RUI PERDIGÃO

Perdemo-nos de vista

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Perdemo-nos de vista

A relação entre a forma e o conteúdo das coisas sempre me despertou interesse e com o tempo desenvolvi um maior apreço pelo conteúdo dedicando-lhe uma atenção comparável há que é dá às proclamações. Pessoas falam que sem a forma o conteúdo se perde facilmente e que na ausência de conteúdo qualquer prática que se estabeleça acabará por criá-lo.

É estranho, mas são argumentos daqueles para quem a forma é tão ou mais importante que o conteúdo. Aceito que conteúdo e forma possam caminhar junto, mas jamais os interpretarei como sendo uma mesma realidade.

Quando penso sobre a forma e o conteúdo das coisas, sempre recordo a expressão brasileira de que a política é como uma nuvem. Uma expressão infeliz, diga-se de passagem, que muitos políticos gostam de proferir para justificar porque em determinado momento assumiram uma posição sobre certo assunto e breves momentos depois se posicionaram diferentemente sobre esse mesmíssimo assunto.

Reconheço que só burro não muda, mas mudar com frequência revela um caráter igual ao de nuvem passageira que o vento levou. Com esta analogia aproveito também para esclarecer entender que a política é uma propositura de ideário social e não uma mera gestão em causa própria ou uma ação temporária de oportunidades. Para mim, política é salvaguarda de direitos fundamentais da dignidade da pessoa humana, independentemente do momento, da forma ou do local.

Se o conteúdo for essência, como eu gostaria que fosse, e a forma uma relatividade ajustável, como penso ser, discorrer sobre os conceitos filosóficos do Ser e do Ter teria aqui cabimento, mas convenhamos que provavelmente isso seria muito desinteressante.

A cada dia que passa o conhecimento é preterido em favor de simplificações imediatistas, decorrente da nossa alegre acomodação ao processo digital em curso. O que me leva a considerar que falar sobre a relação forma conteúdo no universo digital será seguramente muito mais sedutor.

A quantidade gigantesca de dados que hoje é processada no mundo a uma velocidade vertiginosa, está a permitir-nos acessar ao que horas antes era impensável.

No entanto, suspeito que muitos e bons resultados que daí se possa extrair venham a ser utilizados na redução das profundas desigualdades civilizatórias existentes. Tem estudioso dizendo que o conteúdo digital que mais interessa é o de domínio neural.

Um mecanismo capaz de provocar reações químicas que nos fazem agir de modo inconsciente, igual cachorro de Pavlov. Uma arma apontada ao nosso cérebro por um exército de IA’s que nunca leu um livro de história e que a opera através de uma linguagem o mais rudimentar possível, associada a uma imagem o mais trivial possível, num período de tempo o mais curto possível.

Tipo dois arrastos de tela. Se existir verdade nisso, e tudo indica que há porque a neurolinguística desde que estudada é aproveitada, é importante registrar que um ambiente digital a forma pode rapidamente superar o conteúdo.

Há cinquenta anos, quando o desporto de alta competição começou a substituir a equipe de juízes de meta por um só juiz, de nome photofinish, ficou claro para mim que estávamos a perder a escala humana.

Passado meio século, parece-me que estamos agora a perder a mão no processo de construção de uma sociedade melhor, mais consciente. Importantes direitos não estão sendo fáceis de preservar e está difícil para mim esquecer ter aprendido na velha disciplina de  físico-química que a força só é força se for aplicada, de onde passei a concluir que o poder só é poder se for exercido, independente se bem ou mal praticado. Resumindo, ele anda aí, poderoso, ativo, incisivo e a perder da vista.

Entre distrações e constatações, talvez seja oportuno pensar-se em decidir se será apropriado perdermos a escala humana na nossa vida.

Decidir se é adequado perder conteúdo e com ele significados da nossa vida. Toda a forma e conteúdo precisa ser transparente e ponderado, igual precisa ser em política, sob pena de que se assim não for, seremos definitivamente excluídos do nosso próprio processo, com sentença condenatória transita em julgado.

Rui Perdigão é administrador, geógrafo e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso