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Opinião

GAUDÊNCIO TORQUATO – Derrapadas autoritárias

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O ministro da Defesa, Braga Netto, fez um desmentido que não apagou a fogueira. Disse que não disse o que o Estadão publicou: se não for aprovado o voto impresso não haverá eleição em 2022. O presidente da Câmara, a quem teria sido enviado o recado, também declarou que não ouviu isso de nenhum interlocutor. Mas as versões continuam ganhando espaço e repercussão pelo fato de o próprio presidente Bolsonaro ser o arauto principal da ideia. Dia 8 de julho passado, chegou a sinalizar a não realização do pleito sem aprovação do voto impresso: “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”. O voto impresso, para ele, é garantia de limpeza.

Ora, o voto eletrônico também é auditado. E até hoje não se apresentaram provas de fraudes, como tem repetido o capitão presidente. O que estaria por trás desse manifesto interesse por um tipo de voto que, na história eleitoral do país, foi um instrumento de perpetuação de corrupção? Receio de derrota, sinalização para as bases? Ao fundo, remanesce a discussão sobre a militarização do governo. Nunca tantos militares foram convocados para integrar a linha de frente da máquina governamental. Nunca se viu tanto coronel entrar no roteiro de coisas mal contadas, como a que estamos vendo nas investigações da CPI da Covid 19.

Não há como escapar à verdade: os militares da ativa e da reserva, às pencas, participam do governo Bolsonaro e dão a impressão de que apreciam muito suas rotinas diferentes. Ocorre que a imagem das Forças Armadas está suja, a partir do envolvimento de militares em negociações improvisadas e descabidas. O general Eduardo Pazuello, ainda na ativa, foi jogado no lodo do pântano. E não adianta dizer que o militar de reserva no governo é a mesma coisa que um civil. Os valores que inspiram as Forças abrigam a lealdade, a disciplina, a hierarquia, a missão de servir à Pátria. Nos últimos tempos, a construção servir à Pátria se transformou em servir-se da Pátria.

A Constituição de 1988 reservou às Forças Armadas papel fundamental como instrumento de Defesa do Estado de Direito e das Instituições Democráticas (Título V). Tendo como lume a defesa da Pátria, a Carta Magna garante a existência e o funcionamento dos poderes constitucionais – Poder Legislativo, Poder Executivo e Poder Judiciário (art. 2º) – e, por suas ações, a defesa da lei e da ordem. Às Forças não se atribuem prerrogativas de poder constitucional, sendo instituições nacionais permanentes e regulares a serviço do Estado. Aqui, instala-se o imbróglio. Confunde-se Estado com governo. Ademais, ninguém é dono da esfera militar, sendo oblíqua a ideia de considerar uma entidade como o Exército como propriedade de alguém (“o meu exército”).

A imagem das Forças Armadas passou boa temporada na órbita da sujeira, resultante do movimento militar de 64. Com a redemocratização, nos meados de 80, os militares voltaram aos quartéis e intensa profissionalização deu um novo sentido às Armadas. Que conseguiram resgatar prestígio, respeito e credibilidade. Agora, com a ocupação massiva do território governamental e, sobretudo, com a interpenetração dos limites entre espaços do Estado e do governo, a politização assume proporções monumentais, deixando o país medroso e a mercê de correntes inclinadas a ressuscitar o autoritarismo.

Sinais de que as Forças Armadas querem o voto impresso a qualquer custo e o afastamento de Lula da disputa presidencial são vistos e ouvidos aqui e ali. As tensões, já altas, tendem a se acirrar. A todo momento, ouvem-se perorações sobre a nossa democracia e a garantia de que a CF é e será o lume de 2022, mas persistem dúvidas e receios. O TSE, por meio de seu presidente, ministro Luís Barroso, tem proclamado o absoluto cumprimento da letra constitucional. Mas, como se comportarão as Forças Armadas mais adiante?

Espera-se que atuem como garantia de defesa dos poderes constitucionais, jamais para dar suporte a iniciativas que atentem contra eles. O declive institucional na direção de um passado autoritário é um risco que o Brasil deve abolir de sua paisagem.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político [email protected]

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Opinião

PERCIVAL PUGGINA – Os verdadeiros terraplanistas

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A linha de frente do atraso é formada por aqueles que cultuam, entre nós, as ideias mais erradas que a humanidade produziu. Ouvi-los e lê-los permite prever o que acontecerá quando aberta a porta para desembarque no mundo com que sonham: as mentes intoxicadas, a dependência psicológica dos erros, o totalitarismo e o precipício.
Há ideias políticas que são, mesmo, como as drogas. Afetam o usuário, comprometem seu ambiente e estragam vidas. Algumas têm efeito cumulativo e causam danos generalizados. Vivemos tempos em que pais e mães, educadores, religiosos, formadores de opinião deveriam estar atentos em relação a conteúdos tão em voga no mundo aparentemente inocente das ideias.

Exemplifico. Certa feita, enquanto frequentava aulas de Teologia numa universidade católica, um douto amigo surpreendeu-se com a permanente utilização pelo professor, não por acaso um religioso, de farto material didático de extração marxista e de análise marxista em suas dissertações à turma. Tão monocórdio conteúdo levou o aluno a interpelá-lo: “Professor, por que o senhor apela tanto para a doutrina marxista em suas aulas?”.  Conta ele que o sujeito olhou-o detidamente, como que surpreso com a indagação, pensou um pouco e o desafiou: “Quem eu usaria, em lugar de Marx?”. Diante da turma em expectante silêncio, meu amigo retrucou: “Professor! O senhor percebe que usou as palavras de Pedro para Jesus? – ‘Mestre, a quem iremos?’ –. O senhor acabou de revelar a quem vai sua fidelidade, professor!”.
O marxismo é uma dessas drogas servidas por terraplanistas ideológicos em repetidas doses como suplemento alimentar das mentes. É ele, e só ele, que justifica o culto aos disparates pedagógicos de Paulo Freire.
Outra droga sustenta não existir uma “lei natural” decorrente da natureza humana. O combate debochado aos bons princípios e valores vem dessa negação. O terraplanismo filosófico leva ao relativismo moral e à desordem em que vivemos.

Segundo o relativismo moral, nada se deduz daquilo que somos em relação ao que devemos ser. Será que os bons pais e mães que me leem concordarão com isso ao meditarem sobre suas funções paternais? Esse mal ataca e prospera, levando à letargia das consciências. Droga desastrosa e de fácil acesso.
Terrível terraplanismo filosófico!

Se não existirem normas que se possam extrair da natureza do ser humano, tudo será segundo a vontade dos príncipes, sem que haja qualquer sentido em interrogá-los sobre seus fundamentos morais.
É por isso que o STF e o Congresso têm feito muito do que fazem.
Ao transferirmos para o Estado a edição e administração de uma errática lei moral, renunciamos ao tesouro da Lei Natural. Vale dizer: abdicamos a muito de nossa essência humana e transformamos o Estado em poderoso “educador moral”, coisa que ele, como não cansa de nos demonstrar, tem nenhuma condição de ser. É o que está acontecendo no Brasil e foi contra isso, à beira do precipício, que nos insurgimos em 2018.

Percival Puggina é membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

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Opinião

LUCIANO VACARI – Quem vai liderar a comunicação global da carne?

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Diversos fóruns nacionais e internacionais relacionados à cadeia da carne brasileira têm discutido a comunicação do setor. Esses eventos, com a participação de pessoas de governo, iniciativa privada e também de universidades têm, de maneira geral, demonstrado que quando realizada de maneira sustentável, a produção de proteína animal é parte da solução para o desenvolvimento regional e cumprimento de vários dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Em algumas regiões do mundo é fato que haverá uma redução do consumo da carne per capta, especialmente em áreas já mais desenvolvidas economicamente, onde cresce o número de vegetarianos e principalmente, flexitarianos.

Flexitarianos são aquelas pessoas que aderem aos movimentos como “segunda sem carne” ou mesmo buscam reduzir a quantidade consumida. Também deve crescer o número de pessoas que reduz o consumo total de carne vermelha, mas aumenta o consumo de cortes com maior valor agregado e qualidade.

Em outras regiões do mundo, especialmente a Ásia e a África a tendência é de aumento do consumo per capita e total, já que sua população cresce consideravelmente. Além do aumento per capta, também há classes sociais que devem aumentar o consumo de maior valor agregado.

A China hoje tem uma população de 1,3 bilhão de pessoas, quase 20% do total mundial. O consumo médio per capita é de apenas 5 kg. Supondo que, na média, suba para 5,1 kg, haverá uma demanda mundial de 130 mil toneladas de carne. Se apenas o Brasil atendesse isso, haveria um acréscimo de 6,5% da exportação – supondo que a demanda doméstica do Brasil fique estável.

Entre aumento do consumo e crescimento de grupos que não comem carne, cabe uma reflexão: por quê o setor tem sofrido tantos ataques? Existem inúmeros fatores, mas precisamos falar das soluções. O setor precisa se unir. Toda a cadeia produtiva, produtores, indústrias e associações.

O Secretariado Internacional da Carne (IMS) tem realizado inúmeras reuniões do seu workshop de marketing. Quando visto o relato dos encontros, fica evidente: não é apenas no Brasil onde a cadeia da carne sofre com as informações com poucas bases científicas. Em todos os países, a produção de carne tem se defendido. A conclusão do fórum global é que o setor é reativo, e não pró-ativo.

Já se perguntaram os motivos que alguém se torna vegetariano? Existem diversos artigos científicos que falam sobre isso. A maior parte deles aponta alguns motivos: religião, relação com a mudança climática, perda de biodiversidade.

Cada um desses temas poderia ser foco das instituições envolvidas com a cadeia. Chamar cientistas e elaborar materiais não para os convertidos. Afinal, hoje a maior parte da cadeia prega para convertidos. Falamos entre nós e para nós mesmos. Quando vamos falar para o público da cidade?

A comunicação precisa ser com o consumidor. Mostrar o que fazemos, como fazemos e para quem fazemos.

Luciano Vacari é gestor de agronegócios.

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