GABRIEL NOVIS NEVES

Ignorar o que não convém

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Ignorar o que não convém

O pano esquecido, endurecido de sol, testemunha as ausências e pequenas distrações da vida.

Somos eternos distraídos nesta vida que passa tão rápida!

O pano esquecido no varal é o de menos para quem já viu pai esquecer filho no aeroporto de Cuiabá.

E o pai era um sociólogo, professor da Universidade Federal de Mato Grosso.

Pensador dos mais elogiados, era distraído ao cúmulo de deixar a porta da rua de sua casa aberta por ocasião de suas viagens.

Esquecia-se de pagar as contas e estava sempre mudando de endereço — e até de cidade.

Chegou a morar com a família na Bolívia, enquanto a mulher vivia em Moscou.

Essa característica o acompanhou por toda a vida.

Fui o médico parteiro de sua mulher e, no dia do batizado da filha, com o padre Adalberto, jesuíta, ao meio-dia de um sábado, na igreja de São Benedito, com as portas fechadas, descobrimos que, por distração ele havia esquecido de se casar.

Para realizar o batizado, o jesuíta propôs o casamento religioso ali mesmo.

Eu e minha mulher fomos as testemunhas.

Após o casamento, a criança foi batizada sendo nós dois como padrinhos.

Vejam o que pequenas distrações podem causar em nossas vidas!

O significado do pano esquecido no varal, desaparece diante de esquecimentos mais robustos, que fazem parte da condição humana.

Quantos esquecimentos nos desviaram de rotas, para o bem ou para o mal.

Encontros não programados, outros com horários trocados, acabaram dando certo.

O paninho esquecido no varal, endurecido pelo sol, talvez nos faça lembrar das mangas maduras colhidas no pé e esquecidas no sol, se estragando.

Na vida, sempre penso pelos dois lados diante de situações como esta.

Em certas ocasiões é até bom ser distraído: ignoramos muitas coisas que não nos convém.

E o pano esquecido no varal, endurecido pelo sol, serve apenas para testemunhar a nossa distração.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado