos, e filhos contra os pais.

Em foto tirada de cima, duas crianças com seus livros didáticos e um adulto mostrando algo no celular

REUTERS/Amanda Perobelli
Pais, trabalhadores, instrutores nas aulas: pandemia cobrou muito e repentinamente quem tem filhos, lembra psicóloga

BBC News Brasil – Pelo que li, a violência é um sintoma do burnout parental, certo?

Roskam – É uma consequência, não um sintoma.

Uma das explicações é que, quando você está passando por esse esgotamento, você fica com um alto nível de cortisona (um hormônio) no corpo. É possível verificar isso através da cortisona detectada nos fios de cabelo. Vemos que pais com burnout chegam a ter cortisona duas vezes mais alta do que aqueles que se sentem bem neste papel.

Uma das consequências do alto nível da cortisona são os problemas somáticos. Por exemplo, se você já tem problemas de digestão, ou dor de cabeça, quando a cortisona está alta, a probabilidade é que estes problemas piorem.

A cortisona também aumenta a irritabilidade — então uma vez que você é confrontado com uma situação estressante, terá uma reação muito grande ou inapropriada. Uma vez que as crianças são a fonte do estresse no burnout parental, uma consequência é os pais se tornarem violentos contra elas.

BBC News Brasil – Já há evidências de que o burnout parental cresceu na pandemia?

Roskam – Sim. Havíamos coletado dados em 42 países antes da pandemia, então tínhamos uma boa ideia da prevalência do burnout parental em muitos países. Durante a pandemia, coletamos novos dados em 22 países, então pudemos observar algumas mudanças.

Observamos algo interessante. Em Burundi houve o maior aumento do burnout nesse período, e o que eu e colegas temos discutido é que esse país tem uma cultura muito coletiva. Então foi muito difícil para as famílias ficarem sozinhas com suas crianças em casa, sem a comunidade ajudando na criação dos filhos.

BBC News Brasil – Existe uma diferença entre estresse e burnout, certo?

Roskam – O burnout é um adoecimento pelo estresse.

O estresse é normal no papel de ser mãe ou pai. Ele é necessário para que estejamos prontos para agir. Quando seu filho está em perigo, ou há alguma emergência, é preciso estar preparado para protegê-lo, mas o estresse nunca se tornará um burnout se for compensado pelos recursos.

Balança com material metálico, com uma bola maior do que a outra em cada lado

Getty Images
Isabelle Roskam frequentemente fala da analogia do parental burnout e do desequilíbrio de uma balança — que, para os pais, de um lado tem fatores de estresse e de outro recursos

BBC News Brasil – Já escutei muitos relatos de pais expressando culpa por, neste período, terem deixado as crianças usarem mais celulares, tablets… Os pais ainda devem ficar de olho no controle do uso de telas? E como os aconselharia para lidar com essa culpa?

Roskam – No primeiro lockdown, lançamos um guia para que os pais controlassem os fatores estressantes, porque vimos que a violência estava aumentando e etc. Queríamos ajudar a diminuir a pressão sobre eles. E uma forma de fazer isso é dizendo: “Este é um período muito muito difícil para todo mundo, e simplesmente não é a hora para ser uma mãe ou um pai perfeito, uma supermãe ou um superpai. Por favor, esteja seguro de que você está sendo bom o suficiente como mãe ou um pai.”

Isso significa aceitar que, nesta situação muito difícil, as crianças talvez vão usar mais as telas do que o normal. Os pais podem aceitar que, ok, as telas não são uma solução em uma situação normal — mas no lockdown, é importante abaixar padrões para você e para seus filhos.

Também tem sido um período muito desafiador para estes. Para os adolescentes, por exemplo, os celulares foram a única forma de manter contato com os amigos. É muito importante para a vida social deles.

BBC News Brasil – Apesar do aumento do estresse para muitas famílias durante a pandemia, para aquelas que têm essa opção e condições, o home office pode finalmente ter representado uma possibilidade de melhor conciliação entre trabalho e criação dos filhos?

Roskam – Sim, nossos dados da Bélgica mostram que esse período foi um pesadelo para muitos, mas também uma ótima oportunidade para outros. Alguns passavam, antes da pandemia, horas no carro indo ao trabalho, conseguindo apenas 2 a 3 horas com os filhos por dia. Alguns nunca conseguiam fazer refeições com os filhos.

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Então, para alguns pais, o lockdown foi uma oportunidade de perceber que eles não querem voltar àquele ritmo de vida. Sua qualidade de vida aumentou muito e eles não querem voltar à situação anterior à pandemia.

Alguns fizeram planos para mudar definitivamente para o modelo remoto de trabalho, outros passaram a diminuir o número de atividades extracurriculares que os filhos fazem.

Mulher de máscara com bebê no colo, sentada em frente a mesa com laptop

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‘O risco de entrar em burnout é na prática maior para as mães porque elas estão muito mais envolvidas no cuidado dos filhos’, explica Roskam, destacando que é o envolvimento na educação, e não o gênero, que mais explica a propensão ao burnout

BBC News Brasil – Quais condições, quais fatores de risco podem explicar esta diferença — a pandemia sendo um pesadelo ou uma nova oportunidade?

Roskam – Primeiro, pensamos que pudesse ser algo relacionado a fatores sociodemográficos. Porque, você sabe, ter um jardim é importante, mas na pandemia, talvez se torne muito mais importante. Ou poderia ter a ver com o número de filhos — não é a mesma coisa estar em lockdown com uma criança ou com cinco, que é a minha situação.

Testamos essas hipóteses dos fatores sociodemográficos ou contextuais, e descobrimos que nenhum deles explicava por que para alguns o período foi um pesadelo, e para outros uma oportunidade.

Descobrimos que o principal fator para explicar essa diferença pode ser o que chamamos na psicologia de appraisals (avaliação cognitiva). Trata-se de como uma pessoa vai tratar cognitivamente uma informação. Você apreende cognitivamente a pandemia e o lockdown como uma ameaça para você e seus filhos, ou como uma oportunidade para ganhar mudanças positivas?

Ou seja, os fatores objetivos não se mostraram tão prevalentes, mas sim a forma com que os pais trataram a informação da pandemia. Isso é interessante porque significa que não existe uma população específica em risco. É uma boa notícia para nós porque, se fosse por conta de fatores sociodemográficos… Eu não posso mudar o fato de você ter cinco filhos e nenhum jardim. Mas se for uma questão de avaliação cognitiva, talvez como psicóloga eu consiga te ajudar a ver a situação de outra forma.

BBC News Brasil – Mas fatores objetivos também podem ser importantes, certo? Digo isso não necessariamente sobre o contexto de pandemia. Imagino que ser uma mulher, uma mãe, seja um fator de risco para o burnout parental. Estou certa em pensar isso?

Roskam – Sim e não… O mais importante é ter em mente que o burnout não acontece por conta de um fator. Como na balança, não há um fator de estresse e um recurso. Dependendo da pessoa, o fator de risco pode ser ser mãe solo, viver em condições precárias, ou ter muitos filhos…

Para outros, pode ser um alto nível de perfeccionismo, a discordância com o parceiro sobre valores na educação, ter um filho com necessidades especiais.

Ou ainda ter uma história pessoal difícil com seus próprios pais, ou ter um comportamento inconsistente com os filhos — um dia você diz sim, outro diz não…

Os fatores de risco podem ser muito diferentes, mas o modelo é o mesmo: um desequilíbrio entre fatores de estresse e recursos.

Sendo assim, ser mulher pode ser um tipo de fator de risco, mas o burnout parental também ocorre com homens. Para um pai que é envolvido (na criação dos filhos) na mesma medida que a mulher, a chance de entrar em burnout é exatamente a mesma. Não é uma questão de gênero, é uma questão de envolvimento na criação dos filhos.

Evidentemente, se você é um pai que só trabalha, que não está envolvido na vida do seu filho, você não tem chances de estar em burnout porque não está em contato com os fatores estressantes.

O risco de entrar em burnout é na prática maior para as mães porque elas estão muito mais envolvidas no cuidado dos filhos.

BBC News Brasil – Sei que é controverso na sua área categorizar distúrbios mentais e doenças em compêndios como a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID). Entretanto, uma classificação do tipo seria algo desejável para o burnout parental?

Roskam – Acho que seria importante por alguns motivos.

O primeiro é que, com nossa pesquisa, mostramos evidências de que o burnout é diferente da depressão, por exemplo. É importante fazer um bom diagnóstico para fornecer um bom tratamento. Se você pensa que um burnout parental é depressão, você nunca vai buscar prevenir a negligência ou o comportamento violento — porque essas consequências não são altamente relacionadas à depressão.

E o burnout parental não exige o tratamento medicamentoso que a depressão pode exigir. O burnout parental, como o burnout por trabalho, é um problema contextual — trata-se de uma esfera da vida do indivíduo.

Mas uma classificação dessas pode custar muito tempo. A pesquisa sobre o burnout por trabalho, por exemplo, começou nos anos 70, mas ele não é reconhecido em todos os sistemas de classificação. Então não sei o quanto tempo precisaremos para o reconhecimento do burnout parental.

Nos aproximamos disso com nossas atividades de pesquisa, com a relação que temos com a Associação Americana de Psicologia, entre outros.

Dezenas de cabeças de pessoas, em diferentes formatos e cores, desenhadas com traços infantis

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‘Precisamos ir em direção a uma criação de filhos muito mais comunitária’, diz Isabelle Roskam como uma das soluções para o burnout parental

BBC News Brasil – Apesar de o estudo global que você conduziu ter mostrado que o dinheiro pode não ser tão determinante para o burnout parental como os valores culturais, ter tempo e dinheiro me parece ser muito importante para tratar este esgotamento — com atendimentos psicológicos, por exemplo.

Roskam – Acho que não ter problemas financeiros é sempre melhor do que ter uma baixa renda, claro. Se você tem renda suficiente, as soluções são mais numerosas. Então eu sei que adversidades econômicas são sempre um problema, um fator de risco entre outros.

Mas também trabalhamos com famílias em situação precária e percebo que há soluções que não exigem dinheiro. Acredito que podemos adaptar os tratamentos à realidade financeira dos pais.

Um dos sintomas do burnout parental é não ter qualquer prazer em estar com os filhos. No tratamento, tentamos ajustar isso, fazer com que os pais tenham prazer com as crianças. O mais importante não é fazer atividades de lazer maravilhosas. Não. É simplesmente ter momentos bons, especiais com a criança. Pode simplesmente caminhar com ela, ou ver um bom programa de TV.

BBC News Brasil – Mesmo que um país como o Brasil apresente uma prevalência baixa de burnout parental, como mostrou o estudo global, é possível que este número esconda nuances internas, como variações por classe social?

Roskam – A situação pode ser diferente de um país para outro, e dentro do país também, claro. O que acontece na vida das famílias pode ser bem diferente, e como psicóloga é preciso adaptar o tratamento para a realidade daquela situação.

BBC News Brasil – Há novas tendências que te dão esperança nessa busca em tornar o papel de ser mãe ou pai mais harmonioso? Vêm a minha cabeça exemplos como o coparenting (quando pais de diferentes famílias, por exemplo amigos, se juntam para fazer rodízios no cuidado das crianças) e até mesmo o home office.

Roskam – Uma coisa que aprendemos no nosso estudo global é que uma das consequências do individualismo é que ele isola os pais. Porque segundo esta cultura, você tem que ser autosuficiente, pedir ajuda seria como admitir que não é capaz de criar os filhos. Em contraste, em alguns países africanos, diz-se que é preciso um vilarejo inteiro para criar crianças.

Então algo que tiramos desta pesquisa internacional é que precisamos reconstruir as comunidades — o que consideramos criar os filhos em uma dimensão maior, indo além da mãe e do pai, incluindo também os amigos, a família em graus mais distantes, e assim em diante.

Acredito que uma forma de evitar o burnout parental é confiando na comunidade dos pais. Então sim, acho que precisamos ir em direção a uma criação de filhos muito mais comunitária.


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Fonte: IG SAÚDE

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