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Opinião

JANDIRA MARIA PEDROLLO – O melhor modal de transporte são os pés

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Ser pedestre é uma dádiva, movemo-nos olhando do alto da nossa estrutura corporal. Poderíamos estar andando de quatro e saltitantes como nossos ancestrais, mas, por obra divina ou segundo a teoria da evolução das espécies, conseguimos esse grande feito que mudou sobremaneira nosso estilo de vida.

A evolução humana foi tamanha, que após conseguirmos elevar o corpo, voltamos a andar de quatro, só que agora de quatro rodas. É preciso ter a percepção da necessidade de assumirmos nosso estado original, de bípedes que somos.

Ser pedestre significa aquele que anda ou que está de pé, também é sinônimo de peão, é principalmente para essa população que devem ser projetadas nossas cidades e que os urbanistas devem se ater. Todos somos pedestres e a maioria não percebe isso.

Apesar de nós termos desenvolvido diversos modais de transporte para nossa locomoção, o principal são nossos pés, dependemos deles constantemente. E para tal, as pistas para deslocamentos, o sistema pedonal, deveria ser impecável, pois por eles passam pessoas de todas as idades, condições físicas e financeiras. As cidades devem ser planejadas para as pessoas, elas são os principais atores nesse processo todo.

Apesar da importância desse sistema, ainda restam dúvidas quanto à responsabilidade na sua execução e manutenção. Conforme a Lei Federal de Parcelamento do Solo – Lei 6766/1979, as calçadas fazem parte do sistema viário urbano, porém a responsabilidade pela sua execução e manutenção está a cargo do proprietário do imóvel localizado em frente à via pública.

Este “proprietário” inclusive pode ser multado pela municipalidade se não executar a pavimentação ou manutenção. Observamos que a população, por entender que a responsabilidade pela pista reservada ao trânsito de pedestres é do proprietário, não cobra da municipalidade pela trafegabilidade da mesma.

Nas áreas centrais da maioria das cidades a trafegabilidade ainda é razoável, mas a situação tende a piorar à medida que se afasta destas. Há localidades em que o poder público municipal assume a construção e manutenção de calçadas, em especial nas áreas centrais, no entanto, o mesmo não ocorre nos corredores de circulação do transporte público e nos bairros.

Esse é o ponto que quero chegar. Apesar de termos nossos veículos ou utilizarmos o transporte público, precisamos que o sistema pedonal esteja em boas condições para ser utilizado com segurança. Apesar de muito pouco andar a pé, eu gostaria de poder exercer mais essa atividade, mas as condições de segurança das pistas são mínimas, desconfortáveis e desagradáveis.

Há inclusive o uso dos espaços para estacionamento de automóveis. Movimentar-se a pé, além de meio de locomoção, é atividade física de baixo custo que todos poderiam realizar, aproveitando o tempo enquanto se dirige ao local de trabalho, de estudo ou mesmo para um passeio.

Penso que os gestores, antes de discutirem qual é modal de transporte é ideal, deveriam primeiramente ter respostas às seguintes questões: Como o cidadão se locomove? Como acessar o transporte público? Como o cidadão motorizado vai do estacionamento ao seu local de trabalho? Como retorna? O trajeto é seguro? É confortável? É ambientalmente agradável? A sensação térmica é suportável?

É preciso que sintam o que o cidadão comum, aquele que lhes dá o emprego e paga o salário, passa ao sair de casa para seu local de trabalho, a pé, de bicicleta, transporte público ou veículo próprio. Só assim, quem sabe, perceberão a necessidade de calçadas livres, acessíveis, arborizadas, agradáveis, que convidem à caminhada, que permitam vencer distâncias sem riscos e sacrifícios.

Se os gestores usassem as cidades, como cidadãos, perceberiam melhor o espaço urbano e tomariam decisões mais sábias, estratégicas, baratas, sustentáveis e contemplativas, no sentido de contemplar as necessidades e anseios do povo que os elegeu para cuidar de sua grande casa, a cidade.

Jandira Maria Pedrollo, arquiteta e urbanista, membro da Academia de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (AAU-MT) 

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3 Comentários

3 Comments

  1. Neli disse:

    Perfeito 🙌👏👏👏

  2. Odenil Alcântara disse:

    Jandira achei muito interessante o seu ponto de vista. Tb acredito que se os gestores utilizassem os serviços públicos, como saúde, educação e o transporte público, por exemplo, certamente estes e outros serviços teriam melhores qualidades.

  3. Auristela disse:

    Interessante abordagem!! Avalio uma cidade pela qualidade dos serviços e dos espaços públicos. E vc disse muito bem: somos todos pedestres!!
    Parabéns!!!

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Opinião

GAUDÊNCIO TORQUATO – Derrapadas autoritárias

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O ministro da Defesa, Braga Netto, fez um desmentido que não apagou a fogueira. Disse que não disse o que o Estadão publicou: se não for aprovado o voto impresso não haverá eleição em 2022. O presidente da Câmara, a quem teria sido enviado o recado, também declarou que não ouviu isso de nenhum interlocutor. Mas as versões continuam ganhando espaço e repercussão pelo fato de o próprio presidente Bolsonaro ser o arauto principal da ideia. Dia 8 de julho passado, chegou a sinalizar a não realização do pleito sem aprovação do voto impresso: “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”. O voto impresso, para ele, é garantia de limpeza.

Ora, o voto eletrônico também é auditado. E até hoje não se apresentaram provas de fraudes, como tem repetido o capitão presidente. O que estaria por trás desse manifesto interesse por um tipo de voto que, na história eleitoral do país, foi um instrumento de perpetuação de corrupção? Receio de derrota, sinalização para as bases? Ao fundo, remanesce a discussão sobre a militarização do governo. Nunca tantos militares foram convocados para integrar a linha de frente da máquina governamental. Nunca se viu tanto coronel entrar no roteiro de coisas mal contadas, como a que estamos vendo nas investigações da CPI da Covid 19.

Não há como escapar à verdade: os militares da ativa e da reserva, às pencas, participam do governo Bolsonaro e dão a impressão de que apreciam muito suas rotinas diferentes. Ocorre que a imagem das Forças Armadas está suja, a partir do envolvimento de militares em negociações improvisadas e descabidas. O general Eduardo Pazuello, ainda na ativa, foi jogado no lodo do pântano. E não adianta dizer que o militar de reserva no governo é a mesma coisa que um civil. Os valores que inspiram as Forças abrigam a lealdade, a disciplina, a hierarquia, a missão de servir à Pátria. Nos últimos tempos, a construção servir à Pátria se transformou em servir-se da Pátria.

A Constituição de 1988 reservou às Forças Armadas papel fundamental como instrumento de Defesa do Estado de Direito e das Instituições Democráticas (Título V). Tendo como lume a defesa da Pátria, a Carta Magna garante a existência e o funcionamento dos poderes constitucionais – Poder Legislativo, Poder Executivo e Poder Judiciário (art. 2º) – e, por suas ações, a defesa da lei e da ordem. Às Forças não se atribuem prerrogativas de poder constitucional, sendo instituições nacionais permanentes e regulares a serviço do Estado. Aqui, instala-se o imbróglio. Confunde-se Estado com governo. Ademais, ninguém é dono da esfera militar, sendo oblíqua a ideia de considerar uma entidade como o Exército como propriedade de alguém (“o meu exército”).

A imagem das Forças Armadas passou boa temporada na órbita da sujeira, resultante do movimento militar de 64. Com a redemocratização, nos meados de 80, os militares voltaram aos quartéis e intensa profissionalização deu um novo sentido às Armadas. Que conseguiram resgatar prestígio, respeito e credibilidade. Agora, com a ocupação massiva do território governamental e, sobretudo, com a interpenetração dos limites entre espaços do Estado e do governo, a politização assume proporções monumentais, deixando o país medroso e a mercê de correntes inclinadas a ressuscitar o autoritarismo.

Sinais de que as Forças Armadas querem o voto impresso a qualquer custo e o afastamento de Lula da disputa presidencial são vistos e ouvidos aqui e ali. As tensões, já altas, tendem a se acirrar. A todo momento, ouvem-se perorações sobre a nossa democracia e a garantia de que a CF é e será o lume de 2022, mas persistem dúvidas e receios. O TSE, por meio de seu presidente, ministro Luís Barroso, tem proclamado o absoluto cumprimento da letra constitucional. Mas, como se comportarão as Forças Armadas mais adiante?

Espera-se que atuem como garantia de defesa dos poderes constitucionais, jamais para dar suporte a iniciativas que atentem contra eles. O declive institucional na direção de um passado autoritário é um risco que o Brasil deve abolir de sua paisagem.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político [email protected]

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Opinião

DIRCEU CARDOSO – Rigor com os agressores de Borba Gato

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O vandalismo presenciado no último sábado, junto à estatua de Borba Gato, é inaceitável. Independente de gostar ou reprovar a história do bandeirante, ninguém pode ignorar que a obra de arte faz parte do mobiliário urbano e – há mais de meio século – ornamenta aquela parte da av. Santo Amaro e até serve de ponto de referência. Embora seja um bem público, porque de todos, não é dado ao cidadão ou a  grupos o direito de alterá-la e, muito menos, destruí-la.

Os responsáveis pelo incidente têm de ser todos identificados, abordados e processados (cível e criminalmente) pela depredação do bem público e ofensa ao patrimônio cultural do povo paulistano. Além de compelidos a ressarcir as despesas de reparação do monumento, têm de responder pela ofensa cultural, pouco importando o que pensam ou o quê alguém lhes disse sobre o homenageado. Os agressores não são revisores da história e nem têm qualquer credencial digna de questionar as honras que a comunidade um dia prestou aos seus vultos do passado.

Se as autoridades responsáveis pela guarda e manutenção do bem atacado e as da Segurança Pública e da Justiça não agirem energicamente, correremos o risco de se tornarem frequentes os ataques e depredação em outros símbolos relativos à história nacional, estadual ou municipal. A simples narrativa de qualquer celerado ou ignorante interessado em perturbar a ordem pública será motivo de novas ações se os desordeiros do Borba Gato não forem exemplarmente punidos. Imagine-se o que poderão fazer se ouvirem vozes discordantes da Revolução de 32, dos jesuítas e de tantos outros personagens que compõem a nossa história.

Não há a mínima razão para protestar contra Borba Gato, outros bandeirantes ou qualquer personagem homenageado com estátua, monumento ou denominação de logradouro público. Antes de censurá-los à sombra das teorias e narrativas do momento, é aconselhável buscar o contexto da época em que viveram para, só assim, poder tentar a compreensão da importância que tiveram e a justificativa do reconhecimento público hoje traduzido nas peças e espaços que os homenageiam. Em vez de confiar em narrativas nem sempre verdadeiras ou significativas, é preciso estudar, conhecer e compreender as diferenças temporais. Compreender que, se vivessem hoje, muitos personagens certamente agiriam diferente do que fizeram no passado porque não sentiriam e nem precisariam resolver os problemas que enfrentavam no seu tempo.

A vida de uma comunidade é uma sucessão de fatos que, pelo bem ou pelo mal, pela paz ou pela guerra, influenciaram no seu desenvolvimento e nos legaram o que temos hoje. O reconhecimento aos vultos históricos é fruto do pensamento comunitário sobre a sua contribuição. Nada impede, no entanto, que o senso geral se altere de acordo com as mudanças políticas, sociais e comportamentais. Caso algo soe muito impróprio num determinado momento, os incomodados podem, ordeiramente, propor as alterações que lhes pareçam mais adequadas. Anos atrás, alguns próceres políticos tentaram banir de logradouros públicos os nomes de integrantes do regime militar, mas não conseguiram. A única mudança  mais significativa foi a alteração do nome do Elevado Presidente Costa e Silva – como o denominado por Paulo Maluf em 1970 – para Elevado Presidente João Goulart. Mas para o povo, o lugar tem um nome imutável: Minhocão. Ainda mais: a grande discussão de hoje não é quanto ao nome, mas entre as opções de manter ou demolir suas pistas, que já não têm a mesma importância urbanística do passado.

O respeito aos símbolos da sociedade é um dever de todo cidadão. A história de cada vulto pode servir de parâmetro para os indivíduos de hoje e, também, de exemplo do como não se fazer. Mas, sabemos, o passado é passado e não há como mudá-lo. A única mudança possível é a do presente, que pode lançar reflexos para o futuro. No presente episódio, a única reivindicação plausível é não se praticar a impunidade, essa praga social e institucional que tanto nos tem atrasado nosso país.

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)  [email protected]                                                                                                     

 

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