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Crianças são principais vítimas de estupro coletivo no Rio de Janeiro

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Dor de mãe: filha de assistente administrativa foi estuprada por quatro colegas de turma em escola municipal na Zona Oeste.
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Dor de mãe: filha de assistente administrativa foi estuprada por quatro colegas de turma em escola municipal na Zona Oeste.

A menos de uma semana de completar 12 anos, a menina voltava tranquila das aulas em uma escola municipal na Zona Oeste do Rio. Na porta de casa, um aluno mais velho, que a seguia desde o colégio, a abordou e forçou entrada no imóvel. Ela foi levada até um dos quartos, onde ele “abusou sexualmente da criança, inclusive com penetração”, como está descrito no registro de ocorrência, lavrado no dia 9 de maio. O agressor filmou o ataque e passou a ameaçar a vítima, que nunca havia mantido relações, com a divulgação das imagens. Com esse artifício, ele obrigou a menina, em outras duas ocasiões, a praticar sexo forçado com mais três estudantes da mesma escola, todos também de 15 anos. Nessas situações, os quatro a estupraram simultaneamente.

Um levantamento exclusivo feito pelo GLOBO aponta que cenas como essa repetem-se no Rio a cada 36 horas, em média. Entre janeiro e maio deste ano, foram computados 102 casos de estupro coletivo no estado, como atestam dados obtidos junto à Polícia Civil via Lei de Acesso à Informação. Foram considerados na análise os crimes — ou fatos análogos, no caso de autores menores de idade — tipificados como estupro ou estupro de vulnerável em que, no momento do registro de ocorrência, havia pelo menos dois agressores já identificados ou apontados pela vítima.

“Minha filha é tão criança que parece que nem entende muito bem o que houve. Ela veio morar comigo, para passar menos tempo sozinha, e também teve de mudar de escola”,  conta o pai da menina seguida e estuprada.

Em 2018, após uma mudança no Código Penal, os estupros ocorridos “mediante concurso de dois ou mais agentes” passaram a proporcionar uma pena maior, que pode superar 16 anos de prisão. A alteração começou a tramitar no Congresso dois anos antes, uma semana depois de vir à tona um estupro coletivo ocorrido em um pequeno imóvel no Morro da Barão, na Praça Seca, Zona Oeste do Rio. Filmada tal qual a menina abordada na porta de casa, a vítima, de 16 anos, teve os vídeos do abuso — nos quais aparecia nua e desacordada, e tinha as partes íntimas manipuladas pelos agressores — viralizados na internet, gerando comoção nacional.

Uma a cada quatro vítimas é menor de idade

Ao todo, os 102 estupros coletivos registrados no Rio este ano envolvem 243 agressores e 117 vítimas, já que, em alguns casos, mais de um alvo é atacado pelo grupo simultaneamente. Três em cada quatro vítimas são menores de idade. Dentro desse recorte, mais da metade é composta por abusados de no máximo 11 anos, com 45 crianças violadas por mais de uma pessoa ao mesmo tempo antes de chegar à adolescência.

 “O prejuízo potencial é devastador, com estragos que podem persistir por toda a vida. E situações com múltiplos agressores podem ser ainda mais danosas, já que, além de não terem desenvolvimento físico e cognitivo, as crianças podem se sentir ainda mais constrangidas, coagidas e incapazes de lidar com os impactos do abuso”, explica a psicóloga Elaine Chagas, especializada em Infância e Adolescência e uma das diretoras do Instituto de Terapia Cognitivo-comportamental no Rio (InTCCRio).

A preponderância de alvos com pouca idade faz com que a Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV) seja a unidade policial com mais investigações relativas a estupros coletivos do estado. Só este ano, a especializada responde por quase 10% dos casos, com nove inquéritos abertos.

“A DCAV tem um Setor de Depoimento Especial, com atendimento diferenciado e qualificado junto às vítimas, algo essencial no momento em que se busca onde relatar o crime”, diz o delegado Marcello Braga Maia, titular da unidade, que recebeu com espanto as estatísticas compiladas pelo GLOBO:

 “É um número muito elevado, sem dúvidas. Mas entendo que a população tem acreditado mais nos aparelhos de proteção, que são principalmente a DCAV, os Conselhos Tutelares e a Defensoria Pública. E, com isso, acabam noticiando mais os fatos, ou denunciando por outros canais, como o Disque-Denúncia (21 2253-1177) e o Disque 100”.

Agressores usam intimidação como tática

A rotina de estupros sofridos pela menina perseguida após sair da escola só foi descoberta uma semana depois do primeiro ataque, graças à intervenção de um professor, que ouviu comentários suspeitos dos agressores e acionou a direção. Assustada e ameaçada pelos algozes, que a abordavam pelos corredores do colégio, a vítima não havia relatado o que vinha vivenciando para ninguém, fossem colegas ou a própria família. Especialistas explicam que a intimidação é um expediente usado com frequência pelos abusadores para tentar sair impunes.

“Estamos falando de vítimas muito vulneráveis, sobretudo as meninas mais novas. Se denunciar quando há apenas um agressor já é difícil, quando existem vários fica ainda mais complicado. Podemos dizer com segurança que esses números são consideravelmente maiores, porque existe todo um cenário que ainda favorece a subnotificação”, pondera Luciana Terra Villar, uma das lideranças jurídicas dos movimentos Justiceiras e #MeTooBrasil.

Conhecida pelos professores de outra escola municipal na Zona Oeste do Rio como uma aluna dedicada e de excelentes notas, uma menina de 13 anos aguardava o fim do intervalo após a primeira aula quando acabou entrando para as estatísticas da violência. Eram por volta de 13h45 de 28 de março, uma segunda-feira, e a adolescente se viu repentinamente cercada por quatro colegas de turma, todos da mesma faixa etária.

Dois dos estudantes seguraram a jovem pelos braços e taparam sua boca, enquanto os outros começaram a acariciá-la, mexendo em seus seios e partes íntimas repetidamente. As mãos da menina foram forçadas a tocar os órgãos genitais dos agressores, que também tentaram “esfregar o pênis no rosto dela”, como consta no registro de ocorrência. Tudo dentro da sala de aula, em um ataque que só foi interrompido depois que o quarteto foi avisado sobre a aproximação de alguém. No momento da chamada, ao ter o nome anunciado, a vítima chorava descontroladamente, o que chamou a atenção do professor.

“Minha filha contou que, em um primeiro momento, chegou a achar que era tudo uma brincadeira. Ela demorou a entender o que estava acontecendo, até por não ter nenhuma vivência sequer parecida com isso. Eu só fui saber exatamente o que fizeram na delegacia, porque até então, por vergonha, ela não tinha conseguido descrever para mim tudo o que sofreu e ouviu. É uma menina que não fala nem palavrão, então imagine como é para ela tratar dessas coisas?”, lamenta a mãe da adolescente.

‘Ensinar respeito às mulheres é o mínimo’

Se são maioria entre os alvos dos abusos, os menores de idade, responsáveis pelos dois casos citados, também aparecem com destaque, em especial nas ocorrências com três ou mais envolvidos, entre os autores dos estupros coletivos. São 40 jovens de 12 a 17 anos ligados a casos do gênero este ano, o equivalente a um em cada quatro do total de agressores.

“A mentalidade da sociedade ainda é a de que a mulher é um objeto, e de que eles são donos desse objeto. Precisamos de um trabalho grande de conscientização inclusive dentro das escolas, que precisam atuar com firmeza para romper os paradigmas do machismo estrutural. Ensinar respeito às mulheres é o mínimo, e isso tem de ser aprendido com clareza desde cedo”, cobra Flávia Pinto Ribeiro, presidente da OAB Mulher no Rio.

Atacadas em 84,6% das ocorrências, as mulheres são ampla maioria entre os alvos de estupro coletivo no Rio. Ainda assim, também há casos emblemáticos contra homens, quase sempre menores de idade — das 18 vítimas masculinas este ano, só duas têm mais de 18 anos. Uma dessas histórias é a de um menino de 10 anos que, ao comprar um refrigerante, foi abordado por um grupo de vizinhos mais velhos, que faziam comentários sexuais sobre sua irmã. Contrariado, o garoto retrucou na mesma moeda, mas acabou violentado.

Segundo o registro de ocorrência, feito em uma delegacia da Zona Oeste, os cinco agressores “imobilizaram a vítima segurando seus braços e pernas”, e em seguida abaixaram as calças do menino. Os autores, então, “introduziram os dedos no ânus” da criança e puxaram a cueca “com muita força”, chegando a machucar as partes íntimas do garoto.

“Nesse viés de dominação, o estupro coletivo é usado até mesmo em guerras, como forma de diminuir o indivíduo violentado”, lembra a advogada Flávia Ribeiro.

Procurada, a Polícia Civil informou que “as investigações estão em andamento para esclarecer todos os fatos e elucidar os casos”. Já a Secretaria Municipal de Educação (SME) frisou que “é contra qualquer tipo de abuso dentro ou fora dos espaços escolares”. Sobre o episódio ocorrido dentro de uma escola, a pasta afirmou que “a direção da unidade convocou os responsáveis dos menores para uma reunião e tomou providências”. A nota pontua que “o caso ainda está sendo investigado pela polícia, mas trata-se de uma suspeita grave de abuso sexual praticado por quatro adolescentes contra uma estudante durante o horário escolar”.

Confira a íntegra do texto enviado pela SME:

“A Secretaria Municipal de Educação é contra qualquer tipo de abuso dentro ou fora dos espaços escolares. O caso ainda está sendo investigado pela polícia, mas trata-se de uma suspeita grave de abuso sexual praticado por quatro adolescentes contra uma estudante durante o horário escolar. Imediatamente após o ocorrido, a direção da unidade convocou os responsáveis dos menores para uma reunião e tomou providências. No encontro, ficou acordado entre as partes que os quatro alunos suspeitos seriam transferidos para outras unidades, com o objetivo de garantir o afastamento dos agressores da jovem e preservar a permanência da aluna na unidade, que demonstrou interesse em continuar na mesma escola à época. Outra providência, também acolhida à época, foi a transferência de turma da menina, visando oferecer um novo ambiente para jovem dentro da unidade. A medida tomada com relação aos quatro alunos suspeitos faz parte das orientações contidas na Resolução SME nº 1074 de 14 de abril de 2010, que dispõe sobre o Regimento Escolar Básico do Ensino Fundamental da Rede Pública do Município do Rio de Janeiro.

Em função da gravidade da ocorrência, a Unidade Escolar acionou o PROINAPE (Programa Interdisciplinar de Apoio às Escolas) que, de imediato, fez contato com a Unidade de Saúde de referência do território da Unidade Escolar a fim de garantir atendimento psicológico à aluna. Desde então, ela vem recebendo acompanhamento psicológico em uma Clínica de Saúde da Família da região.

No dia 31 de maio, a responsável pela aluna manifestou o desejo de transferir a estudante para outra unidade escolar da região. Tendo em vista que um dos alunos envolvidos no ocorrido foi transferido em março (logo após o ocorrido) para a unidade em questão, a mãe não efetivou a mudança de escola. A Coordenadoria Regional de Educação segue atuando no caso da jovem com objetivo de apoiá-la em tudo que for necessário, inclusive, na busca por uma solução para transferência da estudante. A jovem será priorizada em todas as situações. Uma das possibilidades é que a troca de unidade seja efetivada no recesso escolar, que se inicia no próximo dia 11 de julho, de forma que a continuidade do ensino não seja prejudicada.

Mais um uma vez, a secretaria reforça que é contra qualquer tipo de abuso dentro ou fora dos espaços escolares. Imediatamente após o ocorrido, a direção da unidade atuou com os alunos envolvidos diretamente no caso, e também com os demais estudantes da turma. O caso foi registrado na polícia, representantes da unidade escolar já foram à unidade policial e estão colaborando no que for necessário para investigação e elucidação do caso. A Secretaria Especial de Políticas e Promoção da Mulher também irá apoiar no acolhimento da jovem. A Secretaria de Educação reforça que, para preservar a estudante, não pode informar o nome da aluna, unidade de ensino ou região onde ela estuda, nem mesmo mais detalhes sobre o caso, que possam levar a uma possível identificação dos menores.”

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Fonte: IG Mulher

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Mulher

Escravidão contemporânea e precarização não choca tanto quanto deveria

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Sucesso midiático e nas redes sociais,
Divulgação

Sucesso midiático e nas redes sociais, “A Mulher da Casa Abandonada” relembra caso de mulher que foi mantida há 20 anos em situação de escravidão contemporânea

Há pouco mais de um mês, é comum encontrar “A Mulher da Casa Abandonada” como um dos principais assuntos do momento nas redes sociais. O podcast da Folha de S.Paulo, com apuração e narração do jornalista Chico Felitti, se tornou um fenômeno midiático por esmiuçar a história de uma mulher, foragida do FBI por manter uma empregada doméstica em situação de trabalho escravo contemporânea nos Estados Unidos, que se esconde em uma mansão decadente em Higienópolis, bairro nobre da cidade de São Paulo.

O trabalho investigativo de Felitti o levou ao caso que envolve Margarida Bonetti e o marido, Renê Bonetti, que explodiu nos noticiários no início dos anos 2000. A vítima, uma empregada doméstica brasileira “dada de presente” pela família, é analfabeta e passou 20 anos em situação de trabalho forçado. A mulher era mantida em condições insalubres no porão da mansão do casal em Washington, teve atendimento médico negado para tratar de um tumor e sofreu uma série de maus tratos por parte, principalmente, de Margarida.

O intuito de “A Mulher da Casa Abandonada” é abordar a realidade nada distante da situação de escravidão à qual muitas empregadas domésticas são silenciosamente submetidas, mas também de trazer à tona o caso e a história por trás de quem vive na sinistra mansão em Higienópolis. Ou melhor, vivia, já que  a procurada fugiu da residência no último fim de semana – período em que a casa abandonada pareceu alçar de vez o status de “ponto turístico”.

Agora, a fachada da mansão dos Bonetti está sempre ocupada por ouvintes e curiosos ávidos para conhecer o local. Pessoas subiram no muro, picharam o nome da vítima (mantido em sigilo no podcast) e gravaram dancinhas de TikTok em frente à casa, ostentando a presença naquele lugar.

Para Nathalie Rosário, advogada do Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos da Grande São Paulo (Sindoméstica), a repercussão de “A Mulher da Casa Abandonada” causa tristeza. Para ela, a atenção do público parece ter ficado muito mais voltada para a infratora e pela “aura misteriosa” da mansão. “Fora do podcast, pouco se falou sobre como essa empregada está, se está segura, se foi acolhida e se teve acesso aos direitos dela”, afirma ao iG Delas.

“A sociedade não tem esse olhar atento para a vítima de racismo e escravidão. Mas teve com a infratora. A supremacia branca continua prevalecendo nesse sentido de enxergar aquilo que ela fez como algo a se fazer meme, como algo a ser levado na brincadeira. Se foge do ponto principal, que é a questão racial e que ainda existe esse tipo de situação”, complementa a advogada.

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Escravidão contemporânea

O ano de 2021 foi um dos que apresentaram o maior índice de pessoas encontradas em situação de escravidão contemporânea. De acordo com o Ministério do Trabalho e Previdência, foram quase 2 mil pessoas amparadas nessas condições. A Organização Nacional do Trabalho aponta que foram 60 mil pessoas libertadas nos últimos 15 anos.

Melina Girardi Fachin, advogada, pesquisadora e co-autora do livro “Constituição e Direitos Humanos” (disponível pela editora Almedina Brasil), lembra ainda que, nos últimos dez anos, o Brasil recebeu duas condenações da Corte Interamericana de Direitos Humanos por escravidão contemporânea.

No âmbito do trabalho doméstico, as mulheres, por si só, representam 92% das trabalhadoras dessa categoria; destas, 65% são negras, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas (Dieese). “Além de negras, essas mulheres, em sua maioria, têm baixa escolaridade e são de baixa renda”, aponta Fachin.

Melina explica que a a forte desigualdade social e o racismo estrutural brasileiro são os dois principais fatores na conjuntura brasileira que propiciam a continuidade da escravidão contemporânea no país. “É o que mantém esse sistema perverso que continua escravizando e instrumentalizando pessoas. O perfil das vítimas já nos mostra a realidade discriminatória que, ao mesmo tempo, alimenta esse sistema e é fruto dele”.

“As empregadas se submetem a essas condições por uma questão de racismo estrutural”, afirma Rosário. “É um ciclo vicioso que atinge mais as mulheres negras e é passado de avó para mãe, de mãe para filha. Por vezes, alguém precisa romper esse ciclo para que exista uma ascensão profissional. Não é que a categoria não seja importante, porque é. Mas é necessário que exista um trampolim para que trabalhadoras tenham acesso aos estudos e possibilidades de crescer prifissionalmente”.

Por mais que o regime escravocrata pareça ser uma página virada no contexto atual do Brasil, Rosário aponta que a raiz da categoria segue os moldes dele, já que elas surgiram no período colonial. “Vivemos uma falsa abolição em relação ao emprego doméstico. Com todo avanço legislativo, ainda existem empregadas sendo silenciadas, sem o mínimo de direitos. Esses casos existem e não são pontuais”, afirma a advogada do sindicato.

Rosário e Fachin apontam que são características do trabalho escravo contemporâneo o trabalho forçado, jornadas exaustivas, situações de servidão por dívidas (como trabalhar em troca de moradia, por exemplo), condições degradantes, falta de higiene, alimentação e assistência médica, cerceamento dos direitos de ir e vir e falta de remuneração.

Rosário aponta que existe um padrão que atrai as vítimas para essa situação de trabalho, caracterizado por uma situação de hipervulnerabilidade. Em casos que acabam em situação de escravidão contemporânea, o perfil das vítimas é de mulheres que foram despejadas ou não tinham um lar.

“O empregador se aproveita dessa situação vulnerável para oferecer um ambiente. Só que essa mulher trabalha e recebe em retorno tão somente o lar, o famoso quartinho da empregada, onde ficam isoladas em condições precárias. Elas perdem acesso social a suas famílias, então não há acesso ao que está acontecendo”, indica.

Tasha Jolley/Unsplash

“sociedade não tem esse olhar atento para a vítima de racismo e escravidão”, diz advogada do Sindoméstica

Fachin aponta que as vítimas ficam tão imersas nesses ambientes e são tão afastadas do convívio social que não conseguem pedir ajuda ou buscar proteção. “Devido à própria condição de dominação em que essas pessoas se encontram e pela ausência de consciência e compreensão dos próprios direitos, justamente por serem pessoas de baixíssima escolaridade e que vieram de um cenário de hipervulnerabilidade, há poucas chances de que essa pessoa faça a denúncia”. O medo também é um fator predominante para impedir que a vítima denuncie.

“Então, é muito complicada a forma como, hoje, a internet repercute esses casos de uma forma engraçada. É um crime hediondo. Tem uma família que sofreu e uma pessoa que perdeu a vida toda. É importante refletir sobre qual mensagem precisamos aprender por trás disso para evoluir como sociedade”.

Rosário complementa que, por ser um trabalho realizado na casa de alguém, fazer o resgate é ainda mais complicado devido ao direito de inviolabilidade do lar, que impede o acesso à residência sem que exista uma denúncia oficial. “Falta uma fiscalização do poder para afastar essas trabalhadoras que estão sofrendo essas condições”.

Fachin explica que existem diversas divisões responsáveis pela fiscalização de trabalho e pelo mapeamento de pessoas nessa situação, sendo o Ministério Público do Trabalho o principal. No entanto, há poucos quadros com acesso aos casos que ocorrem em determinadas regiões brasileiras, principalmente o interior.

A advogada acrescenta que as estruturas judiciárias frequentemente desqualificam essas denúncias; da mesma forma que o crime de racismo é negligenciado. “Viemos em um país que não prestou contas do seu passado escravocrata. Isso acaba alimentando o mito da democracia racial que faz com que a sociedade, incluindo autoridades públicas, se autorize a dizer que não há racismo no Brasil ignorando os dados que mostram essa realidade”.

“É fundamental que esse tema seja colocado em pauta porque mexe na estrutura do nosso modo de ser sociedade. Temos leis. Temos condenações internacionais. É inconcebível que estejamos, em 2022, presenciando cenas que remontam a um passado oitocentista. Temos que não perder a capacidade de nos indignar com esse absurdo e cobrar dos cargos responsáveis e do poder público que esses órgãos sejam mais robustos e que exista a fiscalização da implementação da lei”, alerta Fachin.

Precarização do trabalho doméstico

Em 1988, a Constituição Federal garantiu a proteção de empregados de empresas comuns. Levou 17 anos para que existisse uma legislação que assegurasse o mesmo direito às empregadas domésticas. A Lei Complementar 150 regulamenta, sancionada em junho de 2015, entre outros direitos, o seguro-desemprego, fundo de garantia, aposentadoria, jornada de trabalho de 44 horas semanais.

“Infelizmente, a nossa constituição fazia essa discriminação, o que mostra como o direito, as normas e as leis também precisam se adatar e correr atrás para dar respostas mais robustas a essas pessoas”, diz Fachin. Rosário, no entanto, afirma que a lei, por si só, não atingiu o resultado esperado, já que a cada dez empregadas domésticas brasileiras, apenas três são registradas.

Sem o registro, é ainda mais difícil entrar com um processo para reaver todos os direitos que não foram assegurados, já que essas profissionais, geralmente, recebem o pagamento em mãos e não têm testemunhas. “Essas desvantagens favorecem o empregador doméstico”.

Outro motivo que propicia essa relação de trabalho é a falsa mistura entre relação profissional e pessoal. “O empregador afirma que a empregada é uma figura ‘parte da família’ e usa desse atributo para deixar de cumprir um direito dela. Existe essa máscara de que há uma benevolência do empregador ao contratar uma empregada doméstica”.

A precarização do trabalho doméstico é efeito direto da desvalorização dessa atividade e das profissionais. Tanto no caso de precarização como de escravidão, Rosário aponta que a reação da sociedade é, desde sempre, de olhar para o outro lado. Essa postura coloca as trabalhadoras como não dignas de direitos e amparo; além de estarem atreladas aos rótulos racistas e patriarcais que perpetuam o silenciamento e invisibilização da classe.

Marta*, 50, trabalha como empregada doméstica há 15 anos e lembra de ter vivido dias de aflição na primeira casa de família em que trabalhou. Ela ficou no cargo por dois anos e, ao longo do tempo, presenciou intrigas, recebeu acusações e foi vítima de abusos psicológicos causados pelo casal de empregadores.

Ela lembra que trabalhava com uma outra colega, que cuidava da cozinha da mansão, e que as duas só tinham autorização para fazer refeições numa mesa da área externa. A área, que tinha teto coberto, tinha laterais abertas. Elas tinham que ficar ali mesmo no frio.

O casal era de difícil convivência. A mulher sentia ciúmes da relação das filhas do marido com as empregadas e as acusava de oferecer tratamento diferenciado para elas. Alguns dias dava “bom dia”; em outros, ignorava as funcionárias. “Ela era advogada, então sabia os limites. Era tudo muito sutil”, diz a empregada sobre os insultos e a pressão psicológica diária.

No caso do homem, o problema era a comida. Por mais que a alimentação esteja assegurada para as empregadas domésticas, Marta preferia almoçar em casa, que era próxima do local de trabalho, para almoçar com a filha. Só almoçou na mansão uma única vez, mas nunca mais o fez ao perceber que os patrões “fecharam a cara”. As únicas frutas que poderiam comer era banana, já que o casal não gostava.

Para evitar problemas, ela e a colega faziam vaquinhas para comprar leite, café, açúcar e pão para o café da tarde. Por vezes, o homem se sentava à mesa e comia os ingredientes comprados por ela. “Ele comia nosso pão e tomava do nosso café. Não tava nem aí”, diz.

Para alguns desses cafés, o patrão já levou ingredientes como geleias e requeijão como “cortesia” para as empregadas. Marta afirma que a data de validade de todos os produtos estava vencida há, pelo menos, seis meses.

Entre outras situações que passou, Marta relata que foi acusada de entupir o vaso sanitário de um dos lavabos da mansão em um fim de semana em que ela sequer esteve na casa. Era pedido que ela fizesse horas extras ou atividades que não constavam no seu escopo, como limpar a piscina ou organizar o jardim – eram as únicas ocasiões em que os padrões ficavam mais amigáveis.

Na residência seguinte em que trabalhou, era obrigada a cuidar dos animais domésticos dos empregadores quando eles viajavam, muitas vezes sem aviso prévio e, em todos os casos, sem receber nada a mais. “Principalmente no final do ano, jogam a responsabilidade em cima das empregadas. Eles pedem na primeira e na segunda vez. Da terceira em diante, você chega e já estão com as malas prontas. Tive que desmarcar vários compromissos para ir todo dia em casa, faça chuva ou faça sol, para cuidar dos animais”.

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Por mais que passasse por abusos e recebesse falas atravessadas, Marta aponta que sempre se impunha diante dos patrões. Delimitava o limite do horário, dizia quando discordava de algo e, quando acusada de algum ato que não cometeu, respondia a altura. “Eles falavam que eu era mesmo mais esperta, então eu tinha outro tratamento”.

A colega de trabalho de Marta no primeiro emprego era a que mais sofria represálias. Os patrões pediam para que ela cozinhasse um prato no almoço e, quando o levava pronto, pediam outro. Era comum que recebesse gritos, ofensas e trabalhasse chorando. Marta relata que essa mulher ficou por mais tempo trabalhando na mansão, e que chegou a passar tanto nervoso que, um dia, desmaiou de nervoso. “Eles viram e não ligaram. Não socorreram ela, não”, diz.

Como denunciar?

Tanto nos casos de precarização de trabalho como de situação de escravidão contemporânea, é possível fazer as denúncias anônimas pelo Disque Direitos Humanos, o Disque 100. O Sindoméstica recebe denúncias anônimas, junto ao Ministério Público do Trabalho, para fiscalização e acolhimento pelo telefone 0800 77 35 900.

Pela internet, é possível denunciar irregularidades trabalhistas pelos canais digitais de denúncia da Secretaria do Trabalho do Ministério da Economia, pelo link https://denuncia.sit.trabalho.gov.br/home . Nos casos de escravidão contemporânea, o canal de denúncia é o Sistema Ipê ( https://ipe.sit.trabalho.gov.br/#!/ ).

*O nome foi alterado para preservar a identidade da fonte.

Fonte: IG Mulher

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Tabata Amaral, Sâmia Bomfim e mais abordam mulheres na política em SP

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Tabata Amaral e Sâmia Bomfim são convidadas para falar sobre participação de mulheres na política em evento suprapartidário
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Tabata Amaral e Sâmia Bomfim são convidadas para falar sobre participação de mulheres na política em evento suprapartidário

Lideranças de diversos partidos políticos se reúnem em São Paulo no próximo sábado (9) para abordar a participação de mulheres na política. Sâmia Bomfim, Tabata Amaral, Adriana Ventura e Marina Helou estão entre as participantes do evento Mulheres na Política.

Idealizado pela cientista política Juliana Fratini, o encontro conta com três mesas de debate e tem como intuito reunir mulheres de partidos políticos conservadores e progressistas. As falas terão moderação da jornalista Barbara Gancia.

A primeira mesa abordará Mulheres e Mandatos e terá participação de Adriana Ventura (Novo), Alda Marco Antonio (PSD), Beth Sahão (PT), Carol Aguiar (Vote Nelas), Cristina Massi (Pros), Mara Gabrilli (PSDB) e Tabata Amaral (PSB).

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A segunda mesa, chamada Rompendo Preconceitos Estruturais, reunirá Cidinha Raiz (PSD), Claudia Carletto (PSDB), Isa Penna (PCdoB), Madeleine Lascko (Jornalista), Marina Helou (Rede) e Silvia Cervellini (Delibera Brasil).

Por fim, a terceira mesa abordará mobilização feminina. Participam Carina Vitral (PCdoB), Duda Alcântara (PSB), Isabela Rahal (Vote Nelas), Larissa Alfino (Vamos Juntas), Ligia Pinto (O Grupo Mulheres do Brasil), Mari Tavalli (Solidariedade) e Sâmia Bomfim (Psol).

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O evento é gratuito e aberto ao público e será no Restaurante Harrys, no bairro da Consolação, na capital paulista. As mesas estão previstas para começar às 17h.

Fonte: IG Mulher

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