TRIBUNAL DO JURI

Em depoimento, delegado define assassino de Raquel Cattani como 'astuto, calculista e frio'

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Em depoimento, delegado define assassino de Raquel Cattani como 'astuto, calculista e frio'
Romero Mengarde e Rodrigo Mengarde: réus pelo feminicídio de Raquel Cattani[Foto - TJMT]

O Tribunal do Júri que julgará Romero Xavier Mengarde e Rodrigo Xavier Mengarde, acusados pela morte da produtora rural Raquel Cattani, acontece nesta quinta-feira (22), a partir das 8h, no plenário do Fórum da Comarca de Nova Mutum.

O julgamento será presidido pela juíza Ana Helena Alves Porcel Ronkoski, titular da 3ª Vara da Comarca, e seguirá o rito previsto no Código de Processo Penal, com a atuação do Ministério Público, das defesas, depoimentos das testemunhas e, por fim, sairá a decisão do Conselho de Sentença, formado por sete jurados.

De acordo com a denúncia do Ministério Público, Raquel Cattani foi assassinada a facadas na própria residência, na zona rural de Nova Mutum, no dia 18 de julho de 2024. Rodrigo é acusado de executar o crime, enquanto Romero, ex-marido da vítima, responde como autor intelectual.

Acompanhe as atualizações do julgamento:

08h21 – Teve início a sessão do Tribunal do Júri, com a leitura do termo de apregoamento.

São levados a julgamento os réus Romero Xavier Mengarde e Rodrigo Xavier Mengarde, denunciados pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso, representado pelos promotores de Justiça João Marcos de Paula Alves e Andreia Monte Alegre Bezerra de Menezes.

Os acusados respondem pela morte de Raquel Maziero Cattani. A defesa é realizada pela Defensoria Pública do Estado, com atuação do defensor Guilherme Ribeiro Rigon em favor de Rodrigo Xavier Mengarde e do defensor Mauro Cezar Duarte Filho em favor de Romero Xavier Mengarde.

A sessão é presidida pela juíza Ana Helena Alves Porcel Ronkoski.

08h26 – Foi realizado o sorteio dos jurados que irão compor o Conselho de Sentença. O colegiado é formado por sete jurados, sendo dois homens e cinco mulheres.

08h37 – A juíza Ana Helena Alves Porcel Ronkoski orientou os jurados sobre o funcionamento do Tribunal do Júri.

Durante as instruções, a magistrada explicou as regras do julgamento, destacou a incomunicabilidade dos jurados, que não podem se comunicar entre si nem com pessoas externas ao plenário, e pediu que evitem qualquer manifestação de concordância ou discordância durante os debates.

A juíza também orientou que os jurados mantenham atenção integral às falas das partes e preservem o sigilo da votação, que é individual e secreta. Em caso de necessidade, eventuais comunicações externas devem ser intermediadas pela equipe do Fórum.

A magistrada ressaltou ainda que se trata de um julgamento sensível, envolvendo vida e liberdade, e solicitou serenidade e imparcialidade para garantir a regularidade dos trabalhos.

08h49 – Teve início a oitiva da primeira testemunha, o delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri, responsável pela condução das investigações sobre a morte de Raquel Cattani.

O delegado informou que, assim que a Polícia Civil tomou conhecimento da suspeita de feminicídio, as equipes foram imediatamente mobilizadas. Ele relatou que se deslocou da cidade de Tapurah (MT), enquanto outras equipes seguiram para o local do crime, no Assentamento Pontal do Marape, adotando estratégia de atuação simultânea.

Segundo o depoimento, o réu Romero Xavier Mengarde se apresentou espontaneamente às autoridades após ser informado dos fatos. O delegado afirmou que orientou a equipe a realizar o interrogatório inicial do réu para esclarecer sua rotina e deslocamentos no período do crime.

Durante a investigação, foi apurado que Romero teria passado por três casas de prostituição e permanecido na companhia de funcionários desses locais. Ainda conforme o delegado, imagens de câmeras registraram o veículo do réu saindo de Tapurah em direção ao Pontal do Marape, onde o crime ocorreu.

Ao chegar ao local dos fatos, o delegado relatou que havia diversas autoridades presentes, mas que a cena estava devidamente preservada. Ele destacou que, inicialmente, a investigação apontava o ex-marido da vítima como principal suspeito, o que motivou a divisão estratégica das equipes entre Tapurah e o local do crime.

08h53 – O delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri detalhou pontos que chamaram a atenção da equipe policial durante a análise da cena do crime.

Segundo o depoimento, foram identificados sinais de arrombamento, especialmente em uma janela nos fundos da residência, localizada na área dos quartos das crianças, que estava amassada, indicando o ponto de entrada do autor.

Outro elemento relevante foi uma televisão encontrada do lado de fora da casa, com marca evidente de bota, o que reforçou a hipótese de invasão. No interior da residência, Raquel Cattani foi encontrada caída no chão, entre o banheiro e o quarto do casal.

O delegado relatou que a vítima apresentava diversas lesões de defesa, principalmente nos braços e antebraços, com perfurações provocadas por faca.

Também chamou a atenção da equipe o fato de apenas o quarto da vítima ter sido revirado. Conforme explicou o delegado, esse detalhe posteriormente passou a indicar uma possível tentativa de forjar a cena do crime, já que outras bolsas não estavam mexidas, caixas permaneciam fechadas e não havia sinais de busca generalizada por objetos.

Por fim, foi observado que o autor circulou descalço dentro da residência, o que ficou evidenciado pelas marcas de sangue no chão.

Delegado Guilherme Pompeo, responsável pela investigação do assassinato [Foto - TJMT]

09h00 – Em depoimento, o delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri afirmou que, ao longo das apurações iniciais, a Polícia Civil percebeu que Romero Xavier Mengarde não seria o autor direto do crime, após ele apresentar um álibi detalhado e consistente sobre seus deslocamentos no dia e horário do homicídio.

Segundo o delegado, a equipe passou a analisar provas técnicas e digitais, como vestígios deixados no local, indícios relacionados ao uso de internet e possíveis acessos a redes wi-fi, além de outros elementos periciais coletados na residência da vítima.

Com o avanço das investigações, ele conta que o que chamou a atenção da equipe foi o fato de que Romero teria construído cuidadosamente um álibi, o que afastou a hipótese de que ele estivesse presente no local do crime no momento da execução. A partir disso, a investigação passou a buscar quem teria motivação para cometer o homicídio e de que forma o crime foi praticado.

O delegado relatou ainda que, após saturar toda a região, a Polícia Civil realizou um trabalho extenso de campo, com a entrevista de cerca de 155 pessoas, incluindo trabalhadores e moradores, para esclarecer os fatos e identificar possíveis envolvidos.

09h12 – O delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri afirmou que, segundo as investigações, Rodrigo Xavier Mengarde ficou à espreita de Raquel Cattani dentro da residência antes do crime. Ele destacou que o próprio réu confessou em interrogatório que aguardou a chegada da vítima.

De acordo com o delegado, Rodrigo relatou que Raquel percebeu a presença dele pelo forte cheiro. Ainda segundo a confissão, o réu já estava no interior da casa, tendo acessado parte dos cômodos, inclusive o banheiro, após arrombar uma janela e pular para dentro do quarto, onde ficou escondido.

O delegado explicou que, quando Raquel entrou na residência, Rodrigo já estava no local. Ao sentir o odor estranho, a vítima passou a procurar a origem do cheiro, falando em voz alta. Quando ela se dirigiu ao quarto para verificar, Rodrigo a surpreendeu e desferiu diversos golpes de faca.

Após o crime, segundo o depoimento, o réu forjou a cena, revirando apenas o quarto da vítima, deixando uma televisão do lado de fora da casa e, em seguida, fugiu com a motocicleta.

09h20 - Outro ponto destacado pelo delegado foi a prova técnica relacionada às ERBs (Estações Rádio-Base), que são as torres de telefonia celular. A análise do sinal do celular de Rodrigo demonstrou toda a circulação do réu, desde a chegada ao local do crime até a fuga, corroborando a confissão.

Ainda conforme o delegado, imagens e registros de deslocamento mostram Rodrigo deixando o local em alta velocidade, usando uma camiseta rosa, e seguindo por diversas cidades da região. O trajeto foi parcialmente reconstruído a partir de dados telefônicos, imagens de câmeras e registros de passagem, inclusive com tentativas do réu de dificultar a identificação, como a ocultação da placa da motocicleta.

O delegado afirmou que a soma da confissão, das provas técnicas e do rastreamento do celular permitiu reconstruir a dinâmica do crime e da fuga, reforçando a presença de Rodrigo na cena do homicídio.

09h24 – O Ministério Público iniciou a oitiva da testemunha, com questionamentos feitos pelo promotor de Justiça João Marcos de Paula Alves.

Durante as respostas, o delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri relatou sua percepção sobre o comportamento do réu Romero Xavier Mengarde ao longo das investigações. Segundo ele, chamou atenção o fato de Romero se mostrar astuto, calculista e frio.

O delegado afirmou que Romero demonstrava um comportamento melindroso e atento, com respostas pensadas e demoradas, observando constantemente o interlocutor. Para ele, tratava-se de uma pessoa “esperta” e “malandra”.

Outro ponto destacado foi a ausência de reação emocional. O delegado disse que, na sua avaliação, alguém envolvido em um crime contra a mãe de seus filhos, ainda que não fosse o autor direto, normalmente apresentaria sinais de tristeza, abalo ou inconformismo. No entanto, segundo o relato, Romero não demonstrou qualquer emoção, nem tristeza nem felicidade, o que chamou a atenção da equipe durante a investigação.

09h42 – O delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri relatou que a investigação identificou comportamentos de perseguição e controle atribuídos a Romero Xavier Mengarde em relação à vítima Raquel Cattani, anteriores ao crime.

Segundo o delegado, testemunhas relataram que Raquel teria sido surpreendida pela presença de Romero poucas semanas antes do homicídio, no sítio dos pais da vítima, local onde ele não residia. Conforme os relatos, Romero apareceu de forma inesperada, à noite, o que teria causado choque e medo em Raquel.

O delegado afirmou que essas informações foram confirmadas por pessoas próximas, incluindo familiares e amigas da vítima, que descreveram um comportamento obsessivo, marcado por tentativas de controle, vigilância e interesse constante sobre onde Raquel estava e com quem se relacionava.

Ainda conforme o depoimento, embora não haja registro de agressões físicas, as testemunhas apontaram que Raquel teria vivido por anos sob pressão psicológica, sendo tratada de forma desrespeitosa e agressiva. O delegado classificou esse histórico como tortura psicológica, destacando que esse tipo de conduta também gera sofrimento intenso à vítima e reflexos negativos aos filhos.

09h44 – Em resposta a questionamentos da promotora de Justiça Andreia Monte Alegre Bezerra de Menezes, o delegado Guilherme Pompeo Pimenta Negri comentou depoimentos de testemunhas próximas à vítima, entre elas uma vizinha e confidente de Raquel Cattani, moradora do Pontal do Maracanha, onde a vítima residia.

Segundo o delegado, essa testemunha demonstrou convicção imediata ao apontar Romero Xavier Mengarde como responsável pelo crime, chegando inclusive a xingá-lo, o que chamou a atenção da equipe pela prontidão da acusação. 

09h46 – Durante a oitiva, a promotora questionou o delegado sobre o relato da testemunha, que afirmou ter ouvido da própria Raquel, dias antes do crime, a seguinte frase: “Se acontecer alguma coisa comigo, foi ele, mas Deus não vai deixar.”

O delegado confirmou que esse relato consta nos autos e afirmou que, na avaliação da investigação, Raquel demonstrava pressentimento e medo, diante do histórico de conflitos e do comportamento de Romero. Segundo ele, esses depoimentos ajudaram a contextualizar o estado emocional da vítima e reforçaram a linha de investigação sobre perseguição, controle e violência psicológica sofrida por Raquel antes do crime.