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Inflação global faz BCs viverem dilema para segurar preços e economia

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Lideranças econômicas mundiais debatem sobre alta da inflação após a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia
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Lideranças econômicas mundiais debatem sobre alta da inflação após a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia

O cenário de inflação sob controle e juros baixos nos países desenvolvidos parece estar com os dias contados. Depois de muito adiarem, os bancos centrais de várias partes do mundo já começaram a elevar suas taxas básicas a fim de tentar conter a alta dos preços — e agora se veem com o desafio de conter a inflação e, ao mesmo tempo, evitar uma forte desaceleração do crescimento.

Estados Unidos, Reino Unido e Austrália elevaram as taxas de juros recentemente, assim como os emergentes Brasil, Índia, Argentina e Chile. Os que ainda não subiram os juros já sinalizaram esse caminho, como fez na segunda-feira a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde.

“A atual pressão sobre os bancos centrais para aumentar a taxa de juros vem, em primeiro lugar, das impressões de inflação muito alta, que pesam sobre o sentimento e são um risco para a credibilidade das instituições, que não conseguem entregar a estabilidade de preços prometida”, ressalta o economista chefe do banco suíço Julius Baer, David Kohl.

A tarefa de conter a inflação foi dificultada pelos choques na economia global, como os recentes lockdowns na China, por causa da Covid-19, e a guerra na Ucrânia. Além disso, o conflito colocou no radar a menor colaboração comercial entre os países, que é outro fator inflacionário.

Inflação dos hortifrutigrajeiros em 2022

As empresas começaram a rever suas políticas de segurança energética e de produção global. Isso pode levar multinacionais a realocarem sua produção, hoje concentrada em países onde o custo é mais baixo, o que elevaria os preços.

Sem falar na chamada inflação verde, ou seja, a alta de custos decorrente da transição energética.

“Quando você olha essas questões das cadeias de suprimento, que vão torná-las mais caras e menos eficazes, a inflação verde e as questões demográficas, tudo aponta para você ter um mundo mais inflacionário. Olhando para médio e longo prazos, está ocorrendo uma mudança de regime, revertendo em parte o que ocorreu nos últimos 40 anos. Você vai localizar cadeias de suprimentos, em um período de menor cooperação econômica internacional”, afirma o ex-diretor do BC e estrategista-chefe da WHG, Tony Volpon.

Com isso, os BCs se encontram em uma encruzilhada. Caso apertem demais os cintos, podem provocar uma desaceleração da economia, e já há analistas que falam em uma possível recessão. Por outro lado, se não tomarem medidas mais firmes, a inflação pode se disseminar ainda mais, deteriorando a renda das famílias.

“Não tem muito segredo, senão aumentando juros e retirando a liquidez”, destaca Volpon.

A maior preocupação para os mercados se encontra nos EUA, onde o Federal Reserve (Fed, o BC do país) precisa lidar com uma inflação no maior patamar em 40 anos — nos 12 meses até abril, 8,3% —, com um mercado de trabalho aquecido.

Depois de meses classificando o fenômeno de “transitório”, o Fed iniciou o seu processo de aperto monetário de forma em março. Houve um aumento de 0,25 ponto percentual na taxa básica, o primeiro desde 2018. Em maio, a taxa subiu 0,50 ponto percentual, maior elevação em mais de 20 anos. E o Fed não deve parar aí.

Com isso, os índices acionários americanos vêm registrando fortes perdas.

Os BCs têm culpa?

A partir de março de 2020, os BCs reduziram fortemente os juros para arrefecer os impactos da pandemia. No Brasil, por exemplo, a Selic foi à mínima histórica de 2%. Hoje, está em 12,75%. Houve ainda injeção de dinheiro na economia, tanto com compra de títulos no mercado, como fez o Fed, quanto na distribuição de auxílio aos cidadãos, caso do Brasil, o que aumentou o déficit público.

“Vimos muito mais gastos saindo dos governos e muito mais cooperação para financiar esses gastos por parte dos bancos centrais. Boa parte do gasto americano na pandemia, que chegou a ser 20% do PIB, foi financiada diretamente pelo Fed. E isso não acontecia no passado”, destaca Volpon.

Para ele, a demora dos BCs, principalmente de economias desenvolvidas, em agir contra a inflação contribuiu para o atual cenário.

“Era justificável a postura mais agressiva tanto do ponto de vista fiscal quanto monetário. Mas, já no fim de 2020, descobrimos que íamos ter vacinas. Naquele momento, deveria ter ficado claro que as economias não precisavam de tanto estímulo. Nos Estados Unidos, o atraso foi descomunal”.

Além dos estímulos, ocorreu um descasamento entre oferta e demanda. Com as medidas restritivas impostas para conter o avanço da Covid-19, as cadeias globais de suprimentos sofreram fortes gargalos, e o investimento em produção diminuiu.

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A partir da flexibilização das restrições e do avanço da vacinação em vários países, ocorreu uma forte retomada da demanda, muito superior à oferta disponível. Como resultado, os preços de commodities importantes dispararam.

“Do lado da demanda, tivemos estímulos monetários e fiscais maciços. E do lado da oferta, as cadeias de suprimentos estão sendo prejudicadas pelo Covid, mas também pela guerra e agora pelos bloqueios na China”, explica a economista-chefe para Ásia-Pacífico da consultoria Natixis, Alicia Garcia Herrero.

E, justamente por causa desses lockdowns, o governo chinês vem adotando medidas de estímulo, como facilitação do crédito e cortes de impostos.

“As políticas expansionistas da China não contribuem para a desinflação, mas o contrário. A China agora está exportando inflação por meio de preços de exportação mais altos, bem como custos de transporte mais elevados devido a bloqueios”, diz Alicia.

E o Brasil? 

Além dos fatores internos, a inflação brasileira, que alcançou 12,13% no acumulado de 12 meses até abril, também tem causas locais.

“No nosso caso, a grande variável que pressionou com intensidade foi a taxa de câmbio. Ela subiu com força desde 2020 e ajudou na recomposição de uma inflação mais forte, que começou a acontecer aqui antes. A causa primordial dessa depreciação foi a piora fiscal nos últimos dois anos. Tivemos alguns eventos no ano passado, como a quebra da regra do teto no segundo semestre, que afetou o mercado de forma muito significativa”, afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.

Ele projeta que a inflação feche o ano em torno de 9%. A desaceleração deve ser lenta, segundo ele, por fatores como a alta dos preços de alimentos, que seguem bastante pressionados.

Mas o Brasil pode se beneficiar da procura por commodities e do ainda grande diferencial de juros.

“Apesar do aumento de juros no mercado desenvolvido e de números ruins na China e Europa, estamos entrando em um período muito positivo para commodities, que vai ajudar mercados emergentes”, explica Bernal.

Recessão?

Diante desse cenário adverso, a possibilidade de uma recessão nos EUA, que terá reflexos em todo o mundo, já é discutida por grandes bancos e analistas. Uma das primeiras instituições a levantar a possibilidade foi o Deutsche Bank, que em abril alertou para uma recessão na economia americana no fim de 2023.

Na semana passada, o Wells Fargo reduziu suas projeções para os EUA e já prevê uma leve recessão em seu cenário base para o fim de 2022 e início de 2023.

Citando os impactos da guerra da Ucrânia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez uma forte redução em sua estimativa para o crescimento econômico global, de 4,4% para 3,6%. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, disse não esperar uma recessão, mas reconheceu que o assunto não está fora de questão.

Para o estrategista internacional da XP, Alberto Bernal, não há indícios de um processo de recessão ainda este ano, pois existem impulsos na atividade econômica que podem resistir ao aumento de juros.

“O cenário mais provável é que haverá recessão na última parte de 2023 ou no início de 2024. Mas se houver recessão, vai ser mais moderada”.

Para Volpon, caso o Fed realmente queira botar a inflação de volta a sua meta em uma janela temporal de no máximo dois anos, será difícil não haver recessão.

“É uma escolha. Quando você olha a combinação de onde está o mercado de trabalho e onde está a inflação, não há instância histórica em que você consiga fechar essa “boca de jacaré” sem ter uma recessão no meio. Se eles decidirem fazer algo mais gradual, talvez possa ser evitado”.

Mas, quando se fala em recessão, não seria como o que ocorreu em 2008. Naquela época, viveu-se uma recessão aliada a uma crise financeira, o que não é o atual cenário.

“Em 2008, várias economias tiveram um desequilíbrio considerável, principalmente devido aos grandes booms imobiliários. Os desequilíbrios na situação atual são bastante pequenos, aumentando a chance de que a normalização das taxas de juros resulte em um pouso suave da economia e uma recessão possa ser evitada”, afirma Kohl.

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Com privatização e utilização do FGTS, ações da Eletrobrás sobem 6%

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Ações da Eletrobrás movimentaram a maior quantia de dinheiro, desde a capitalização da Petrobrás, em 2012
Ivonete Dainese

Ações da Eletrobrás movimentaram a maior quantia de dinheiro, desde a capitalização da Petrobrás, em 2012

Apenas 15 dias após a privatização, as ações da Eletrobras (ELET3), dispararam quase 6%. A empresa, que maior companhia de energia elétrica da América Latina.

Com geração de caixa de R$ 33,7 bilhões, os preços das ações retomaram em R$ 42, fechando a R$ 44,38, no mesmo dia. Isso é uma alta de 5,67%. Na Bolsa brasileira, a operação é a principal desde a capitalização da Petrobras , em 2012, que movimentou R$ 100 bilhões.

Quando comparado com o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) , o ganho que a Eletrobrás proporcionou no período de duas semanas já supera a rentabilidade anual de 3%. Entretanto, é claro que a rentabilidade das ações também podem resultar em perdas, ou desvalorização.

A busca pelo uso do Fundo para comprar os papéis da companhia contou com a adesão de 350 mil trabalhadores. Com a alta procura, o teto definido para o uso dos recursos, de R$ 6 bilhões, foi superado em 50%, o que fez com que apenas 66,8% do valor indicado para a aplicação fosse efetivamente direcionado para a compra das ações.

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Andrade recusou entrevista para falar sobre preços da Petrobras

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Andrade recusou entrevista para falar sobre preços da Petrobras
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Andrade recusou entrevista para falar sobre preços da Petrobras

Em meio aos rumores da mudança de política de preços da Petrobras por parte do governo, o Comitê de Pessoas (Cope) da estatal tentou agendar com  Caio Paes de Andrade, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para a presidência da empresa, uma entrevista formal. O objetivo era que ele prestasse informações sobre notícias constantes na mídia em torno da “política de preços dos combustíveis” e possíveis “mudanças na governança da Petrobras”. Porém, ele optou por não comparecer.

Paes de Andrade teve o nome aprovado nesta sexta-feira pelo Comitê de Eligibilidade (Celeg), ligado ao Comitê de Pessoas, que analisa os nomes indicados para o Conselho de Administração da empresa e para a diretoria. Está marcada para segunda uma reunião do colegiado para apreciar seu nome. Apenas com o aval do Conselho ele pode assumir o comando da Petrobras.

A ata do Cope/Celeg, publicada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), neste sábado, revelou ainda que a área de Conformidade da Petrobras solicitou esclarecimentos adicionais ao indicado em três ocasiões, entre os dias 8 e 15 de junho. A área de RH da Petrobras também fez uma solicitação adicional. A Petrobras recebeu a documentação referente à indicação de Caio Mário Paes de Andrade no dia 31 de maio.

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No documento, o Cope informou que ele decidiu responder por escrito algumas “dúvidas”. Primeiro, Andrade, ao ser questionado se tinha alguma orientação da parte do acionista controlador para alterar a política de preços da Petrobras , disse:

“Não tenho qualquer orientação específica ou geral do acionista controlador ou qualquer outro acionista no sentido de alteração da política de preços praticados pela companhia”.

Em seguida, o Cope perguntou a Andrade se ele gostaria de enviar alguma mensagem que avalie ser relevante para a formação dos conselheiros e acionistas da Petrobras em vista do processo eleitoral no Conselho e na Assembleia Geral. Sua resposta foi breve: “Não tenho mensagem a enviar nesse momento.”

Comitê lamenta recusa

O Cope/Celeg disse que “entendeu que uma entrevista com o indicado teria sido proveitosa e mais eficiente para a formação de convicção de seus membros, lamentando o declínio do convite”.

Nesta semana, em entrevista a uma rádio mineira, Bolsonaro disse que Paes de Andrade deve trocar a diretoria e avaliar se mudaria a política de paridade de preços internacionais (PPI), tão criticada pelo governo e que levou a Petrobras a fazer mais um reajuste nos combustíveis na semana passada.

O documento protocolado na CVM neste sábado revela ainda que foram feitas pela área de Governança e Conformidade da Petrobras “análises aprofundadas, com base na verificação de fontes públicas de informação, de todas as ‘mídias adversas’ relacionadas ao indicado. Como resultado, disse o documento, não foi identificado nenhum fato que pudesse ser considerado um impedimento ou vedação”.

O gerente executivo de Recursos Humanos Juliano Mesquita Loureiro tratou da formação acadêmica e considerações quanto à aderência da experiência profissional do indicado à área de atuação da Petrobras. Ele destacou que o Jurídico se manifestou no sentido de que não haver impedimento legal para que o indicado possa ocupar assento no Conselho de Administração ou na diretoria executiva da Petrobras”.

Experiência em liderança

Segundo a ata, sobre os documentos comprobatórios, em especial os diplomas apresentados, o Cope/Celeg indagou Loureiro se havia alguma dúvida sobre a veracidade e autenticidade destes, ao que o executivo respondeu que não. Em relação ao critério de ter dez anos de experiência em liderança, os membros do Cope/Celeg também fizeram uma consulta ao gerente de RH.

Ele esclareceu que “o vocábulo ‘preferencialmente’ não permite uma análise peremptória de que a experiência em liderança apresentada do indicado não seria suficiente para o atendimento desse requisito adicional; ao contrário, é flexível e permite a interpretação de que, embora seja desejável que a experiência seja no negócio ou em área correlata, não é mandatório, sendo o critério atendido com a comprovação dos dez anos de experiência em liderança”.

As respostas escritas de Andrade foram classificadas como “irrisórias e irrelevantes” pelo Celeg.

Andrade tem risco médio, diz área de conformidade

A ata da reunião do Cope/Celeg revelou que a área de conformidade da Petrobras atribuiu “risco médio” a Caio Paes de Andrade, de acordo com relato feito por Francisco Petros, presidente do Celeg e membro do Conselho de Administração da empresa.

Segundo ele, esse risco médio “é compatível com os achados reportados nos documentos disponibilizados” pela área de conformidade.

“Em relação à capacidade de gestão do candidato, com o devido respeito, não encontrei nos documentos disponibilizados o respaldo que me permita formar uma convicção favorável ao candidato. De fato, os considero inconclusivos e deixam aos órgãos de governança a decisão, sem uma opinião que balize tal processo decisório”, disse Petros em seu parecer.

Voto contra: ‘sem aptidões necessárias’

Por isso, o presidente do Celeg avaliou o nome de Andrade “sem as aptidões necessárias para o exercício do cargo em vista da interpretação das normas cabíveis. Vale dizer que esta avaliação pode até estar equivocada da minha parte, caso a gestão do candidato seja um grande sucesso”.

Foi o único voto contra. Os outros três integrantes votaram a favor de Andrade. O conselheiro externo do Celeg Tales Bertozzo Bronzato deu parecer positivo.

Disse que, embora não tenha experiência na área de petróleo, tem dez anos de experiência e quatro anos de liderança, é formado em comunicação social e possui curso de extensão na universidade de Duke e MBA em Harvard.

Ana Silvia Corso Matte, que também é membro externo do Celeg, também deu aval positivo, mas sugeriu que os órgãos competentes “avaliem essa lacuna no currículo de não possuir experiência de liderança pretérita em empresa de porte ou objeto social semelhante ao da Petrobras”.

O membro do Celeg, Luiz Henrique Caroli, que também é conselheiro, disse que não há vedação, já que, segundo ele, o gerente executivo de RH disse que “os requisitos são flexíveis”.

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