conecte-se conosco


Saúde

Os quatro tipos de vacina contra Covid-19 e o que falta para ficarem prontas

Publicado


source

BBC News Brasil

undefined
André Biernath – Da BBC News Brasil em São Paulo

Coronavírus: os quatro tipos de vacina contra covid-19 e o que falta para ficarem prontas

CoronaVac, Sputnik, Novavax… Nos últimos meses, esses termos relacionados à busca por uma vacina contra a covid-19 passaram a fazer parte de nosso vocabulário. Afinal, é consenso entre os especialistas que um imunizante seguro e eficaz será a única forma de acabar de vez com a pandemia, com a diminuição definitiva dos números de casos, hospitalizações e mortes.

Não é exagero dizer, portanto, que acompanhamos em tempo real uma corrida contra o relógio: laboratórios farmacêuticos, universidades, centros de pesquisa e governos do mundo todo trabalham dia e noite para desenvolver uma solução capaz de nos resguardar contra o Sars-CoV-2, o coronavírus responsável pela crise sanitária global.

Em seu último relatório, publicado no dia 19 de outubro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que 44 candidatas à vacina estão nas fases 1, 2 ou 3 de estudos clínicos, que envolvem testes com seres humanos. Há ainda mais de uma centena de outras formulações na etapa pré-clínica de pesquisas, com células e cobaias.

Mas como elas funcionam? Como agem em nosso organismo? E o que falta para finalmente chegarem à população? De maneira geral, podemos dividir os imunizantes contra a covid-19 que estão mais adiantados em quatro grandes grupos, como você confere a seguir.

Vacinas com vírus inativado

Desenvolvidos há cerca de 70 anos, esses imunizantes são feitos a partir do próprio vírus (ou da bactéria, se for o caso). Ele suscita uma resposta de nosso sistema de defesa, que fica preparado para reagir adequadamente diante de uma infecção de verdade.

Mas se o próprio causador da enfermidade está presente na formulação, como é que ele não provoca a doença?

“São utilizadas técnicas de laboratório que inativam o agente infeccioso, de modo que sua replicação se torne inviável. Mesmo assim, isso produz a reação imunológica desejada”, explica a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência.

Muitas das vacinas que tomamos de rotina, como aquelas que protegem contra a hepatite A, a gripe e a poliomielite (na versão injetável), fazem parte dessa turma. O principal ponto positivo aqui é a experiência de décadas e mais décadas de seu uso na saúde pública.

A desvantagem delas está no custo e no tempo mais demorado de produção.

“É necessário cultivar grandes quantidades de vírus e fazer esse processo de inativação. Além disso, essa técnica não rende muito em doses por litro”, avalia Natalia.

Para a covid-19, há duas candidatas na fase mais avançada dos testes clínicos que apostam nessa estratégia de inativar os vírus. Pelo que se sabe até o momento, são necessárias duas doses para surtir efeito.

A mais conhecida no Brasil é a CoronaVac, desenvolvida em conjunto por sete instituições, com destaque para a parceria entre a empresa chinesa Sinovac Biotech e o Instituto Butantan, em São Paulo.

A outra concorrente que usa vírus inativado também vem da China. Ela ainda não tem nome definido e está sendo elaborada pelo Instituto de Produtos Biológicos de Wuhan, a farmacêutica Sinopharm, o Grupo Nacional de Biotecnologia da China, a empresa G42 Healthcare e pelos Serviços de Saúde de Abu Dhabi. Os testes de fase 3 já contam com mais de 60 mil voluntários em três países: Peru, Marrocos e Emirados Árabes Unidos.

Coronavirus

Getty Images
Vacinas com vírus inativado são feitos a partir do próprio patógeno

Vacinas de subunidade proteica

Por que usar o vírus inteiro se você pode selecionar apenas um pedacinho dele ou construir uma partícula sintética, parecida com a original? Esse é o raciocínio por trás do desenvolvimento dos imunizantes de subunidade proteica.

“A vacina que resguarda contra a hepatite B é um exemplo dessa tecnologia”, lembra a imunologista Cristina Bonorino, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e membro do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia.

Uma característica das vacinas deste grupo é que elas geralmente precisam vir acompanhadas de uma substância adjuvante, outra proteína que dá um reforço e estimula uma resposta mais contundente do sistema imunológico.

Para a covid-19, uma candidata que desponta na dianteira das pesquisas é a NVX-CoV2373, feita pelos laboratórios Novavax e Takeda. Nas fases 1 e 2, ela foi testada na Austrália e na África do Sul. Agora, passa pela etapa final de estudos com mais de 18 mil voluntários no Reino Unido. Em um recente comunicado para a imprensa, os laboratórios estimaram que, se tudo der certo e o produto mostrar eficácia, poderão ser produzidas cerca de 1 bilhão de doses ao longo de 2021.

Vacinas baseadas em RNA

Mais modernas, elas são construídas a partir de informações genéticas para conferir uma proteção contra determinada doença. Funciona assim: no laboratório, os cientistas selecionam alguns genes do vírus e fazem modificações nele.

Esse material é injetado no organismo e passa instruções para que as próprias células fabriquem proteínas virais. O sistema de defesa, por sua vez, reconhece aquela informação como uma ameaça e gera uma resposta imune.

Até o momento, não existe nenhuma vacina registrada e utilizada em larga escala deste tipo.

São dois os exemplos de candidatas à vacina contra a covid-19 mais adiantadas desta turma: a mRNA-1273 (da ModernaTX com outras duas instituições) e a BNT162 (da Pfizer com outras duas instituições).

Apesar de terem uma produção simples e rápida, as vacinas baseadas em RNA podem representar um desafio do ponto de vista logístico, pois elas tendem a ser muito sensíveis e se degradam quando expostas a luz, calor ou enzimas do ambiente.

Em tese, serão necessários locais com uma higiene e temperatura com controle rigoroso para a aplicação das doses. Isso, claro, pode inviabilizar sua distribuição para regiões mais remotas do globo.

Vacinas com vetor viral não replicante

Cristina Bonorino define esse grupo como “moléculas Frankenstein”. “A gente utiliza a casquinha de um outro vírus, que não causa doença e nem se replica, e colocamos dentro informações do material genético do coronavírus”, conta a médica.

Há ao menos quatro pretendentes em fase 3: o Ad5-nCoV (CanSino Biologics e outras dez instituições), o Ad26.COV2.S (Johnson & Johnson e outras duas instituições), o AZD1222 (Universidade de Oxford, AstraZeneca e outras sete instituições) e o Gam-COVID-Vac (também conhecida como Sputnik V, do Instituto de Pesquisa Gamaleya em Epidemiologia e Microbiologia e outras seis instituições).

Nas últimas semanas, a vacina Sputnik V ganhou os holofotes com a sua aprovação na Rússia. O fato levantou uma série de críticas, pois os resultados de segurança e eficácia não foram publicados e, portanto, não eram conhecidos pela comunidade científica internacional.

Outra representante bastante conhecida é a candidata da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e da farmacêutica AstraZeneca. Os testes de fase 3 incluem voluntários brasileiros e há um acordo com o Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) para uma eventual produção de doses em território nacional.

O que falta para elas ficarem prontas?

Linha de montagem com vários frascos de vacina, um deles coletado por uma mão

REUTERS/Thomas Peter
Uma lembrança: a aprovação de uma vacina não significa que ela estará disponível prontamente

Todas as candidatas à vacina citadas ao longo da reportagem estão iniciando ou em meio à fase 3 dos testes clínicos. Nesse momento, o objetivo é aplicar o imunizante em milhares de voluntários e acompanhá-los por determinado período de tempo.

Detalhe importante: uma parte desses indivíduos recebe a vacina de verdade, enquanto outra parcela toma doses placebo, que não tem efeito algum sobre o sistema imunológico.

A partir dessa experiência, os cientistas vão poder conferir se as pessoas vacinadas desenvolveram ou não reações adversas e se ficaram mais protegidas (ou não) da infecção pelo coronavírus quando comparadas ao grupo do placebo.

Para determinar o momento em que os testes podem ser finalizados, os autores definem uma quantidade mínima de eventos. “Nesse contexto, um evento é quando uma pessoa que faz parte do estudo fica doente e tem diagnóstico confirmado de covid-19”, diz Natalia.

Vamos pegar o exemplo da CoronaVac, elaborada pela Sinovac e pelo Instituto Butantan: de acordo com as informações publicadas no ClinicalTrials.Gov, site do governo americano que registra os estudos clínicos, os testes serão concluídos quando for atingida a marca de 150 eventos. A data para finalizar todo o estudo está agendada para outubro de 2021.

Mas como então governantes e gestores públicos dizem que a vacina começará a ser produzida e distribuída já em dezembro de 2020? “Os fabricantes farão análises interinas, com um número menor de eventos registrados. Se os resultados parciais forem robustos, eles já pedirão uma aprovação emergencial para as agências regulatórias”, antecipa Natalia.

Cristina Bonorino vê essa antecipação ensaiada por governos e empresas com ressalvas. “Precisamos respeitar o protocolo. É temerário você liberar qualquer vacina sem os resultados completos. Por mais que as agências regulatórias e os cientistas sofram pressão, devemos esperar para ter certeza de que aquele produto vai funcionar de verdade”, afirma.

Outra discussão importante está nos grupos que poderão receber as vacinas. Por ora, muitas das candidatas só são testadas em adultos de 18 a 59 anos. Isso significa que não sabemos ainda se elas serão seguras e efetivas em idosos, por exemplo, que são um dos grupos de risco para a covid-19.

Por fim, é preciso levar em conta que a aprovação de uma vacina, qualquer que seja, não significa que ela estará disponível prontamente. “A liberação significa o início da fabricação em massa, da organização de campanhas, do treinamento das equipes de saúde, da organização das cadeias de transportes… E isso tudo leva tempo”, acrescenta Natalia.

Na corrida para acabar com a pandemia, as próximas análises preliminares dos estudos de fase 3 são aguardados com ansiedade para os próximos meses. Em meio a tantas expectativas, projetos e promessas, é preciso tomar cuidado para que nenhum concorrente queime a largada.


Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube ? Inscreva-se no nosso canal!

Fonte: IG SAÚDE

publicidade
Clique para comentar

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Saúde

Prevent Senior: como operadora investigada virou ‘única alternativa’ para idosos

Publicado


source

BBC News Brasil

Prevent Senior: como plano de saúde investigado cresceu como 'única alternativa' para idosos
Thais Carrança – Da BBC News Brasil em São Paulo

Prevent Senior: como plano de saúde investigado cresceu como ‘única alternativa’ para idosos

A CPI da Pandemia ouve nesta terça-feira (28/9) a advogada Bruna Morato, que representa um grupo de 15 médicos da Prevent Senior. Eles elaboraram um dossiê no qual a operadora de planos de saúde é acusada de usar seus hospitais como “laboratórios” para estudos com medicamentos comprovadamente ineficazes para o tratamento da covid-19.

Além da CPI, a Prevent Senior é investigada também pelo Ministério Público de São Paulo, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) – órgão do governo federal que regula o setor de planos de saúde – e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

A operadora de planos de saúde é suspeita de pressionar seus médicos a prescrever remédios sem eficácia comprovada para o tratamento da covid-19 ; ministrar esses medicamentos em alguns casos sem o consentimentos dos pacientes e seus familiares; e fraudar atestados de óbito, registrando mortes pelo coronavírus com outras causas.

Em depoimento à CPI da Covid na quarta-feira (22/09), o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista, negou as acusações e disse que o dossiê apresentado à comissão é fruto de dados roubados e manipulados. A empresa pediu que a Procuradoria-Geral da República investigue o caso.

Em meio a todas essas denúncias, a empresa enfrenta a maior crise de imagem desde sua fundação, em 1997.

No entanto, beneficiários insatisfeitos com acusações de má-conduta da companhia se veem numa sinuca de bico: praticamente não existem concorrentes que ofereçam planos para idosos na mesma faixa de preços da Prevent Senior em São Paulo, maior mercado para planos de saúde do país e região de foco de atuação da empresa.

Assim, analistas avaliam que, mesmo diante da sucessão de escândalos envolvendo a companhia, ela tende a ser pouco afetada em seu número de beneficiários – atualmente em 542 mil, segundo a ANS, o que coloca a operadora entre as dez maiores do Brasil.

Como os idosos clientes da Prevent chegaram nessa situação, de quase não terem alternativas no mercado de planos de saúde paulista? E como a empresa cresceu apostando nesse segmento desprezado pelas demais operadoras? Contamos aqui.

Diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista, presta depoimento na CPI

Edilson Rodrigues/Agência Senado
O diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista, compareceu à CPI da Covid no Senado e negou as acusações

História da Prevent Senior

A Prevent Senior foi fundada pelos irmãos Fernando e Eduardo Parrillo, que começaram a atuar no setor de saúde no negócio de remoção de pacientes por ambulância.

Fernando Parrillo falou sobre isso em entrevista publicada em 2007 na revista Memória Empresarial:

“Em 1996, surgiu a ideia da ambulância. Eu era o motorista, e o meu irmão, quando removíamos pacientes de UTI, ia como médico na parte de trás. Começamos dessa forma, com uma empresa chamada Remotion, quando percebemos que poderíamos exercer outra função. Em vez de fazermos a remoção, nós poderíamos ser a empresa que recebia os pacientes”, contou o hoje presidente-executivo da Prevent Senior.

O passo seguinte dos irmãos foi comprar uma clínica em Santo Amaro e criar um plano de saúde. Em seguida, eles decidiram investir numa estrutura própria, para que a clínica não dependesse mais das empresas de ambulância para fazer a remoção dos pacientes.

O próximo passo, segundo o empresário, foi criar um modelo de negócios focado na prevenção e no público com mais de 60 anos.

“Nessa fase, apareceu a oportunidade da compra de um hospital na Bela Vista [bairro da região central de São Paulo], que foi o grande salto da nossa vida”, contou Fernando Parrillo. Esse primeiro hospital foi inaugurado em 1997.

“Outra estratégia fundamental foi investir em publicidade pela televisão. Ainda não existia merchandising de operadora de saúde, e nós fomos os primeiros a entrar. Quando o meu irmão aparecia falando do nosso sistema em um programa vespertino, era uma loucura para atender todas as chamadas telefônicas.”

O modelo de negócios deu certo: a empresa viu seu faturamento saltar de R$ 449 milhões em 2011, para R$ 1 bilhão em 2014 e mais de R$ 4 bilhões em 2020. O lucro acompanhou essa trajetória ascendente, indo de R$ 33 milhões em 2011, para R$ 496 milhões no ano passado.

Por que a maioria das operadoras cobra preços exorbitantes dos idosos?

“A Prevent Senior é um caso único em seu segmento, que desafia a lógica do setor”, observava a XP Asset Manegment, em relatório de 2020.

“Apresenta majoritariamente beneficiários idosos, que a princípio oneram mais a rede devido à maior frequência de atendimentos, sobretudo dos mais complexos e internações, e ainda assim exibe margens de rentabilidade muito acima da média do setor.”

O comentário da gestora de recursos ajuda a entender por que os outros planos cobram preços proibitivos dos idosos – o que fez a Prevent se destacar ao cobrar mensalidades de em média R$ 800.

“O preço tem a ver com risco na área planos de saúde”, explica Carlos Suslik, médico, consultor na área de saúde e ex-diretor executivo do Instituto Central do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo.

“A gente costuma dizer na área de saúde que a pessoa gasta 50% de tudo que ela gasta em saúde ao longo da vida no último ano de vida, porque é nesse último ano que em geral vem o ‘evento catastrófico’, como um câncer, um infarto, um AVC [acidente vascular cerebral]”, exemplifica o consultor.

“É muito difícil a gente morrer que nem um passarinho, que dorme, e no dia seguinte está morto. E, quanto mais velho a gente está, mais próximo estamos desse último ano de vida. Isso faz com que o custo da saúde do idoso seja muito maior”, justifica.

Idosa olhando pela janela

Getty Images
A partir de 2004, lei proibiu planos de saúde de fazerem reajustes por faixa etária para pessoas acima dos 60 anos

A questão das faixas etárias para reajuste dos planos

Para Alessandro Acayaba de Toledo, presidente da Anab (Associação Nacional das Administradoras de Benefícios), um outro fator que leva aos altos preços dos planos de saúde para idosos é o fato de, a partir de 2004, com a entrada em vigor do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03), os planos de saúde terem ficado proibidos de fazer reajustes por faixa etária para pessoas acima dos 60 anos.

Até 2004, os planos tinham sete faixas etárias, sendo as últimas 50 a 59 anos, 60 a 69 anos e 70 anos em diante. Depois do Estatuto do Idoso, as faixas passaram a ser dez, mas a última delas é 59 anos ou mais.

A partir dessa idade, portanto, os planos não podem mais fazer reajuste por faixa etária, mas apenas o reajuste anual baseado na variação dos custos médico-hospitalares e na sinistralidade (número de vezes em que o plano de saúde é usado pelos pacientes).

“Por essa regra, o cara de 65 anos paga a mesma coisa que o cara de 85 anos. Isso faz com que o plano tenha que cobrar mais caro de todo mundo na média”, argumenta Suslik, que defende a volta das faixas adicionais para os idosos mais velhos.

Matheus Falcão, advogado do programa de Saúde do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), discorda da proposta e diz que a faixa única acima dos 59 anos foi estabelecida para proteger os direitos dos idosos.

“Conhecemos esse argumento, mas não concordamos com essa tese”, diz Falcão. “Foi estabelecida uma faixa só porque o Estatuto do Idoso veta a discriminação entre idosos. A proibição de que haja reajustes distintos é uma forma de proteger essa parcela da população”, considera.

Segundo o advogado, o mercado de planos de saúde é orientado pelo princípio do mutualismo, em que os setores mais jovens ajudam a financiar os mais velhos. “Você não pode individualizar o risco, isso quebra com a ideia do mutualismo. Se você permitir que as pessoas mais velhas recebam reajustes mais elevados, isso vai expulsando as pessoas nos níveis mais elevados e nada garantiria que as operadoras reduziriam o percentual de reajuste.”

Como a Prevent conseguiu então ser bem sucedida atendendo idosos?

Segundo dados da ANS, a Prevent Senior tem 76% de sua carteira de beneficiários composta por idosos, comparado a uma média de 14,2% do setor. A idade média dos pacientes da operadora é de 66,6 anos, contra média setorial de 35,8 anos.

O que garante à operadora menores custos do que a concorrência e permite a ela oferecer planos mais baratos aos idosos é a verticalização, jargão do mundo dos negócios para quando uma empresa controla as diversas etapas do seu processo, sem terceirizá-las para outras companhias.

“A empresa conseguiu com muito sucesso implementar uma estrutura muito vertical, centrando grande parte dos atendimentos e exames, dos simples aos complexos, em seus postos de atendimentos e rede própria de hospitais, conhecida como Sancta Maggiore”, diz a XP Asset no seu relatório.

Suslik explica que o uso da rede própria permite à empresa um maior controle dos custos.

“Na rede própria, você consegue regular o uso de exames, de laboratórios, de internações, o tempo de internação, porque a rede é sua”, diz o consultor, lembrando que outras operadoras também têm redes próprias, como NotreDame Intermédica, Hapvida e Unimed, no Brasil, e a Kaiser Permanente, no mercado americano.

Outro fator que reduz o custo da Prevent, segundo o ex-diretor do HC, é a regionalização.

“Se um paciente da Prevent de São Paulo passar mal em Manaus, ele não tem cobertura – quem compra sabe disso. Isso reduz custos porque, para ter uma cobertura nacional, é preciso credenciar serviços no país inteiro, para um número de pacientes muito pequeno, então o preço para credenciar é muito mais alto, porque você não tem poder de barganha”, explica.

O problema desse modelo baseado em rede própria e regionalização é a dificuldade de escalar o negócio. Isso explica por que somente em 2020 a Prevent Senior expandiu sua atuação para o Rio de Janeiro, ainda restrita à capital fluminense.

Plano individual ou coletivo?

Outra peculiaridade do modelo de negócios da Prevent é apostar quase que exclusivamente em planos individuais ou familiares, quando a maioria do setor prefere os planos coletivos, que são aqueles oferecidos por empresas ou associações de classe, como os sindicatos.

Segundo a ANS, a Prevent tem 94,5% de beneficiários em planos individuais ou familiares e somente 5,5% em planos coletivos. No setor em geral, 81,4% dos beneficiários estão em planos coletivos.

“A diferença é que, nos planos individuais, a definição do reajuste é feita pela própria ANS – recentemente, numa decisão inédita da agência, teve até um reajuste negativo. Enquanto isso, nos planos coletivos, há uma liberdade de reajuste entre as empresas contratantes”, explica Toledo, da Anab.

“Historicamente, o índice de reajuste aplicado aos planos individuais é inferior àquele aplicado aos planos coletivos, então as operadoras já há muito tempo desestimularam a comercialização de planos individuais e passaram a ter oferta maior de planos coletivos.”

Aqui, novamente, o representante do setor de planos de saúde defende que uma menor regulação pela ANS poderia aumentar a competição no segmento de planos individuais, dando mais opções aos consumidores. E aqui, também de novo, o advogado do Idec discorda.

“No entendimento do Idec, a solução seria que a regulação se estendesse também para os planos coletivos”, diz Falcão, do instituto de defesa do consumidor. “O problema não está na regulação dos planos individuais, está na falta de regulação dos planos coletivos, que permite às operadores cobrarem aí preços mais elevados.”

Para o advogado, o que poderia reduzir custos no setor de planos de saúde e permitir uma maior oferta de serviços para os idosos seria uma maior transparência nos custos das operadoras, o que beneficiaria empresas e consumidores, na sua visão.

Idosos sem alternativa

O resultado desse modelo único criado pela Prevent e da falta de competição no segmento em que ela atua é que seus pacientes não têm muita opção, se ficarem descontentes.

