Conteúdo/ODOC - Relatório da Polícia Civil que embasou a Operação Gorjeta, deflagrada nesta terça-feira (27), aponta que parte dos recursos desviados de emendas parlamentares teria sido utilizada para custear obras em uma pousada de luxo vinculada ao vereador Chico 2000 (sem partido), em Cuiabá.
O empreendimento, denominado Estância Águas da Chapada, está registrado em nome das filhas do parlamentar, mas, segundo a investigação, é administrado por ele por meio de procuração.
De acordo com os investigadores, R$ 20 mil provenientes do esquema foram usados para pagar um pedreiro contratado para executar reformas no imóvel, localizado às margens da MT-251, rodovia Emanuel Pinheiro. O valor teria sido repassado por meio de uma empresa ligada a um dos alvos da operação e, conforme a polícia, representa parte do chamado “retorno” ou “gorjeta” de recursos públicos desviados.
A transferência foi realizada via Pix no dia 9 de abril de 2025 para J.S.A., profissional responsável pelas obras. O dinheiro saiu da empresa Sem Limite Esporte e Eventos Ltda., controlada pelo empresário João Nery Chiroli, também investigado.
A apuração aponta que os recursos tiveram origem em uma emenda parlamentar impositiva de R$ 600 mil destinada por Chico 2000 ao Instituto Brasil Central. Do montante, R$ 580 mil foram repassados ao instituto para a empresa de Chiroli, em dois depósitos.
Segundo o relatório, no dia seguinte ao recebimento dos valores, a empresa efetuou o pagamento ao pedreiro. O comprovante da transação foi encaminhado pelo chefe de gabinete do vereador, Rubens Vuolo Júnior, ao próprio parlamentar por meio de mensagens, com a indicação de que o dinheiro já havia sido creditado. Horas depois, o pedreiro confirmou o recebimento diretamente a Chico 2000.
Para a Polícia Civil, a sequência de mensagens, transferências e confirmações reforça os indícios de que parte dos valores desviados retornou para beneficiar o vereador e o empresário, caracterizando, em tese, crimes de peculato e lavagem de dinheiro.
O relatório detalha ainda a cronologia das conversas. Em 29 de março de 2025, o pedreiro enviou ao parlamentar uma imagem do portão de entrada do imóvel. Dias depois, em 7 de abril, Chico 2000 solicitou um orçamento para início das obras de esquadrias em um restaurante da pousada, quando foi informado de que seriam necessários cerca de R$ 20 mil como entrada. Em 8 e 9 de abril, mensagens e áudios trocados entre o vereador, o empresário e o chefe de gabinete indicam tratativas para a liberação do valor, culminando no pagamento ao prestador de serviço.
A Operação Gorjeta apura um suposto esquema milionário de desvio de emendas parlamentares que teria como vítimas a Câmara Municipal de Cuiabá e a Secretaria Municipal de Esportes. Ao todo, foram cumpridas 75 ordens judiciais.
Além de Chico 2000 e João Nery Chiroli, também são alvos da investigação o chefe de gabinete Rubens Vuolo Júnior, o assessor parlamentar Joaci Conceição Silva, Alex Jony Silva e Magali Gauna Felismino Chiroli. A Justiça determinou o bloqueio inicial de R$ 676.042 em contas bancárias de nove pessoas físicas e jurídicas, além do sequestro de sete veículos, uma motocicleta, uma embarcação, um reboque e quatro imóveis.
As ordens foram expedidas pelo Juízo do Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias de Cuiabá e incluem mandados de busca e apreensão e autorizações para acesso a dados armazenados em dispositivos móveis.