Dentro de poucos dias, Cuiabá, a capital de Mato Grosso estará completando 306 anos de fundação e 190 como capital substituindo Vila Bela da Santíssima Trindade como a Sede do Governo de nosso Estado.
São mais de três séculos de muita luta, em que viveu e sobreviveu no isolamento e quase que no esquecimento por parte do governo central ( Brasil Colônia, Império e República), mas também muitas vitórias e conquistas, muito mais pelo pioneirismo, trabalho e luta da população do que por obras e gestão governamentais.
Em ocasiões como esta é comum que os governantes de plantão, através de marketing e propaganda tecer loas, as vezes até “fake news”, tentando exaltar suas realizações ou quando não as tem, tentam ludibriar o povo através de promessas e plantos mirabolantes futuros que nunca se cumprem, escondendo os problemas, os dissabores e as frustações por parte da população.
O maior exemplo disso, no caso de Cuiabá e também nossa co-irmã Várzea Grande, desde 2012 sofrem com o maior escândalo de uma obra quase bilionária, que era apregoada como exemplo de modernidade e a redenção do transporte e trânsito do maior aglomerado urbano de nosso Estado, que foi o VLT e continua sendo um escárnio para a população, atualmente com a “novela” e drama do BRT, que em mais de 12 anos tem apenas transtornada a vida e o trânsito de nossa capital e de Várzea Grande, apesar dos discursos e demagogia de todos os prefeitos e governadores e políticos famosos desde então, muito dos quais envolvidos em processo que investigaram corrupção neste e nas demais obras públicas.
Diante disso, gostaria de, neste momento em que Cuiabá está “celebrando” mais um aniversário, ao invés de tecer loas e bajulações aos governantes de plantão e anteriores, apontar alguns desafios e problemas socioambientais que tem tornado, também, a vida da população da capital, do maior aglomerado urbano de Mato Grosso em um verdadeiro inferno.
Antes, porém desejo situar nossa capital e região da baixada cuiabana no contexto da evolução demográfica, econômica e social, bem como a influência que a expansão das fronteiras agrícolas, econômicas e as chamadas “grandes obras” e programas do Governo Federal ao longo das últimas seis décadas e impactaram a Capital.
Cuiabá historicamente compreendia o que hoje são os municípios de toda a baixada cuiabana, ou seja, tanto outrora quando atualmente, Cuiabá faz parte indissolúvel do território que denominamos de Baixada Cuiabana ou mais recentemente como Vale do Rio Cuiabá.
Outro aspecto para compreender a Cuiabá de 2025, foi o crescimento populacional, principalmente da capital quanto também de Várzea Grande, que era, como os demais municípios da baixada cuiabana, distritos de Cuiabá.
Enquanto praticamente todos os municípios da baixada cuiabana perderam ou ainda estão perdendo habitantes e dinamismo econômico, tornando-se, praticamente cidades mortas ou cidades dormitórios, Cuiabá e Várzea Grande “explodiram” em termos demográficos e econômicos.
Em 1872, no primeiro Censo demográfico do Brasil, Cuiabá tinha população maior do que a capital de São Paulo, respectivamente, Cuiabá 35.987 habitantes e São Paulo 31.385 habitantes.
Todavia o crescimento populacional de Cuiabá entre 1872 e 1960 foi bem moderado, quase estagnado, passou de 35.987 habitantes para 57.860. A partir de 1970, com a expansão das fronteiras agrícolas em direção `a Amazônia e a consolidação de Brasília e a ocupação do Centro Oeste tiveram um impacto imenso no crescimento populacional e econômico de Cuiabá.
Cabe destacar aqui a abertura dos grandes eixos rodoviários e o processo de colonização ao longo desses eixos: As rodovias Belém x Brasília; a Cuiabá x Goiânia x Brasília; Cuiabá a Campo Grande, a Cuiabá até Porto Velho e o Acre e também a Cuiabá-Santarém.
Outro aspecto importante na consolidação de Cuiabá como cidade polo e capital, foi a divisão do Estado de Mato Grosso em 11 de Outubro de 1977, quando o estado de Mato Grosso sofreu um impacto de diversos novos programas de desenvolvimento regional do Governo Federal.
Entre 1965 e 1990 a cada década a população de Cuiabá e, também de Várzea Grande crescia praticamente 100% , ou seja, a cada dez anos a população, fundamentalmente urbana deste aglomerado dobrava e crescia de forma extremamente rápida.
Esses crescimento ocorreu `a revelia dos instrumentos do planejamento urbano então já existentes, de todas as normas urbanísticas, através da ocupação ou como denominam algumas pessoas, da grilagem e invasões de áreas, inclusive áreas de proteção ambiental, reservas legais de loteamentos, margens de córregos, sem qualquer infra estrutura e nem fiscalização por parte dos organismos públicos.
Em 1965 a população de Cuiabá era de apenas 70 mil habitantes e em 1990 pulou para 400.000 mil habitantes. Em Várzea Grande também ocorreu este mesmo “fenômeno”, passou de pouco mais de 18 mil habitantes em 1970 para 267.540 em 1990 atingindo aproximadamente 320 mil habitantes em 2025, que, somando-se `a população de Cuiabá atualmente (2025) de 682.932 consolida o maior aglomerado urbano, umbilicalmente interligado populacional, econômica, social e cultural com 1.002.932 milhão de habitantes, as projeções indicam que dentro cindo anos este aglomerado urbano deverá atingir até 2030 mais de um 1,2 milhão de habitantes.
É neste contexto de crescimento demográfico acelerado até o ano 2015, mas em processo de desaceleração, atingindo uma certa estabilidade decorrente apenas do crescimento vegetativo da população, sem grande influência dos processos migratórios, seja da área rural da baixada cuiabana em direção a este aglomerado urbano, principalmente em direção a Cuiabá, e também das migrações de outros estados e até de outros países, da mesma forma que as migrações “de retorno” de outros municípios de Mato Grosso; repito, é neste contexto que surgem e se agravam os grandes e complexos desafios/problemas socioambientais, que exigem atenção e ações dos poderes públicos, principalmente das Prefeituras de Cuiabá e de Várzea Grande.
Alguns dos problemas ou desafios socioambientais de Cuiabá e, em parte, de Várzea Grande e também dos municípios da baixada cuiabana, que deveriam merecer uma atenção maior tanto por parte dessas prefeituras, quanto dos governos estadual e federal, como a definição de políticas públicas, programas e projetos voltados `as questões socioambientais, urgentes e em caráter prioritário.
A seguir, uma “lista” de alguns desses problemas e desafios, que, segundo minha sugestão, deveriam ser enfrentados seriamente:
1. Falta de arborização urbana, de um plano municipal de arborização urbana, previsto em Lei, o PDAU., de mais parques, praças e de uma floresta urbana ou periurbana, bem como novas APAs – Áreas de proteção ambiental e APPs – Áreas de proteção permanente.
2. Precariedade do saneamento básico, principalmente, de esgotamento sanitário – coleta e tratamento de esgotos. Cuiabá tem apenas 49,6% de coleta e tratamento de esgotos, ou seja, 50,4% da população não possui este serviço essencial para a saúde pública e a dignidade humana, isto representa que 344,2 mil pessoas vivendo em meio a esgotos correndo a céu aberto, e em Várzea Grande a situação ainda é pior, tanto em relação ao abastecimento de água, um problema que ja perdera por mais de 50 anos e 70% não conta com coleta e tratamento de esgoto, isto representa 224 mil pessoas afetadas.
No total, no Aglomerado Urbano Cuiabá e Várzea Grande são 588,2 mil pessoas que não contam com coleta e tratamento de esgotos, isto afeta diretamente o Rio Cuiabá e o Pantanal.
3. Falta de uma política pública relacionadas com os resíduos sólidos/lixo e também precariedade da limpeza urbana, nota-se muito lixo nas ruas, e em alguns terrenos desocupados e margens de córregos alguns lixões ou descarte irregular de resíduos de construção civil e até de lixo químico e de lixo hospitalar, a reciclagem em Cuiabá, apesar da luta dos catadores e catadoras de material reciclagem ainda é bem diminuta.
4. Especulação imobiliária, loteamentos irregulares e ocupações/invasões, até mesmo de áreas impróprias e irregulares como margens de córregos, áreas de reservas legais, que não respeitaram nascentes de todos os córregos urbanos.
5. Problema das águas pluviais, sistema de drenagem inexistentes e “bocas de lobo” entupidas com muito lixo e até animais mortos.
6. Desmatamento e queimadas tanto urbanas quanto periurbanas e rurais, que colocam em risco não apenas imóveis, mas também a saúde da população urbana, que já sofre todos os anos com a fumaça oriunda das queimadas mais distantes em outros municípios e regiões como “nortão”, outros estados amazônicos e também as constantes queimadas no Pantanal.
7. Problema dos córregos, que (todos) se transformaram em grandes esgotos a céu aberto, carreando para o Rio Cuiabá e seu principal afluente o Rio Coxipó, degradando um dos principais rios que abastecem o Pantanal, contribuindo sobremaneira para a degradação, poluição e morte do Pantanal, em processo acelerado de secar e desaparecer.
8. Problema da falta e conservação de calçadas, tanto nos bairros periféricos quanto nas áreas centrais da capital, com obstáculos, lixo, carros estacionados nas calçadas, buracos, matagal que, ao lado da iluminação precária tornam a vida dos pedestres, principalmente idosos, pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, extremamente precária e perigosa.
9. Desafios habitacionais, principalmente em “bairros” e áreas periféricas, na verdade habitações sub-humanas, construções precárias, sem condições de habitabilidade e sem as orientações técnicas recomendadas legal e socialmente, colocando em risco a vida de seus ocupantes.
10. Problema da falta de regularização fundiária, de dezenas de milhares de moradias, que surgiram fruto de ocupações irregulares, sem documentação legal, contribuindo para mais um problema para os moradores, que é a insegurança jurídica, social e econômica.
11. Poluição urbana: do ar, dos solos e das águas. Questão da poluição do ar oriunda da frota de veículos que não tem qualquer controle em relação a este problema, inclusive poluição sonora e visual.
12. Trânsito e transporte urbanos caóticos diante da precariedade da infraestrutura viária, ruas sem asfalto, com esgotos, com muitos buracos, córregos com pontes precárias e a omissão dos poderes públicos em relação a esses aspectos
13. Bolsões de pobreza tanto urbana quanto periurbana e rural, tanto em Cuiabá, quanto em Várzea Grande e nos demais municípios da Baixada Cuiabana, em contraste com a opulência de uma minoria da população, com seus condomínios de luxo, verdadeiras fortalezas armadas em meio a uma população empobrecida e outras demonstrações de uma grande acumulação de riqueza, renda e propriedades em meio a esses bolsões de pobreza e miséria. (em Cuiabá existem aproximadamente , em 2025, nada menos do que 40 mil famílias cadastradas no Bolsa família, entre 100 a 120 mil pessoas que dependem desta migalha pública para continuarem apenas sobrevivendo.
14. A degradação e poluição do Rio Cuiabá é outro grave problema pois se trata de um dos principais rios que “abastecem” o Pantanal, que, também está em processo de degradação e morte, reduzindo sua área alagável ano após ano, indicando que em uma ou duas décadas, a continuar este processo, deverá secar e se tornar uma área imprópria para todas as atividades produtivas, afetando não apenas a população pantaneira, mas toda a biodiversidade da região e também uma das fontes de renda para diversos municípios que tem sido o ecoturismo.
15. Falta de consciência ecológica tanto por parte da população, quanto de todos os setores da sociedade, incluindo escolas, o empresariado, lideranças ;políticas, governantes, grupos religiosos e clubes de serviço e, inclusive, também por parte da maioria dos meios e veículos de comunicação. A educação ambiental/ecológica é algo muito distante em todos os setores, inclusive nas escolas, nos movimentos sindical e comunitário. Tanto é verdade que a questão ambiental praticamente esteve ausente dos debates e “planos” dos candidatos a vereadores e a prefeitos tanto em Cuiabá quanto de Várzea Grande e demais municípios de Mato Grosso e do Brasil, nas últimas eleições (2024).
Além desses problemas, existem alguns aspectos que podem ser considerados positivos, os quais devem ser enaltecidos pelos governantes de plantão, pelas seus meios de comunicação e até mesmo por suas mídias sociais propagandistas, cabe `a população despertar para a realidade e não ser inebriada por falsos discursos.
Nada é mais importante do que o chamado “choque da realidade”, quem vive, convive, sobrevive e sofre diuturnamente com esses problemas e desafios socioambientais e outros mais é quem deve refletir sobre o que realmente é importante para celebrar não apenas em mais um aniversário de Cuiabá, mas ao longo de todos os dias!
Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral na Região Centro Oeste. Email profjuacy@yahoo.com.br Instagram@profjuacy Whats App 65 9 9272 0052