Havia um instante mágico, quase sagrado, quando as luzes do cinema começavam a se apagar.
O burburinho cessava, os cochichos se calavam e, no escuro, o coração batia mais forte.
Era o sinal de que algo ia começar — uma aventura, um romance e um mundo inteiro que cabia naquela tela iluminada.
Lembro-me bem: o cheiro do carpete, o estalar das poltronas de madeira, o brilho das lanterninhas guiando os retardatários até seus lugares.
As luzes se apagavam devagar, como se o tempo também diminuísse o passo.
E, de repente, o silêncio.
Um silêncio cheio de expectativa, de sonhos que vinham de Hollywood e pousavam, por alguns minutos, em Cuiabá.
As crianças se ajeitavam nas poltronas, os casais se davam as mãos e os vendedores de balas faziam sua última corrida pelos corredores.
A projeção começava, e todos éramos transportados para outro mundo.
O Cine Teatro, o Bandeirantes, o Tropical, o São Luiz — cada sala tinha seu cheiro, sua alma e sua plateia fiel.
As luzes que se apagavam não apenas anunciavam o início do filme, mas o começo de uma emoção compartilhada.
Hoje, nos shoppings modernos, o escuro continua o mesmo, mas o encanto é outro.
Falta o ruído das bobinas, o chiado do projetor e o murmúrio de espanto na hora do beijo final.
Fecho os olhos e ainda vejo as luzes se apagando devagar, como se anunciassem o sonho que estava por vir.
Era o momento em que a realidade se recolhia — e o menino que eu fui sentado na poltrona do cinema, acreditava que tudo era possível.
Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado