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Saúde

Covid-19: estudo sobre casos no Brasil inicia nova fase em 133 cidades

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O estudo Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil (Epicovid19-BR), coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em parceria com o Ministério da Saúde, anunciou o início da quarta etapa de testes que irá abranger 133 cidades do país. A pesquisa ocorrerá de 20 a 23 de agosto e será financiada com recursos do programa Todos pela Saúde, do ministério.

O estudo é a maior pesquisa populacional em andamento no mundo a estimar a prevalência de coronavírus. “Os números de casos de infecção, internações e mortes por coronavírus se mantêm altos dia-após-dia no Brasil. Neste momento, precisamos das melhores evidências para embasar ações, preservar a saúde e prevenir mortes evitáveis de brasileiros”, destacou o epidemiologista e coordenador geral do estudo, Pedro Hallal.

Resultados

As três primeiras etapas, realizadas de 14 a 21 de maio, 4 a 7 e 21 a 24 de junho, entrevistaram cerca de 90 mil pessoas. Com base nos primeiros resultados, o estudo estimou que existem cerca de seis casos reais não notificados para cada um oficialmente confirmado. De acordo com a pesquisa, de cada cem pessoas infectadas, uma vai a óbito no Brasil.

A pesquisa documentou ainda que, em um mês, a prevalência (proporção de pessoas contaminadas) dobrou na população: os percentuais passaram de 1,9% (1,7% a 2,1%, pela margem de erro), na primeira etapa, para 3,1% (2,8 a 4,4%), na segunda, e alcançaram 3,8% (3,5% a 4,2%), na última etapa. Nesse mesmo intervalo de tempo, o distanciamento social (percentual de pessoas que ficaram em quarentena em casa) caiu de 23,1% para 18,9% dos entrevistados.

Desigualdade

A pesquisa identificou também diferenças grandes da prevalência da doença entre regiões brasileiras, grupos étnicos e socioeconômicos. Na reigão Norte, segundo o estudo, 10% da população, em média, têm ou já teve covid-19; no Sul, esse percentual está em torno de 1%. Os 20% mais pobres apresentaram o dobro do risco de infecção em comparação aos 20% mais ricos. O grupo mais vulnerável, os indígenas, tiveram risco de infecção cinco vezes maior do que os brancos.

“Mostramos que os pobres e os indígenas são os grupos mais vulneráveis, que requerem ainda mais atenção de políticas de saúde pública”, disse Hallal.

A pesquisa apontou ainda que as crianças têm a mesma chance de se infectar com o novo coronavírus do que uma pessoa adulta. 

Sintomas

Segundo o estudo, aproximadamente 90% das pessoas infectadas com o novo coronavírus apresentaram sintomas. Os cinco mais frequentes, relatados por cerca de metade dos entrevistados com anticorpos para a covid-19, foram: dor de cabeça (58%), alteração de olfato ou paladar (57%), febre (52,1%), tosse (47,7%) e dor no corpo (44,1%).

Edição: Aline Leal

Fonte: EBC Saúde

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Saúde

A logística de apoio à população da Amazônia no combate à pandemia de Covid-19

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BBC News Brasil

Vista aérea de kits de limpeza sendo entregues em comunidade à beira do rio

Leonardo Milano/Projeto Saúde e Alegria
Para entregar kits de limpeza para comunidades no Rio Arapiuns, é preciso fazer a entrega de barco

Em meio à pandemia de covid-19, o barco hospital Abaré, clínica móvel que faz atendimento ao longo do rio Tapajós, no Pará, estava mais ativo do que nunca.

Em uma das mais recentes viagens, dezenas de pessoas já haviam carregado o barco com toneladas de kits de limpeza que seriam distribuídos para comunidades ribeirinhas e indígenas. Criado pelo projeto Saúde e Alegria, hoje o barco é propriedade da Universidade Federal do Pará, a quem o projeto ajuda na administração do barco.

A tripulação estava a postos para deixar Santarém, mas, por causa da pandemia, faltava uma última medida: toda a tripulação precisava passar por testes rápidos de covid-19, para não correr o risco de levar a doença às comunidades atendidas.

A expectativa era que os testes dessem negativo, já que ninguém tinha sintomas aparentes. Mas, na última hora, o projeto descobriu que, de 11 tripulantes, 8 estavam com coronavírus.

