Janeiro traz consigo uma energia singular. É tempo de recomeço, quando naturalmente nos voltamos para dentro e avaliamos nosso trajeto. Nesse momento de reflexão coletiva, o Janeiro Branco nos convida a olhar com seriedade para algo que sustenta toda nossa existência: a saúde mental.
Os números impressionam: segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais, sendo ansiedade e depressão as condições mais prevalentes. Mais alarmante ainda é a desigualdade no acesso ao tratamento - enquanto mais da metade das pessoas em países de alta renda recebe atendimento, menos de 10% dos afetados em países de baixa renda têm essa oportunidade.
Mais do que ausência de sofrimento, a saúde mental representa nossa capacidade de atravessar tempestades mantendo acesa a luz interior. É o equilíbrio que nos permite enfrentar adversidades sem perder a esperança, transformar dores em aprendizado e cultivar relacionamentos verdadeiros mesmo em tempos difíceis.
A saúde integral exige que compreendamos o ser humano em sua totalidade. Corpo, mente e espírito formam uma unidade inseparável. Por isso, cuidar da saúde mental transcende consultas e tratamentos - é um compromisso diário com nosso desenvolvimento interior.
Essa jornada começa pelo autoconhecimento. Conhecer nossos limites, reconhecer nossas emoções, identificar padrões que nos prejudicam. Sem essa consciência, permanecemos reféns de impulsos e reações automáticas.
A educação dos sentimentos surge como ferramenta essencial. Não se trata de reprimir o que sentimos, mas de compreender nossas emoções e direcioná-las construtivamente. Raiva, medo, tristeza - todos têm sua função. O problema não está em senti-los, mas em deixar que nos dominem ou que nos afastem do amor e da compaixão.
Essa proposta não é fácil. Como todo exercício, exige disciplina, força de vontade e muita fé para praticar. Assim, como o atleta que deseja levantar 200 quilos não consegue esse feito de uma só vez, precisamos avançar um dia de cada vez, aumentando os pesos gradativamente.
Adoecemos mentalmente não de um dia para outro, mas gradualmente, porque não ouvimos nossos limites. Com a evolução das mídias digitais, o trabalho exaustivo, a correria para ter, acabamos esquecendo do mais importante - nossa saúde mental.
A vigilância espiritual nos mantém atentos aos pensamentos que alimentamos.
Que tipo de energia cultivamos?. Nossos pensamentos geram paz ou conflito?. Fortalecem vínculos ou criam distâncias?.
A vivência do Cristo nos ensina o amor incondicional - base de toda saúde mental verdadeira. É na capacidade de perdoar, de servir, de compreender que encontramos a paz duradoura.
Práticas simples sustentam esse caminho. Movimento do corpo, alimentação consciente, sono reparador, momentos de silêncio e contemplação. Relacionamentos nutritivos, atividades que trazem alegria, contato com a natureza. São gestos pequenos que, repetidos com regularidade, constroem alicerces sólidos.
O Janeiro Branco não propõe soluções mágicas. Propõe compromisso. Compromisso de não esperar o colapso para cuidar, de não tratar saúde mental como luxo ou fraqueza. Compreender que somos espíritos imortais em jornada evolutiva muda nossa perspectiva. Os desafios deixam de ser castigos e se tornam oportunidades de crescimento.
Que este janeiro seja marco de um novo relacionamento conosco mesmos. A paz verdadeira não é destino, mas caminho que se constrói diariamente, com fé, amor e persistência.
José Zuquim Nogueira é desembargador e atual presidente do Poder Judiciário de Mato Grosso