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Opinião

ROSANA LEITE – 14 anos sem Zélia Gattai

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Zélia Gattai Amado de Faria, ou apenas Zélia Gattai, foi escritora, fotógrafa e memorialista, tendo contribuído sobremaneira para a literatura nacional. Inicia a carreira como escritora aos 63, quando lança o seu primeiro livro, tendo sido coadjuvante do companheiro por muitos anos.

A memorialista, como gostava de ser chamada, é filha de imigrantes italianos do movimento político-operário anarquista. Seguiu os passos do pai e da mãe, sempre se interessando pela política.

E, em razão dos movimentos políticos que ela e o companheiro sempre participaram, no período da ditadura acompanhou o exílio de Jorge Amado na Europa por três anos.

Zélia sempre esteve ao lado do marido passando a limpo as suas escritas, transcrevendo para a máquina de escrever os originais, ou o ajudando no processo de revisão. O gosto pelas letras sempre foi muito real na vida da memorialista. O tempo do exílio foi um momento em que ela se especializou em fotografia e teve a oportunidade de estudar por lá.

Assim que começou a escrever se dedicou em narrar sobre a sua família. Como primeira obra publicada teve um livro de fotobiografia de Jorge Amado intitulado “Reportagem incompleta”.

Todavia, a obra que deslanchou a carreira da escritora foi o livro “Anarquistas graças à Deus”, inclusive, transformado em minissérie de uma grande emissora de televisão, e que contava a saga da sua família recém chegada de Florença. Foi possível perceber a origem de tão importante mulher, a forma com que a família se portava, e entender um pouco da convivência em verdadeiras crônicas íntimas.

A memória afetiva a fez deixar de ser reconhecida apenas como a esposa de Jorge Amado, saindo da condição de coadjuvante no universal mundo literário.  É dela: “Dizem que a vida muitas vezes parece um romance, mas ela é uma realidade e é essa realidade que conto.”

O número 33, da rua Alagoinhas, abrigou o casal por muitos anos. A conhecida “Casa do Rio Vermelho”, na atualidade memorial, possui um belo jardim, onde cada pedacinho rememora a arte da escrita.

A alegria e a ternura são contagiantes, mesmo porque o imóvel foi palco de celebração da vida junto a amigos e amigas. Começar e terminar o passeio pelo jardim, é saber que a respectiva visita é assunto para um dia inteiro. Pés de manga, jambo, sapoti, tamarindo e pitanga receberam as cinzas do casal letrado.

Tudo lembra um bom livro, cada tiquinho do recinto, que está brilhantemente preparado para visitação. Enquanto a casa é explorada pelos visitantes, cartas e trechos de livros são narrados, o que traz uma vontade imensa de se debruçar nas obras dela e dele. Ditou: “Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores.”

O laboratório fotográfico de Zélia Gattai se encontra preservado no local, com alguns retratos expostos e pendurados com se estivessem acabado de revelar a imagem.

Uma vida em comum, ao gosto dela, é possível vislumbrar com a interessante visita. Fica bastante evidente nos cômodos que o conforto foi privilegiado. Passear por lá é pensar que naquela localidade viveu uma mulher dedicada incondicionalmente à história familiar e à escrita.

Zélia fez questão de deixar evidenciado o amor por Jorge Amado. No livro ‘Vacina de Sapo e outras lembranças’, discorreu sobre o primeiro e último beijo dos dois, dentre outras curiosidades da vida em conjunto. Contou, com toda a cômica inerente, que ao final da vida do marido, após muito tentar para trazer melhora à saúde fragilizada dele, fizeram uso de baba de sapo por indicação de um curandeiro.

Deixou o mundo da matéria em 17 de maio de 2008, lúcida, aos 91 anos. Marcou com a prosa o contar e encantar de sua vida e existência. Tinha lemas explicativos da sua escrita: “Uma leitura ou uma história só prestam, empolgam e nos fazem sonhar quando transmitidas com prazer e emoção.” E continua: “Escrevo, assim, com liberdade e com o coração.”

Viva Zélia!

