Se eu começasse este texto com estas frases feitas “agradeço primeiramente a Deus, depois à minha família e a todos os que me leram neste ano, desejando a todos um feliz natal e um próspero ano novo”, por certo a maioria dos leitores interromperia a leitura já na segunda linha.
E teriam razão de fazê-lo, pois trata-se da repetição cansativa dos agradecimentos que os que recebem diplomas, condecorações, medalhas, taças ou títulos costumam fazer nas cerimônias de entrega dos certificados de tais homenagens.
A imprensa que deveria ser contra, pois vive da escrita e da fala, insiste nos chavões, palavras longas e de difícil pronúncia que truncam e enfeiam os textos.
Clichês que foram criados há 50 ou 100 anos continuam sendo usados como se fossem bonitos ou atuais. Muitos ainda escrevem “luz no fim do túnel”, “separar o joio do trigo”, “arregaçar as mangas” “não medir esforços”, “fazer o dever de casa” e o maior de todos, “ponta do iceberg”.
Também repisam palavras complexas como “tornozeleira eletrônica”. Não que ela seja errada ou imprópria. O problema é que, sendo difícil de falar, trava o texto e tira-lhe a fluência.
Não temos o SUS para simplificar Sistema Único de Saúde?. IBGE para reduzir o nome do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística?. E-mail para evitar escrever à toda hora electronic mail ou correio eletrônico?. Por que então não apelidarmos a tornozeleira eletrônica simplesmente de TE?. Ela (a TE) está tão presente na população e precisa ser escrita e falada tantas vezes por dia na imprensa que já está merecendo uma simplificação.
Tem ainda inconstitucionalidade e inelegibilidade. Mesmo na leitura silenciosa, a maioria das pessoas ativa uma forma de pronúncia mental que é uma voz interna. Assim, palavras longas ou complexas exigem mais dessa “voz interna” e o cérebro demora para montar o som, travando o ritmo e a compreensão do texto.
Acho que existe uma maldição entre os que falam e escrevem na mídia de modo geral. Parece que alguns acham bonito ou erudito publicar coisas simples de forma empolada. Assim escrevem: “Depois do trânsito em julgado da decisão condenatória, o fulano de tal foi condenado à pena de privação de liberdade e ao uso de tornozeleira eletrônica, por participar, com outros réus, de trama golpista e atentado ao estado democrático de direito.”
São os jornalistas levando para a imprensa os jargões da justiça, quando deveriam traduzi-los e simplificá-los para o gosto e necessidade dos leitores comuns, como eu e você.
Veja esse texto: “Cumprido o devido processo legal, o Supremo Tribunal Federal determinou o impeachment do presidente por inconstitucionalidade dos atos governamentais. Também decretou sua inelegibilidade por oito anos e determinou o uso de tornozeleira eletrônica.
Esta redação pode ser aceitável nos tribunais mas, para o leitor comum, não ficaria melhor: Ao fim do processo, o STF afastou o presidente por agir contra a constituição e impôs-lhe o uso de TE?.
No primeiro caso, foram gastos cerca de 200 caracteres, no segundo, 80.
Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor