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Opinião

GAUDÊNCIO TORQUATO – O reino da mentira

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Há 44 anos, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., falecido no dia 27 de junho de 2009, dando vazão ao sentimento da sociedade brasileira, foi convidado para ler a Carta aos Brasileiros69. O País abria as portas da redemocratização.  Hoje, o Bra­sil vive sob o Estado de Direito, mas vegeta sob o Estado da ética e da moral, com um mandatário-mor que nega a ciência, é responsável pela pior gestão da pandemia de coronavírus 19 do planeta, e faz um vergonhoso discurso na abertura da ONU, privilégio que, historicamente, cabe ao Brasil desde 1947.

Em quatro décadas, o País eliminou o chumbo que cobria os muros de suas instituições sociais e políticas, resgatou o ideário liber­tário que inspira as democracias, instalou as bases de um moderno sistema produtivo e, apesar de esforços de idealistas que lutam para pôr um pouco de ordem na casa, não alcançou o estágio de Nação próspera, justa e solidária. O país faz vergonha ao mundo. O baú do retrocesso continua lotado. Te­mos uma estrutura política caótica, incapaz de promover as reformas fundamentais para acender a chama ética, e um governo que prometeu acabar com a corrupção, amarrado às mais intricadas cordas da velha política, usando a extraordinária força de verbas e cargos para cooptar legisladores e partidos, principalmente do Centrão, transformando-se, ele próprio em muralha que barra os caminhos da mudança.

Não por acaso, anos depois o professor Goffredo confessava ter vontade de ler uma segunda carta, desta feita para conclamar pela reforma política e por uma democracia participativa, em que os cida­dãos votem em ideários, não em fulanos, beltranos e sicranos. O velho mestre das Arcadas, que formou uma geração de advogados, tentava resistir à Lei de Gresham, pela qual o dinheiro falso expulsa a moeda boa – princípio que, na política, aponta a vitória da mediocridade so­bre a virtude.

No Brasil, especialmente, os freios do atraso impedem os avanços. Vivemos com a sensação de que há imensa distância entre as locomotivas econômica e política, a primeira abrindo fronteiras, a segunda fechando porteiras. Olhe-se para os Poderes Executivo e Legislativo. Parecem carcaças do passado, fincadas sobre as estacas do patrimonialismo, da competitividade e do fisiologismo. Em seus cor­redores, o poder da barganha suplanta o poder das ideias.

Em setembro de 1993, na segunda Carta aos Brasileiros, o mestre Goffredo escolheria como núcleo a reforma política, eixo da democracia participativa com que sonha. Mas falta disposição aos congressistas para fazê-la. Em 2002, Lula da Silva também leu sua Carta aos Brasileiros, onde pregava uma nova prática política e a instalação de uma base moral. Nada disso foi cumprido. O país continuou a ser um deserto de ideias.

Sem uma base eleitoral forte, os entes partidários caíram na indigência, po­luindo o ambiente de miasmas. Até hoje, os eleitores esperam que as grandes questões nacionais recebam diagnósticos apropriados e propostas de solução para nosso pedaço de chão. Infelizmente, o voto continua a ser dado a oportunistas, operadores de promessas, poucos com ideários claros e correspondentes aos anseios sociais.

A utopia nacional resvala pelo terreno da desilusão. Nesses tempos da CPI da Covid, o Reino da Mentira, descrito pelo senador Rui Barbosa, nos idos de 1919, volta à ordem do dia: “Mentira por tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu. Nos inquéritos. Nas pro­messas. Nos projetos. Nas reformas. Nos progressos. Nas convicções. Nas transmutações. Nas soluções. Nos homens, nos atos, nas coisas. No rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Nas res­ponsabilidades. Nos desmentidos”.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político [email protected]

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Opinião

ANA RICARTE – A advocacia mato-grossense tem uma oportunidade histórica com Gisela Cardoso na OAB-MT

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Quando noticiaram que a doutora Gisela Cardoso aceitou se colocar à disposição da advocacia mato-grossense para liderar a Ordem do Advogados de Mato Grosso – Seccional Mato Grosso (OAB-MT) como presidente, algo me chamou a atenção de forma muito positiva e logo pensei: “será que chegou a hora da OAB-MT ter uma presidente com a fortaleza desta mulher?”.

Pois é, colegas, a resposta é sim. Tudo tem sua hora e Agora é Ela. Acredito que chegou a hora de termos uma colega advogada na liderança da Ordem dos Advogados do Brasil –Seccional Mato Grosso depois de 28 anos.

Conheço a doutora Gisela desde quando ela começou a advogar e posso informar e afirmar que a história de vida de Gisela Cardoso é digna de ser contada, pois ela chegou em Cuiabá quase menina para estudar e  trabalhar para pagar os próprios  estudos.

Pude observar a doutora Gisela se tornar uma líder, uma profissional competente, séria, ética, pois como advogada se dedicou a advocacia trabalhista, ao magistério e depois começou a servir à classe na OAB-MT.

Ao contrário de alguns comentários misóginos que ouço, e que muito me entristecem, a colega Gisela não foi forjada por alguém: ela é líder, ela é Gisela Cardoso! Ao invés de desqualificar a intenção legítima desta colega advogada, seria melhor que opositores focassem nas propostas e metas.

Eu falo isso porque não é fácil a jornada para uma eleição da Ordem, principalmente para uma mulher, e quanto a isso não existem dúvidas, pois quem já se candidatou entende o que falo.

Acontece que a pré-candidatura da doutora Gisela Cardoso contraria a cultura eleitoral na OAB-MT, pois é mulher, não vem de família tradicional no Direito, não tem escritório com uma banca grande, não tem ligação política partidária, não é bajuladora e muito menos demagógica. Portanto, uma candidata atípica. Tenho certeza que muitos e muitas colegas se espelham nela.

A colega Gisela é uma de nós, ela nos representa, ela me representa porque sua história se confunde com a minha e de tantos advogados e advogadas que conhecemos.

É importante dizer que estar a serviço da sociedade e a serviço da advocacia não é uma tarefa fácil para nós mulheres, uma vez que as renúncias são maiores e as cobranças também.

Quem discursa ou comenta que a doutora Gisela será presidente de fachada com certeza não a conhece e comete uma indelicadeza sem precedentes, porque antes de ser candidata ela é nossa colega. Não se esqueçam disso, ela tem personalidade própria, propósito e é única. Assim, não cabem comparações.

Temos uma oportunidade histórica nestas eleições: a OAB-MT pode ser liderada por uma profissional competente e mulher. Não devemos abrir mão desta oportunidade, principalmente por conta de discursos infundados.

A pré-candidata Gisela Cardoso apresenta as habilidades necessárias ao cargo, além do conhecimento específico do sistema OAB e conhece quais as dificuldades a serem enfrentadas no pós-pandemia.

Além da pré-candidatura de Gisela Cardoso, o movimento que ela lidera está florescendo e fortalecendo em todo Estado, com inúmeras pré-candidaturas de colegas advogadas em subseções relevantes em nosso Estado e um enorme apoio de advogadas e advogados.

Por isso, colegas, a doutora Gisela Cardoso tem o meu apoio e respeito. A oportunidade é agora.  Agora é Gisela! Vamos crescer este lindo Movimento “Advocacia Unida, Avanço Presente”.

Ana Lúcia Ricarte é advogada há 27 anos e diretora da Associação Brasileira de Advogados em Mato Grosso (ABA-MT)

 

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Opinião

GIOVANA FORTUNATO – A primeira consulta ao ginecologista

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Ir ao ginecologista regularmente é um dos cuidados essenciais para a saúde de mulheres de praticamente todas as idades, pois ajuda a detectar doenças e evitar problemas futuros. Mas você sabe com que idade uma menina deve ir na primeira consulta ao ginecologista?
O ideal é que a partir dos 9 aos 12 anos a menina já tenha uma consulta com o ginecologista ou com a ginecologista da mãe. Por quê? Porque logo ela vai menstruar. Então essa consulta serve como uma orientação sobre esse período que está para chegar com sua primeira menstruação.
A partir deste momento a menina se torna fértil, ou seja, torna-se capaz de engravidar e ter um bebê. Por isso deve aprender sobre o funcionamento de seu corpo, como é a ovulação, como são as cólicas menstruais, como se prevenir de uma gravidez indesejada e como se cuidar para não contrair doenças sexualmente transmissíveis, entre elas o HPV, HIV entre outras.
A ideia de que uma menina vá começar, em algum momento de sua história, a ter vida sexual ativa é algo que assusta muitos pais. Por isso, adiam a primeira visita ao ginecologista. Porém, mesmo sem uma vida sexual ativa, a menina deve ter um acompanhamento especializado com um médico ginecologista. É normal a adolescente sentir vergonha e pedir para ir ao especialista apenas quando está prestes a ter relações sexuais, mas o ideal é que a visita aconteça após a primeira menstruação.
Vale ressaltar que é muito importante que seja um médico de confiança. Sua filha precisa se sentir segura e confortável com o ginecologista.
A primeira consulta muitas vezes é apenas uma conversa para saber um pouco mais sobre a paciente: hábitos da rotina, problemas de saúde da infância, ciclo menstrual, se há histórico de doenças como câncer de mama na família, entre outras.
O exame preventivo ginecológico no primeiro encontro com o ginecologista é bem simples e vai depender do histórico de cada menina.
Quando a menina iniciou a sua vida sexual é importante que ela vá pelo menos uma vez ao ano ao seu ginecologista para fazer um exame preventivo, para ver como está sua saúde em geral.
O principal deles é o Papanicolau, que é um rastreamento de câncer de colo, além do exame das mamas. Também é importante avaliar fazer um ultrassom transvaginal, ou ultrassom pélvico para ver como é que está o útero, o ovário. Ou seja, para fazer um check-up ginecológico.

Endometriose

Quando surge na adolescência, a endometriose é de difícil diagnóstico, pois muitos dos sintomas como as cólicas frequentes, podem ser confundidos com problemas intestinais ou serem considerados normais da fase de vida da adolescente.
Muitas meninas que tem endometriose ainda não entraram na idade reprodutiva e não iniciaram sua vida sexual, portanto, não apresentam sintomas da doença que se manifestam nessa fase como dor durante as relações sexuais e dificuldade para engravidar, o que pode dificultar ainda mais o diagnóstico. Estudos comprovam que é importante realizar uma investigação adequada, já que entre o início dos sintomas e a confirmação da doença em adolescentes pode decorrer até 12 anos, tempo suficiente para comprometer a fertilidade da paciente.
Se a sua filha está na puberdade ou menstruou recentemente, marque uma consulta com o ginecologista, especialista indicado para orientar as adolescentes nessa fase de mudanças no copo e muitas dúvidas sobre a saúde da mulher.

Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em endometriose e infertilidade, professora da UFMT, coordenadora de Residência no HUJM.

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