“Se eu não tenho outra opção, ou a outra opção é pior, eu fico onde estou, é basicamente isso”, diz Suslik.

Ele também descarta que as concorrentes tentem aproveitar a crise de imagem da empresa para abocanhar parte do seu filão. “Esse modelo que eles fizeram é muito difícil de copiar, eles são muito especializados na terceira idade e são muito bons nisso. Mesmo quando o [ex-ministro da Saúde Luiz Henrique] Mandetta criticou a empresa, e eles também tiveram uma perda de imagem, aumentou o número de pacientes”, exemplifica o consultor.

Ele faz referência a episódio ocorrido em março de 2020, quando o então ministro acusou a Prevent Senior de promover “aglomeração de idosos”, num momento em que a rede era destaque no noticiário pelo número elevado de mortes por covid-19 em seus hospitais.

Hidroxicloroquina

Getty Images
Plano de saúde é acusado de usar irregularmente em sua rede o chamado ‘kit covid’

Toledo, da Anab, avalia que a situação da empresa poderia se complicar mais, caso as diversas investigações em andamento sobre a Prevent se estendam do âmbito da pandemia para outras práticas. Mas também avalia que as opções dos idosos são restritas.

“A partir dessas denúncias de impulsionamento do ‘kit covid’, da hidroxicloroquina e outras coisas mais, por talvez ser um tratamento mais em conta, mais barato, isso chama a atenção das autoridades e pode eventualmente ter desdobramentos para saber se esse tipo de prática se replicava em outros modelos de atenção e assistência às pessoas”, afirma.

O representante lembra que uma pesquisa do Instituto Vox Populi, encomendada pelo IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar) e divulgada em junho deste ano, mostrou que ter um plano de saúde é o terceiro maior desejo do brasileiro, atrás de casa própria e educação.

“É claro que os idosos que tem lá seu dinheirinho querem ter uma assistência médica privada de qualidade, mas muitas vezes não cabe no bolso deles. Aí a Prevent Senior acaba apresentando uma solução com custo benefício interessante. O fato de ela estar no centro da CPI arranha, é claro, a imagem da empresa, mas, no fim do dia, as pessoas nessa faixa etária não têm uma outra opção.”


Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube ? Inscreva-se no nosso canal!

Fonte: IG SAÚDE

Continue lendo

Saúde

Covid-19: Piracicaba cadastra voluntários para testes clínicos

Publicado


O cadastramento de voluntários para estudos clínicos da vacina contra a covid-19 ButanVac, em Piracicaba, no interior paulista, começou hoje (28). A pesquisa é conduzida pelo Instituto Butantan, em parceria com universidades norte-americanas.

Para se inscrever é preciso ter mais de 18 anos e ainda não ter se vacinado ou contraído covid-19. Também não podem participar dos testes pessoas alérgicas a ovos ou frango, além de grávidas e lactantes. O cadastramento acontece na Alameda Melvin Jones, 91, até amanhã (29), das 8h30 às 16h30.

Os participantes serão vacinados com a ButanVac ou com a CoronaVac. Não haverá grupo de controle com placebo. A comparação será feita entre os resultados com cinco mil voluntários imunizados com a nova vacina desenvolvida pelo Butantan e os demais imunizantes contra o coronavírus.

Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, Piracicaba já vacinou com ao menos uma dose 81,6% da população adulta, com aplicação de 332, 3 mil doses de vacinas contra o novo coronavírus.

Outras cidades

Em São Paulo, além de Piracicaba, os testes também estão sendo feitos em Ribeirão Preto. Também participam dos estudos clínicos voluntários das cidades mineiras de Arceburgo, Cabo Verde, Guaranésia, Guaxupé, Itamogi, Juruaia, Monte Belo, Muzambinho, São Sebastião do Paraíso e São Pedro da União.

A ButanVac é desenvolvida por um consórcio internacional com envolvimento do Butantan, da organização Path Center for Vaccine Innovation and Access, da Icahn School of Medicine, de Nova York, e da Universidade do Texas, em Austin.

O imunizante funciona com o uso do vírus da doença de Newcastle (enfermidade que ataca aves) modificado com a proteína spike do novo coronavírus. O vírus, inofensivo para humanos, é replicado em ovos de galinha com a mesma tecnologia da vacina contra gripe.

Edição: Kleber Sampaio

Fonte: EBC Saúde

Continue lendo

Política MT

Policial

Mato Grosso

Esportes

Entretenimento

Mais Lidas da Semana