CARLOS ABURAD

Fevereiro Laranja: Diagnóstico rápido de leucemia precisa ser prioridade no SUS

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Fevereiro Laranja: Diagnóstico rápido de leucemia precisa ser prioridade no SUS

No Fevereiro Laranja, mês dedicado à conscientização sobre a leucemia, o Brasil precisa encarar um problema que custa vidas: o atraso no diagnóstico. É inaceitável que um paciente do SUS aguarde mais de 10 dias pelo resultado de uma biópsia de medula óssea diante da suspeita de leucemia.

Muitos pacientes com leucemia chegam ao tratamento especializado tarde demais. Esse atraso, recorrente no sistema público de saúde, transforma um câncer tratável em uma corrida contra o tempo perdida antes mesmo de começar.

A leucemia é um câncer que começa na medula óssea, responsável pela produção das células do sangue. Alterações nas células-tronco hematopoéticas fazem com que leucócitos anormais se multipliquem de forma descontrolada, comprometendo a produção de glóbulos vermelhos, plaquetas e células de defesa funcionais. O organismo entra em um colapso silencioso, muitas vezes sem sinais claros no início.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registrou cerca de 11 mil novos casos de leucemia por ano, considerando o triênio 2023–2025, com discreta predominância entre os homens. Crianças, adultos jovens e idosos podem ser afetados, dependendo do tipo da doença. Apesar desses números expressivos, a leucemia ainda é frequentemente diagnosticada de forma tardia, especialmente no SUS.

O maior desafio está no fato de que os sintomas iniciais da leucemia são comuns e inespecíficos. Febre persistente, cansaço intenso, palidez, dores no corpo, manchas arroxeadas na pele, sangramentos espontâneos, infecções recorrentes e queda de plaquetas são manifestações que fazem parte da rotina das unidades básicas de saúde. Em um país como o Brasil, onde surtos de dengue são frequentes, essa semelhança clínica se torna ainda mais perigosa.

Dengue hemorrágica e leucemia podem ter sinais semelhantes, por exemplo, como febre, plaquetopenia e sangramentos. A diferença é que a dengue, em geral, apresenta evolução autolimitada. A leucemia não. Quando os sintomas persistem, se agravam ou não respondem como esperado, o sinal de alerta já deveria estar aceso. O problema é que, muitas vezes, isso não acontece a tempo.

Do ponto de vista da saúde pública, o SUS ocupa posição central nesse cenário. A grande maioria dos pacientes com leucemia no Brasil depende exclusivamente do sistema público para diagnóstico e tratamento.

O SUS dispõe de ferramentas fundamentais, como o hemograma, um exame simples, de baixo custo e amplamente disponível. Ainda assim, sua importância estratégica no rastreamento do câncer hematológico nem sempre é devidamente valorizada.

Há diariamente casos em que alterações persistentes no hemograma foram subestimadas por semanas ou meses. Anemia progressiva, plaquetopenia contínua, leucócitos muito elevados ou muito baixos e presença de células imaturas no sangue periférico não podem ser automaticamente atribuídos a viroses ou condições benignas sem investigação adequada. Quando esses sinais são ignorados, o diagnóstico chega tarde.

A confirmação da leucemia exige exames mais complexos, como análise da medula óssea, imunofenotipagem por citometria de fluxo, estudos citogenéticos e testes moleculares. Esses exames estão disponíveis no SUS, mas o tempo entre a suspeita clínica e o acesso a essa investigação especializada ainda representa um gargalo em muitas regiões do país. Na leucemia, esse intervalo pode ser decisivo para a sobrevida.

As leucemias agudas, em especial, evoluem rapidamente e exigem início imediato do tratamento. O atraso diagnóstico pode resultar em infecções graves, sangramentos extensos e rápida deterioração clínica. Já as leucemias crônicas, muitas vezes silenciosas, poderiam ser identificadas precocemente em exames de rotina, evitando complicações futuras. Isso reforça a importância do acompanhamento médico regular, mesmo em pacientes assintomáticos.

É preciso dizer com clareza: não existe prevenção absoluta da leucemia. No entanto, existe algo plenamente possível e urgente — a prevenção do diagnóstico tardio. Isso passa por capacitação contínua dos profissionais da atenção básica, protocolos bem definidos, repetição de exames quando o quadro não evolui como esperado e encaminhamento rápido para investigação especializada.

O Fevereiro Laranja também deve reforçar a importância da doação de medula óssea como política pública permanente. Para muitos pacientes atendidos pelo SUS, o transplante representa a única chance de cura. Ampliar os registros de doadores é uma responsabilidade coletiva que precisa ser constantemente estimulada.

Diagnosticar é um ato que vai além da técnica. Diagnosticar é assumir responsabilidade sobre o tempo do paciente. Na leucemia, cada atraso cobra um preço alto. O SUS tem estrutura, profissionais qualificados e potencial para mudar essa realidade, mas isso exige prioridade, investimento e, sobretudo, atenção aos sinais que o corpo apresenta. Ignorar esses sinais custa vidas. Reconhecê-los a tempo é uma obrigação da saúde pública.

Carlos Aburad é médico patologista