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual

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Opinião

GAUDÊNCIO TORQUATO – A nova modelagem social

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A sociologia política tem sido a fonte para análise dos fenômenos contemporâneos. Em seus imbricados fios, veem-se os impulsos, os movimentos, os avanços da globalização, enfim, a ruptura com a velha ordem mundial.

Um pouco de história. Entre 1945 e 1989, logo após a II Guerra e até a queda do Muro de Berlim, vivíamos dentro de uma moldura desgastada. Quase desabando da parede.

O ciclo de degradação teve como ingredientes fenômenos que balançaram a vida econômica das Nações, entre eles, as crises do petróleo, que puxaram para baixo o crescimento, e a migração de polos industriais para centros de custos menores e menos sujeitos às crises políticas.

Com a debacle do sistema socialista, o neoliberalismo econômico deu um salto e os EUA passaram a ser o centro de irradiação de ideários. A globalização mostrou suas facetas, homogeneizando e integrando processos, quebrando fronteiras internacionais, impondo uma nova ordem. Que atingiu em cheio modos de pensar e agir, comportamentos sociais e políticos, movimentos das margens da sociedade.

Os blocos econômicos formados, empuxados pelos avanços das telecomunicações e sistemas de transportes, ditaram suas conveniências, como a presença mínima do Estado na economia, a redução de gastos públicos, a tessitura do bem-estar social.

Nessa onda, emergiram fenômenos centrípetos, ou seja, das margens para o centro, de lá para cá, sob a alavanca de movimentos transformadores.

Exemplo é a Primavera Árabe, uma árvore que multiplicou sementes no planeta, proporcionando nova concepção na ordem da política e dos costumes. Protestos e urros de revolta passaram a ser ouvidos ali e aqui, disseminando a ideia de que a sociedade queria ascender na escada da razão, sem perder a emoção. A maré de protestos produziu uma revolução no Oriente Médio e no continente africano, puxando as populações para as ruas e derrubando ditadores.

O alvo, expresso no discurso de rebeldia, foi sempre a melhoria das condições de vida.

Nesse ponto, adiciono ao pano de fundo outros acontecimentos, alguns bem descritos por Roger Gérard Schwartzenberg em seu livro “Sociologia Política”: o declínio das ideologias, o arrefecimento partidário, o arrefecimento das bases, o declínio dos Parlamentos.  Em paralelo, novos polos de influência – sindicatos, associações, federações, grupos, núcleos, setores e áreas – entraram na arena de luta pelo poder.

Os eleitores, desconfiados da velha política, procuraram novos barcos e remos para navegar na desafiante travessia. Buscaram suas entidades de referência – as organizações acima citadas. É este o novo horizonte, onde se abre o Tempo das Paixões Tristes, livro de François Dubet, um dos maiores sociólogos da França.

Foco a lupa para o Brasil. Tristes trópicos, tristes paixões. Gritos indignados, berros e palavras de baixo calão, angústias, queima da floresta, desmatamento, grileiros, posseiros, depredadores do meio ambiente, máfias, comerciantes de drogas, mendigos e pessoas sem teto, fome, 33 milhões padecendo de fome.

Uma Guernica, como se referiu o sociólogo Antônio Lavareda, um expert em pesquisas, a um dos meus textos na Folha de São Paulo. Essa devastada paisagem, que retrata o país, encaixa-se no ciclo das paixões tristes, descritas por Dubet, e que tem como mecanismo gerador a agregação das pequenas desigualdades.

A nova leitura social não mais leva em conta as desigualdades coletivas, cujo modelo se ancora(va) na divisão da pirâmide social em classes – topo rico, classes médias e base pobre -, mas passa a considerar desigualdades múltiplas e singulares. Dentro de uma mesma classe, são diferentes as demandas, atitudes e comportamentos dos componentes.

Referência significativa é a que se observa, por exemplo, nos eleitores de Lula e Bolsonaro, onde participantes das alas contrárias diferem em suas ações do cotidiano e em sua expressão zangada e cheia de virulência.

Significa que a sociedade, por meio de seus núcleos, opina e clama por demandas. Movimentos setoriais enchem as ruas, amparados em discursos focados em demandas de gênero, raças, opções sexuais, etnias, salários, liberdade de expressão.

Os populistas se aproveitam dos estoques de ódio para enfeitar a glorificação. Vestem o manto do pai, do irmão protetor, do amigo, do Salvador da Pátria.

Em suma, tentam substituir a falta de carisma por populismo. E assim, a personalização do poder abre os espaços do fulanismo/beltranismo na esfera político-partidária.

Os desiguais de uma mesma classe social decidirão o pleito.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político [email protected]

 

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Opinião

EMANUEL FILARTIGA – (Des)Crença Política

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Um jovem político me disse que entrou na política para “ajudar muita gente”. Ele mesmo emendou: “Só que não é assim. É interesse próprio, é interesse do partido, é interesse do governo”. E desabafou:

—É tempo de eleições, há um movimento forte no país inteiro, e olha que as eleições neste ano não são nem municipais – só que são também.

O curioso é perceber o movimento, a dinâmica do jogo. Não envolve apenas os candidatos, veja que empresas, imprensa, todos os tipos de partidos começam a correr…. Bancos, sindicatos, conselhos profissionais, mercados, fazendeiros, até as ONGs correm… E o que os move não é a vontade de fortalecer as instituições democráticas. Ora Sr. Promotor, o dinheiro não fortalece essas coisas. Pode ser investimento, também não sei ao certo. Eu sei que antes da eleição do voto, há a eleição do dinheiro, ou é a mesma coisa, também não entendo bem essa parte.

E os candidatos…Ah! Como ficam acessíveis durante as eleições, simpáticos, amorosos, entram em casa simples, tomam café; são afetuosos, abraçam todo mundo, ou querem todo mundo para eles… mais uma dúvida minha.

O sistema eleitoral parece influir em todos os âmbitos. As regras eleitorais chegam aos pequenos municípios do Brasil, ou daqui saem, não sei direito…O que se sabe é que é tudo pelo poder! Em vez de mandato, os políticos recebem, têm certeza eles, poder. E o poder, Sr. Promotor, nunca é de quem pensa que ele é.

Muda governo, sai governo, não vemos grandes mudanças, mas uma coisa é certa, escancaradas são as mudanças para aqueles que estão no governo.

Acho que o problema é de governabilidade…Seja esse termo usado como eficiência dos Poderes na elaboração de políticas públicas, seja na capacidade de efetivar essas políticas públicas.

Alguns tiveram esperança com Fernando Henrique Cardoso, outros com Lula, tantos outros com Bolsonaro, ocorre que, fora questões muitíssimo pontuais, o status quo continua status quo.

Parece que as instituições políticas brasileiras funcionam mal. O sistema brasileiro beneficia, antes de tudo, ele mesmo e quem – políticos, agentes públicos –está com ele. Todas as instituições têm uma vontade, mesmo que oculta, de manter o que está. Isso parece impedir de mudar o mundo – ou, pelo menos, o Brasil, isso parece impedir de ajudar muita gente.

Veja bem, Sr. Promotor, com isso não quero dizer que todos os ocupantes dos poderes são corruptos, são ladrões. Quero dizer que o sistema gera muito benefício para quem está nele. Criam incentivos para maximizar seus ganhos pessoais e “dos amigos”. Há alguns ainda que resistem a esses incentivos, mas a luta é árdua. Acabam cedendo.

Há políticos de muitas ideologias, há partidos que defendem opiniões radicais, até hostis, outros que não defendem nada. A maioria passa quase o mandato inteiro buscando nomeações, políticas públicas de interesse específicos em seus lugares eleitorais. Raramente se vê aquela coisa do interesse comum como mencionada nos livros que o Sr. leu.

E os prefeitos, governadores e presidente, os que se acham mais poderosos do mundo, raras vezes têm o poder que pensam, sua autoridade depende de troca de favores, distribuições de valores (estou falando só do legal, ainda), convênios de obra pública, cargos, nomeações… E tem a corrupção, mas acho que isso é coisa da pessoa, não só do poder, do dinheiro e da gravata.

Uma coisa é certa para mim, Sr. Promotor, a inovação política é quase impossível.

Neste ano vou de Deputado Federal, o Sr. vota?!

—Hum?!

Emanuel Filartiga Escalante Ribeiro é promotor de Justiça em Mato Grosso

 

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