GABRIEL NOVIS NEVES

Janelas iluminadas na madrugada

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Janelas iluminadas na madrugada

Na Cuiabá de outrora uma luz acesa no dormitório despertava a curiosidade dos vizinhos e de quem passava pela rua.

Os insones mantinham a lâmpada do quarto acesa — uma atitude anormal para aquele tempo.

Não era comum ver uma lâmpada iluminando a madrugada: era sinal de que algo de ruim acontecia naquela casa

Os antigos controlavam a iluminação de seus lares. Mesmo quando não conseguiam dormir, permaneciam no escuro.

Um dormitório iluminado à noite logo fazia os vizinhos pensarem que algo não estava bem.

Meu avô tinha o hábito de tomar o seu guaranazinho ralado às quatro da manhã.

Para isso acendia uma lamparina sobre a mesinha ao lado da cama.

No período escolar minha mãe recorria ao mesmo recurso quando o gerador da cidade entrava em pane e precisávamos estudar ou revisar as lições.

Ela acreditava que, nas primeiras horas do dia, o aprendizado se tornava mais fácil.

Coisas de ‘decoreba’, tão comum no nosso ensino daquele tempo — até mesmo em matemática.

Para me ajudar nessa disciplina, meu pai contratava aulas particulares com o professor João Crisóstomo, filho do professor Agostinho de Figueiredo.

Ele lecionava em sua casa, na rua Nova, quase em frente ao antigo Hospital Sotrauma. 

O pouco que ainda sei de matemática aprendi com ele, sem precisar acordar de madrugada para recordar lições.

Até hoje, uma luz acesa de madrugada em uma residência carrega a ideia de que há gente acordada — e raramente é um bom sinal.

Quando as crianças nasciam em casa, como eu e meus oito irmãos, todos na vizinhança sabiam que havia gente nova no mundo.

Esperavam o dia clarear para visitar o recém-nascido — e isso sempre dava certo.

Nos dias atuais, ninguém mais considera a insônia um mistério.

Tampouco uma lâmpada acesa desperta curiosidade.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado