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Janeiro Branco e a Saúde Mental no Sistema Penitenciário

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Janeiro Branco e a Saúde Mental no Sistema Penitenciário

O sistema penitenciário brasileiro impõe desafios constantes aos seus profissionais, especialmente àqueles que atuam nas áreas de assistência e reinserção social. Psicólogos, assistentes sociais, pedagogos e demais especialistas lidam diariamente com situações de vulnerabilidade extrema, violência institucionalizada e sofrimento humano.

Esse contexto, quando somado à personalização excessiva das demandas do trabalho, tem provocado impactos significativos na saúde mental desses servidores.A personalização ocorre quando o servidor absorve emocionalmente os conflitos, histórias e fracassos do sistema, sentindo-se individualmente responsável por problemas estruturais. 

No ambiente prisional, essa dinâmica se intensifica, já que os profissionais de assistência atuam diretamente na escuta, no acompanhamento e na tentativa de reconstrução de vínculos sociais dos apenados.

Embora a empatia seja essencial para o trabalho humanizado, o envolvimento emocional excessivo pode levar ao esgotamento psicológico, sobretudo quando não há suporte institucional adequado.

Entre os principais transtornos que acometem servidores do sistema penitenciário destacam-se:• Transtornos de ansiedade, caracterizados por tensão constante, medo excessivo e sintomas físicos como insônia e taquicardia;• Depressão, marcada por tristeza persistente, desânimo, perda de interesse e sensação de impotência;• Síndrome de Burnout, relacionada ao esgotamento emocional, distanciamento afetivo e queda no desempenho profissional;• Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), associado à vivência ou testemunho de situações traumáticas, como agressões, rebeliões ou ameaças.

Esses transtornos afetam não apenas o desempenho profissional, mas também a qualidade de vida do servidor fora do ambiente de trabalho.Na vida pessoal, os impactos incluem dificuldades nos relacionamentos familiares, irritabilidade, isolamento social, alterações no sono e no apetite, além do aumento do uso de substâncias como álcool e medicamentos.

No ambiente laboral, observa-se maior número de afastamentos por adoecimento, redução da produtividade, conflitos interpessoais e dificuldade em manter limites emocionais no exercício da função, o que compromete tanto o servidor quanto a equipe.

O adoecimento mental dentro do sistema prisional também representa riscos adicionais. Profissionais emocionalmente fragilizados podem ter sua capacidade de tomada de decisão comprometida, o que é especialmente grave em um ambiente que exige atenção constante, equilíbrio emocional e respostas rápidas a situações de crise.

Além disso, a vulnerabilidade emocional pode expor o servidor a situações de conflito, manipulação ou violência, agravadas pelo estigma ainda existente em torno dos transtornos mentais no serviço público.

O Janeiro Branco reforça a urgência de se tratar a saúde mental como prioridade. No contexto penitenciário, isso significa investir em políticas institucionais de prevenção, acompanhamento psicológico contínuo, espaços de escuta, capacitações sobre autocuidado e estratégias de enfrentamento do estresse ocupacional.

Cuidar da saúde mental dos servidores do sistema penitenciário não é apenas uma questão individual, mas um compromisso coletivo com a segurança, a dignidade do trabalho e a efetividade das ações de reinserção social.

Reconhecer o sofrimento psíquico desses profissionais é o primeiro passo para transformar a realidade do sistema prisional.   Proteger quem cuida, acolhe e trabalha pela reintegração social é essencial para a construção de um sistema mais humano, seguro e eficiente

Eunice Teodora dos Santos Crescencio é Psicóloga e Presidente do Sindicato dos Profissionais de Nível Superior do Sistema Penitenciário de Mato Grosso