Todos tiveram que desembarcar e ficar em isolamento, enquanto o pessoal do projeto corria para fazer toda a sanitização do barco e dos equipamentos e para encontrar outra equipe para tripular a embarcação e tentar manter a agenda de entregas, conta Caetano Scannavino, coordenador do Saúde e Alegria.

Levar atendimento médico e suprimentos às comunidades ribeirinhas e indígenas ao longo do rio Tapajós, no Pará, já não é uma tarefa fácil em épocas normais. Durante a pandemia de covid-19, o desafio é dobrado.

“Uma das coisas mais desafiantes se tratando de Amazônia e fazer a coisa chegar lá no interior do interior”, diz Scannavino.

Tripulação de barco transfere kits de limpeza e alimento para embarcação menor

Projeto Saúde e Alegria
Barcos grandes não chegam a alguns locais, que só podem ser acessados com lanchas menores

Fazer a distribuição de kits de limpeza sem gerar aglomeração não é fácil. Uma série de protocolos foram estabelecidos, como deixar os suprimentos na entrada das comunidades — com as próprias pessoas do local fazendo a distribuição.

Nas datas combinadas com antecedência, líderes das comunidades ficavam na beira do rio de madrugada esperando o barco chegar.

Um dos principais problemas causados pelo atraso devido à contaminação da equipe é que, sem sinal de celular e internet na região, era impossível avisar algumas das comunidades — o dia amanheceria, as pessoas ficariam esperando, mas o barco não chegaria.

Com o acionamento de muitos contatos e pedidos de ajuda, o projeto conseguiu substituir a tripulação e fazer as entregas, ainda que com atraso.

“Perrengues como esse são a nossa vida”, conta Adriana Pontes, administradora do Saúde e Alegria. “É uma dificuldade muito grande, um desafio para a gente, ter que dar conta de tudo isso. Às vezes são três operações enormes de logística em um dia só.”

‘Areiões’ e baixo nível de água nos rios

Na pandemia, ante o objetivo de levar equipamentos de saúde aos locais mais remotos, onde não há UTIs e há pouca estrutura de saúde, há três principais desafios.

O primeiro é fazer os equipamentos chegarem a grandes centros, como Santarém. Boa parte do material vem de locais como São Paulo (como as cartilhas educativas) e alguns até foram importados. No início da pandemia, quando os voos estavam todos cancelados, essa dificuldade foi ainda maior.

“Contamos com a boa vontade de companhias aéreas como a Gol e de empresas como a Natura, que emprestaram caminhões. Também pegamos carona com o Exército”, conta Scannavino.

O segundo desafio é levar de polos como Santarém para as aldeias e comunidades.

Caminhão para sobre folha colocadas na estrada

Projeto Saúde e Alegria
Para resolver problemas logísticos, é preciso criatividade, como usar folhagem para desatolar caminhões

O Saúde e Alegria a ajudou a montar dois laboratórios remotos em aldeias munduruku e a distribuir 300 equipamentos de suporte à respiração montados a partir de máscaras de mergulho. Onde o transporte normalmente é feito com barcos e pequenas lanchas, levar equipamentos de suporte à respiração e laboratórios inteiros é um trabalho complexo.

A fundação Fundação Amazônia Sustentável (FAS), que nesta semana lançou uma série de vídeos no YouTube sobre as expedições de prevenção e enfrentamento à covid-19, levou uma série de equipamentos e kits de limpeza e alimentação para a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma. São oito horas de viagem de barco para chegar à reserva, mas mesmo de barco o acesso às comunidades não é garantido.

Isso porque no meio do ano, os níveis dos rios na Amazônia estão mais baixos, o que cria um desafio adicional para o transporte, explica Valcléia Solidade, superintendente de Desenvolvimento Sustentável da FAS. Ou seja, para chegar às comunidades mais distantes é preciso transferir tudo para canoas e pequenas lanchas.

E nem tudo é feito por rio. Para chegar à comunidade indígena de Montanha e Mongabal, no oeste do Pará, “são três dias na estrada, e muitas vezes os caminhões atolam no ‘areião’ (bolsões de areia seca)”, conta Adriana Pontes, da Saúde e Alegria. “Em agosto um caminhão ficou horas atolado no meio do caminho”, conta Pontes.

Quando isso acontece, é preciso descer e procurar grandes folhas de árvores e palmeiras que possam ser colocadas embaixo do carros e caminhões para que eles consigam sair.

Se a temporada é de chuvas, a situação não melhora: o que era um areião vira uma poça enorme de lama.

“O terceiro grande desafio, que agora já melhorou, mas foi muito difícil no começo, foi adquirir insumos que começaram a faltar”, conta Scannavino.

Além dos kits de limpeza e alimentação, o projeto de Sacannavino também distribui outros suprimentos necessários em comunidades mais afastadas. Para os índios mundurukus em Jacareacanga, no extremo sudoeste do Pará, eles mandam material de pesca, como varas de pescar. O material vai de caminhão para a cidade de Itaituba, depois de rabeta (lancha pequena com motor) para a comunidade.

Projetos que fornecem esse tipo de equipamento e garantem “soberania” alimentar às comunidades são uma das prioridades de entidades em tempos normais, e durante a pandemia um dos desafios foi manter esse material chegando.

A entidade internacional Amazon Watch, através do fundo Amazon Defenders Fund (ADF), está apoiando justamente projetos assim: que possibilitem à comunidade a compra de materiais de pesca e agricultura, além de doação sementes orgânicas e construção de poços de água. Foram mais de 10 mil indígenas apoiados desde o início da pandemia.

União e apoio mútuo

Para enfrentar as dificuldades logísticas, projetos como o Saúde e Alegria e entidades como os Expedicionários da Saúde e o Greenpeace se unem e se ajudam mutuamente.

“Também mantemos contato e contamos com o apoio dos funcionários da Secretaria de Saúde Indígena que estão na ponta, que estão nas comunidades”, conta Scannavino.

“Tentamos dar um suporte direto ao sistema de saúde. A Amazônia foi o primeiro lugar a colapsar no Brasil por causa da pandemia justamente por falta de estrutura, por necessidade de atendimento acima do que a estrutura comporta.”

Dezenas de grupos com o interesse de ajudar a população da Amazônia em meio à crise de saúde pública — do Saúde e Alegria à entidade internacional Amazon Watch —contaram com o apoio da mesma entidade: os Expedicionários da Saúde.

“Trabalhamos na Amazônia há 17 anos, então já conhecemos todos os agentes, os parceiros locais, líderes comunitários, o pessoal do ISA (Instituto Socio-Ambiental)”, conta Márcia Abdala, da coordenação dos Expedicionários. A instituição médica montou 12 enfermarias de campanha no alto Rio Negro, logo no início da pandemia, com a organização inteira feita a partir da Campinas, no interior de São Paulo.

Homem do povo yanomami com pintura tradicional coloca máscara descartável

Reuters
Os yanomamis em Alto Alegre, em Roraiama, vivem próximos à fronteira em comunidades de difícil acesso

Como o pessoal da ONG em Campinas não podia viajar por causa da pandemia, contou com voluntários para fazer a logística em diversas paradas até o destino final nas comunidades indígenas. As cargas foram para Manaus em aviões da Azul, e também contaram com caronas nos aviões da Força Aérea e do Greenpeace. Depois foram de barcos para São Gabriel da Cachoeira e de lá para as comunidades.

Para treinar os profissionais de saúde locais, gravações de cursos de capacitação foram feitas e colocadas em pendrives — já que muitos locais não contam com internet.

As enfermarias foram entregues completas, com tudo já pensado para cada localidade. “Tem muita dificuldade de acesso, então não adianta mandar o concentrador de oxigênio, que precisa de tomada, se o local não tem energia. A falta de um único prego pode impossibilitar toda uma operação”, conta Abdala. “Então a gente já manda gerador, alicate, fio, tomada, rede, tudo o que vai precisar.”

Os concentradores de oxigênio são essenciais, explica a Amazon Watch, que levou 40 concentradores juntamente com o Greenpeace os Expedicionários da Saúde aos mundurukus. “Esses equipamentos ajudam a amenizar os sintomas mais graves de crises respiratórias, evitando assim que os indígenas se desloquem até os grandes centros e fiquem expostos à contaminação”, diz a Amazon Watch.

É preciso entender a cultura e as necessidades de cada local também. A maioria das comunidades indígenas recebeu redes, mas povos do grupo je (como kaiapós e xavantes) não dormem em redes, então foram enviadas macas.

“A gente já tinha um projeto de logística pronto, e abrimos para todos, que foram se replicando pela Amazônia. É uma parceria de ajuda humanitária”, conta Márcia.


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Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Covid-19: com risco de contágio, poderemos usar ar-condicionado no verão?

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BBC News Brasil

Mão segura controle, direcionado para aparelho split

Getty Images
Riscos de uso do ar condicionado durante pandemia de coronavírus ganharam atenção com estudo sobre restaurante chinês e discussão sobre a transmissão pelo ar

A cada verão que passa, mais aparelhos de ar-condicionado são comprados no Brasil — nos últimos anos, esse mercado tem crescido no país, apesar da crise econômica e da queda no consumo impactando a venda de outros produtos.

Mas depois da pandemia de coronavírus de 2020, há dúvidas se, com o calor que se aproxima, poderemos ligar esses milhões de aparelhos que estão nas nossas casas, pequenos comércios, lojas, shoppings, carros e transporte público. Afinal, há cada vez mais indícios da transmissão do vírus pelo ar, e em julho um estudo da China surpreendeu ao apontar o ar-condicionado de um restaurante como vilão na infecção de 10 pessoas de três famílias diferentes almoçando ali.

Se você já está suando frio com a possibilidade de não poder usar estes aparelhos, adiantamos logo algumas respostas obtidas com especialistas entrevistados pela BBC News Brasil.

Primeiro, o ar-condicionado em si não é o vilão, mas sim o confinamento coletivo — ou seja, seu uso em ambientes fechados, em que há pouca ou nenhuma circulação de ar, com presença de outras pessoas que podem estar infectadas.

Por isso, com o coronavírus circulando, deixar portas e janelas fechadas enquanto o ar está ligado não é aconselhável. No cenário atual, deverá ser necessário apelar para aparelhos que convivam melhor com estas aberturas, como ventiladores e climatizadores; ou usar o ar-condicionado com frestas abertas; ou ainda o ar-condicionado associado a ventiladores e janelas abertas.

Isso a não ser que o sistema de refrigeração em questão inclua equipamentos de renovação mecânica — o que, segundo especialistas, seria o ideal, mas exige planejamento e altos custos de manutenção, sendo raramente visto no Brasil.

Vamos às explicações — mas vale antes lembrar que ainda há muito a ser conhecido sobre o vírus e estudos em curso, portanto elas não são definitivas.

O restaurante chinês: ar-condicionado central, exaustor e sem janelas

O artigo científico sobre o restaurante chinês que colocou o ar-condicionado sob holofotes foi publicado por pesquisadores do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de Guangzhou no periódico científico Emerging Infectious Diseases, editado pelos CDCs (Centros de Controle de Doenças) dos Estados Unidos.

Eles rastrearam pessoas que almoçaram no dia 24 de janeiro em um restaurante de cinco andares, sem nenhuma janela, com exaustores e ar-condicionado central (sistema capaz de climatizar vários ambientes a partir de um único equipamento; os modelos variam em porte e na tecnologia empregada pra distribuir o ar frio, sendo comumente encontrados em bancos, supermercados e shoppings).

Um cliente, ainda assintomático, tinha viajado de Wuhan, cidade chinesa em que o vírus começou a infectar humanos, para Guangzhou, onde fica o restaurante. Ele e sua família se sentaram em uma mesa ao lado de outras duas, com distância de cerca de um metro entre elas. As três mesas estavam na reta de um aparelho de ar condicionado.

Reprodução de planta mostrando três mesas lado a lado, com ar condicionado também destacado — uma simulação do ocorrido em restaurante chinês

Reprodução/Emerging Infectious Diseases
Pesquisadores chineses rastrearam casos de infecção em 10 pessoas que almoçaram em restaurante de Guangzhou, onde havia ar condicionado central e nenhuma janela

Ao longo dos dias seguintes, o cliente vindo de Wuhan e mais nove pessoas presentes nessas três mesas foram diagnosticadas com covid-19.

Os autores defenderam que a transmissão do coronavírus seja explicada não só pelas gotículas de material infeccioso (como a saliva de uma pessoa contaminada), que têm tamanho maior, correm distâncias menores e duram menos tempo no ar, mas também pelos aerossóis, partículas menores do material infeccioso que ficam suspensas no ar por mais tempo e têm alcance mais distante.

No caso do restaurante em Guangzhou, os pesquisadores dizem que não há certeza que a infecção tenha ocorrido por meio dos aerossóis, já que outros clientes e funcionários no mesmo ambiente não foram infectados. Mas eles sugerem que os aerossóis possivelmente estavam mais concentrados na área das mesas próximas, carregados por correntes do ar condicionado.

A conclusão do artigo recomenda que restaurantes aumentem a distância entre as mesas e melhorem a ventilação.

Diversos cientistas criticam que autoridades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) estão subestimando o potencial transmissivo dos aerossóis (leia: Cientista critica visão da OMS sobre contágio pelo ar: ‘Não deixam a gente se proteger direito’ ). Em julho, um grupo de mais de 200 pesquisadores escreveu uma carta defendendo o reconhecimento dessa via de transmissão.

Uma das autoras da carta, Lidia Morawska, professora da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, respondeu à BBC News Brasil por e-mail não acreditar que os aparelhos de ar-condicionado sejam um problema ou risco em si, e sim a falta de ventilação — que ajuda a diluir contaminantes.

“Não ter ventilação significa a não retirada de partículas infectadas de ambientes internos. O ar pode ser condicionado — o que significa ser esfriado ou aquecido —, mas uma ventilação eficiente precisa ser garantida”, escreveu Morawaska, também consultora da OMS sobre qualidade do ar.

Falando do artigo sobre o restaurante chinês, ela mencionou também o direcionamento do ar.

“As correntes de ar estavam passando pela pessoa infectada e carregaram o vírus para outras pessoas. O mesmo acontece em aviões, por exemplo, onde a corrente de ar é unidirecional, e em outras situações. A questão é a direção da corrente de ar, que pode ser induzida por diferentes fatores, como uma porta aberta.”

Cuidado com ventilação e qualidade do ar é pouco comum no Brasil, apontam entrevistados

Pequeno ventilado apoiado em mesa perto de janela

Getty Images
Coronavírus pode fazer com que precisemos recorrer aos ventiladores com janelas abertas

Entretanto, ao menos no Brasil, é comum que as pessoas se preocupem simplesmente com que o ar-condicionado abaixe a temperatura, e não com as condições de ventilação ou qualidade do ar, diz Oswaldo Bueno, engenheiro e consultor da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava).

Aparelhos mais simples, como do tipo minisplit , não apenas se valem da recirculação do ar — ou seja, pegam o “mesmo” ar de um ambiente para reciclá-lo, o que é um problema se este estiver contaminado —, como normalmente não vêm acompanhados de mecanismos de renovação mecânica do ar. No caso de aparelhos de janela, alguns modelos têm a opção da renovação, mas nem todos.

Até existem opções no mercado de aparelhos para fazer isso, como insufladores (que incluem filtro e ventilação) e caixas de ventilação, mas é “raríssimo” que isso seja uma preocupação em casas ou pequenos negócios, diz Bueno. E deveria ser alvo de maior atenção mesmo antes da covid-19, pois o ar pode concentrar outros vírus, bactérias e fungos, além de gases tóxicos.

“O grande mercado brasileiro hoje é o das pequenas instalações, sejam residenciais ou comerciais. Imagina um consultório de dentista: ele vai ter uma pequena máquina funcionando. Essa máquinas representam cerca de 75% de todo e qualquer equipamento no mercado brasileiro. E todas vezes que essas máquinas são instaladas, não há preocupação com o ar externo”, explica o engenheiro, recomendando que, com a pandemia, esses aparelhos sejam usados com janelas e portas abertas, e até mesmo junto com ventiladores perto destas, ainda que isso faça os ambientes ficarem menos frios que o ideal.

Erick Campos, engenheiro mecânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), do campus de Governador Valadares, escreveu um relatório justamente sobre os impactos da pandemia nos sistemas de ar condicionado na realidade brasileira, em conjunto com o professor Bruno Augusto Guedes, também da UFJF.

Campos diz que, mesmo em cenários em que a ventilação não foi prevista, uma nova adaptação para tempos de covid-19 pode ser inviabilizada por custos, não só com a instalação mas também com o maior gasto de energia. Afinal, a renovação retira ar mais frio e insere o ar externo, geralmente mais quente, então o trabalho para refrigerar é maior. Isso significa também que em muitos casos a potência dos aparelhos pode ser insuficiente para tal adaptação, já que originalmente não foi calculada a entrada de mais ar externo.

“As informações disponíveis indicam que é arriscado usar o ar-condicionado sem esse sistema de ventilação. O risco é que os aerossóis aumentem sua concentração naquele ambiente, e uma pessoa que aspire estas partículas pode ser contaminada. A solução é contraintuitiva, como usar o ar-condicionado com janelas e portas abertas ou, se possível, buscar alternativas para o ar-condicionado por um tempo”, afirma o engenheiro da UFJF, sugerindo ventiladores e climatizadores (ou refrigeradores evaporativos), que convivem melhor com ambientes abertos.

Ele pondera, entretanto, que em casas onde vive uma família os riscos de transmissão acontecem em várias situações, e o contato continua sendo mais importante para a transmissão do coronavírus do que uma eventual transmissão por meio das correntes de ar condicionado. Por isso, em todos os casos, o uso de máscaras e o distanciamento continuam sendo fundamentais.

A importância da ventilação vale também para carros e ônibus, embora alguns veículos tenham no seu sistema de climatização a opção de renovação do ar, com troca entre o interno e externo.

Em relação aos filtros convencionais, que normalmente retêm contaminantes nos aparelhos, as evidências indicam que, para o coronavírus, eles não são tão eficazes — pois o patógeno é leve o bastante para ser aspirado pelo ar-condicionado e ao mesmo tempo pequeno para atravessar os filtros, explica Campos.

Mas Bueno lembra que os filtros são importantes também para conter partículas de outros patógenos e também da poluição, o que contribui para a proteção do sistema respiratório das pessoas — ainda mais os filtros mais eficazes, com eficácia mínima de 50% para partículas menores que 0,4 µm. Entretanto, aparelhos simples como o minisplit tampouco têm filtro, e sim uma tela de proteção que, segundo os especialistas, é insuficiente.

Adaptações em shoppings

Técnico mexe no sistema de ventilação do topo de um prédio

Getty Images
O ideal é que o sistema de ventilação incorpore a maior quantidade possível de ar fresco

Já sistemas maiores, como em prédios comerciais ou shoppings, costumam ter mecanismos de renovação do ar — em que o ar “usado” é extraído do ambiente interno e canalizado para uma unidade de tratamento, geralmente no telhado, onde há mistura com ar fresco.

Esses sistemas costumam permitir até mesmo a regulação da quantidade de ar fresco que será injetada no prédio. No contexto de pandemia, quanto mais, melhor — mas isso traz também mais gastos com energia.

Bueno lembra que o ar externo é tão importante pois sua limpeza acontece naturalmente, com a ajuda da chuva e dos ventos.

Mesmo em locais com renovação mecânica, a abertura para o ar externo também é desejável — em uma cartilha da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, recomenda-se por exemplo que as portas dos shoppings permaneçam abertas e que exaustores em sanitários e cozinhas operem em nível máximo de vazão de ar.

“Instalações completas, funcionando de acordo com seu projeto, tendo plano de manutenção e controle, são saudáveis e vão proteger. Foi prevista a filtragem e a renovação do ar”, explica Oswaldo Bueno, apontando que sistemas de climatização em áreas públicas costumam ser submetidos a mais normas e leis, desde seu planejamento.

Segundo uma lei federal de 2018, todos os ambientes de uso público e coletivo com ar condicionado devem ter um Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC), com controle por exemplo de níveis de concentração de poluentes, um indicador sobre a qualidade do ar. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a fiscalização do plano é de responsabilidade de órgãos de vigilância locais, e não há dados nacionais sobre autuações e multas.

A perspectiva é que o país tenha mais e mais aparelhos de ar-condicionado com o passar dos anos, segundo o relatório internacional The future of cooling , da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), publicado em 2018. Em 2016, o Brasil tinha aproximadamente 27 milhões de aparelhos de ar-condicionado, incluídos aí residenciais e comerciais. A previsão é que, em 2050, o número chegue a 165 milhões de aparelhos.

Mas o país está longe da liderança mundial — apenas China, Japão e Estados Unidos concentram dois terços de todos os aparelhos do mundo.


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Fonte: IG SAÚDE

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