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JOSÉ ANTÔNIO LEMOS – Dutra, lembrança necessária

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Passou o dia 18 e todo o mês de maio, e ele é de novo esquecido. Podia ter sido lembrado agora que os militares voltam a protagonizar a vida nacional, ao menos em Cuiabá, terra onde nasceu em 1883. Militar como Bolsonaro, Dutra também foi eleito pelo voto prometendo uma nova era ao Brasil virando a página da ditadura vivida pelo país por cerca de 15 anos, enquanto Bolsonaro chega prometendo virar a página da corrupção que sangrou o Brasil por igual período. Pitoresco, também os une um problema de dicção, como também tinha o rei da Inglaterra da época do Dutra. Só que o problema do Rei rendeu um Oscar em Hollywood, o de Dutra entrou para o folclore político nacional e o de Bolsonaro ainda se limita à alegria dos imitadores nas rádios, TVs e Internet.

A grandeza de Dutra vem de sua origem humilde. Menino, vendia nas ruas de Cuiabá bolinhos feitos por sua mãe, viúva de militar combatente da guerra do Paraguai. Ao passar para a Escola Militar, teve que ir como lavador de pratos na lancha e depois no trem nos quais viajou. Orgulhava-se por não ter sido ajudado pelas autoridades locais apesar dos pedidos de sua mãe, e de, mesmo assim, ter chegado a tempo de ocupar sua vaga na escola. E seu lugar na História. Eurico Gaspar Dutra, apesar das dificuldades foi à luta e chegou à Presidência da República, mantendo-se até o fim da vida como uma das pessoas mais influentes na política nacional.

Foi ele quem “convenceu” Vargas a convocar eleições democráticas e uma nova Constituinte, rompendo com o chefe de quem foi ministro da Guerra por 9 anos. Tinha por trás a FEB, criada por ele, que voltava vitoriosa da Europa. Como manter uma ditadura num país que acabara de derrubar as ditaduras nazifascistas? Convocadas as eleições, foi eleito presidente para um mandato de seis anos, e, mesmo sendo o militar mais poderoso do país, Dutra curvou-se aos cinco anos de mandato estabelecidos pela nova Constituição. Aos que temiam a volta de Vargas e lhe propunham ficar mais um ano dizia: “nem um minuto a mais, nem um minuto a menos”. Virou “o homem do livrinho”, pois sempre portava um exemplar da Constituição Federal, sancionada por ele.

O Governo Dutra foi marcante no desenvolvimento do país. Introduziu o planejamento no Brasil com o Plano SALTE (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia), e criou o CNPq, cuja Lei de criação é tida como a Lei Áurea da tecnologia brasileira. Implantou o hoje tão usado conceito de PIB, pavimentou a primeira grande estrada no Brasil, a Via Dutra, e construiu a Usina de Paulo Afonso iniciando a eletrificação do Nordeste. Criador do Instituto Rio Branco, base do alto conceito de nossa diplomacia, é dele também a criação do Estado Maior das Forças Armadas e da Escola Superior de Guerra, até hoje o principal núcleo formador da inteligência estratégica nacional. Também é dele a criação do sistema “S”, que já deu até um presidente da República. Ainda construiu o Maracanã e trouxe a Copa de 50.

Mas, o grande feito de Dutra foi provar o quão longe pode ir um menino humilde de uma terra distante, estudante de escola pública. Sonhar não ofende: a maior homenagem que o Brasil deve a este seu filho ilustre é a transformação da atual sede do 44ºBIM em Cuiabá, construída por ele em local hoje já impróprio para a função, em um Colégio Militar com o seu nome, abrigando também um memorial com sua história inspirando o jovem mato-grossense de hoje em seus sonhos de cidadania. Assim também se pagaria uma antiga promessa da união para com Cuiabá e a juventude de Mato Grosso, um Colégio Militar.

JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é conselheiro do CAU/MT, acadêmico da AAU/MT e professor universitário aposentado.

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EMANUEL PINHEIRO – O legado de trabalho e humildade de Jonas Pinheiro

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Na data de hoje, 19 de fevereiro, o Brasil perdeu um dos seus maiores líderes, o Senador Jonas Pinheiro. Tive a honra e o privilégio de iniciar minha vida pública ao lado deste, que foi meu parente, companheiro, compadre e amigo. Mais que um grande mestre, Jonas era o retrato da política feita para melhorar a vida das pessoas.

Defensor nato do homem do campo, costumava dizer que “o povo é simples e quer coisas simples. Quer alimento, quer vestuário e deseja a moradia; quer também escolas e hospitais, mas antes de tudo, o povo quer trabalho”. Defendo, com total convicção, que Jonas foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento e progresso de Mato Grosso.

Hoje, 12 anos após sua partida, relembro com imensa saudade daquele homem discreto e simples que me incentivou a entrar na política. Do homem que me deixou como legado ensinamentos que me inspiram até hoje a seguir trabalhando dia e noite pela nossa gente.

Com Jonas aprendi a não esquecer o lugar de onde vim, a terra amada onde nasci e por isso tenho tanto orgulho de ser o prefeito de Cuiabá. Foi acompanhando a vida política de Jonas que entendi que para ser gestor é preciso vivenciar o povo, é preciso ir aos bairros, valorizar o movimento comunitário, estar junto das pessoas, escutar mais do que falar e agir mais (muito mais) do que apenas prometer.

Mais de uma década após sua partida, Jonas tem muito a ensinar sobre humildade aos que escolhem servir ao povo. Um homem que foi da Baixada Cuiabana ao Senado, que circulou entre autoridades, mas que fazia questão de estar com os mais carentes, que colocou seu talento como gestor e conciliador a serviço das pessoas, sem distinção.

O legado de Jonas vive no agronegócio forte, no homem do campo, vive em cada ação da minha gestão humanizada, em nossa memória e principalmente em nossos corações. Viva Jonas!

Emanuel Pinheiro é prefeito de Cuiabá

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SÉRGIO CINTRA – “Ela deu o rádio”

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O escritor português José Saramago (1922 – 2010) escreveu, talvez, as mais encantadoras e instigantes páginas da literatura portuguesa. Sempre tendo como foco o comportamento do homem em sociedade; para tanto, extrema o real, usando o absurdo como forma de denunciar a realidade. No memorável “Ensaio sobre a Cegueira” (1995), ele nos presenteia com o seguinte aforismo: “A pior cegueira é a mental, que faz que com que não reconheçamos o que temos a frente.”;  infelizmente, a máxima do Nobel de Literatura é cada vez mais presente em parcela significativa da população brasileira. Tomada por sentimentos que vão da mitificação à indiferença, néscios corroboram com desmandos, agressões, violações e atrocidades cometidas pelo ocupante do Alvorada.

São tantas  estultíces, mas a última (caso não haja mais alguma entre o ato deste escriba e a publicação desta missiva) é tacanha, mesquinha, grosseira e, principalmente, chauvinista.  O presidente, ao proferir a indecorosidade “ – Ela queria dar o furo…”, o monstrengo que faz arminha, com concordância e risadas de sua trupe, demonstra toda a sua inaptidão intelectual, moral e ética, não apenas para ocupar o cargo maior do país como também para conviver com as diferenças.

A luta das mulheres pela igualdade é sabida por muitos e negada por muitos mais, inclusive por parte do sexo feminino. As conquistas feministas foram às duras penas. Quantas não sofreram tipo de violência para que suas iguais pudessem votar? Assista ao filme “As Sufragistas” (2015). Como não refletir sobre a absurda realidade brasileira; um estupro a cada 11 minutos? Leia “Uma a cada onze” (https://7seminario.furg.br/images/arquivo/315.pdf). Por que não pensar sobre a escalada do feminicídio? Pesquise “Violência contra mulheres em dados” (https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/). Imagine o efeito que causaria se, ao invés de fazer arminha e vomitar termos chulos, o “capetão” pregasse paz, respeito e tolerância…

Simone de Beauvoir, em “O segundo Sexo” (1967) afirma: “As mulheres de hoje estão destronando o mito da feminilidade; começam a afirmar concretamente sua independência; mas não é sem dificuldade que conseguem viver integralmente sua condição de ser humano”. Daquele ano até hoje, passaram-se 53 difíceis e dolorosos anos e a selvageria contra as mulheres não arrefeceu. Antes, parece florescer com vigor na sociedade contemporânea. Independentemente da posição que se ocupe no estamento social, o comportamento em relação ao sexo feminino é troglodita. No longínquo século XIX, Sörin Kierkegaard já alertava para a condição da mulher: “Que desgraça ser mulher! Entretanto, a pior desgraça quando se é mulher é, no fundo, não compreender que sê-lo é uma desgraça”.

O cantor Genival Lacerda emplacou um sucesso, em 1979, com “Radinho de Pilha” (de Namd e Graça Góis): “Eu não tolero tanto desaforo/Tem mulher que só aprende quando o coro desce/ Pra gente ficar empate, eu vou lhe dar uma sova/ Pois o rádio que eu comprei todo mundo já conhece/ Ela deu o rádio…”  fala, em seu forró malícia, sobre a coisificação da mulher e de atitudes machistas, herança dos Senhores de Engenho. Sem metáforas e com um alcance e repercussão descomunais,  o incipiente e insipiente planaltino verde-oliva-mor afronta não só mulheres mas também estilha dos homens. Assim, como disse Saramago, no mordaz “Ensaio sobre a Lucidez”: “Que monstruosas coisas é capaz de gerar o cérebro”.

Sérgio Cintra é professor de Redação e de linguagens em Cuiabá. [email protected]

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