Numa gaveta antiga, uma fotografia desbotada guarda mais do que rostos — guarda um tempo.
Ela repousa silenciosa, revelando emoções que sobreviveram ao esquecimento.
Muitas vezes a encontramos no fundo das gavetas, sob roupas que já não usamos.
Porque ficou ali, escondida, amarelando com o passar dos anos?.
Tenho uma dessas fotografias dos meus primeiros anos de vida, quando meus pais ainda eram jovens e nós, os filhos éramos apenas três.
Foi tirada na Praça do Lido, por algum lambe-lambe, em 1939.
Meu pai não aparece — tinha alergia a maresia.
Como era bonita a minha mãe aos vinte e cinco anos!.
Essa fotografia estava esquecida numa gaveta da casa dos meus pais.
Ao reencontrá-la, trouxe-a comigo, fotografei-a e guardei numa pasta do computador e também no celular.
Hoje, ela dorme num álbum da minha biblioteca.
Sempre que a revejo, sou tomado por uma emoção antiga, intacta.
Sinto o mesmo encantamento de quando, vestido de marinheiro, brinquei no balanço do parquinho com minha irmã Yara e meu irmão Pedro, posando para aquele retrato na Praça do Lido, no Rio de Janeiro.
As lembranças, ao contrário das fotografias, não amarelam.
Revelam emoções que resistem ao tempo.
Como gostaria que o tempo também pudesse andar para trás!.
Que eu pudesse abraçar, ao menos por um instante, as quatro pessoas daquela velha fotografia.
Somos tão limitados diante dos desejos de reviver o passado!.
As emoções são imortais — não se apagam, mesmo com o envelhecimento.
O tempo passa como um vendaval, levando quase tudo, menos o esquecimento.
As emoções permanecem, intactas, a nos causar uma doce dor: a de não lhes ter dado mais atenção quando ainda era tempo.
Gabriel Novis Neves é médico. ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado
