GABRIEL NOVIS NEVES

Cabideiros

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Cabideiros

Atrás da porta do quarto havia sempre um cabide improvisado, que guardava chapéus, casacos e até lembranças.

Cada peça pendurada parecia contar a rotina silenciosa de quem chegava cansado e deixava ali um pouco de si.

Hoje não há mais espaço para esses cabides improvisados.

Os cabideiros modernos são uma mão na roda para pendurar a roupa recém-usada, o boné, ou o guarda-chuva.

O da minha casa está no closet do meu dormitório.

Está sempre ocupado com a roupa que acabei de usar, bonés, gorros, cinturões de uso diário.

Na casa do meu avô o cabideiro ficava no hall de entrada, na dos meus pais no dormitório.

É uma peça simples e vertical de madeira ou metálica que serve para organizar e guardar roupas, chapéus, bolsas e guarda-chuvas —um móvel prático que, ao mesmo tempo, decora e dá estilo ao ambiente.

Há algo de nostálgico nos cabideiros e nas histórias que eles guardam, especialmente quando ficam nas partes íntimas das casas.

O da minha casa é cúmplice de segredos entre mim e ele.

Chego a conversar com ele nos momentos de extrema solidão.

É um amigo de confiança, porque não fala.

Se falasse, muitos segredos seriam revelados.

Como é curioso perceber que certas roupas lembram momentos e lugares vividos com emoção!.

Camisas, calças, ternos, gravatas — cada peça ligada a uma lembrança, a um instante.

Abro as portas do guarda-roupa e um filme antigo começa a passar na minha memória.

Isso acontece com fatos ocorridos há oitenta anos ou um pouco mais.

Minha mulher subiu para o andar de cima há dezenove anos, e ainda hoje sinto emoção ao abrir o seu guarda-roupa.

Alguns objetos de uso frequente parecem conservar a presença dos donos — e isso é uma realidade para muitos.

Minha casa é um museu de lembranças.

Cada cantinho provoca em mim doces recordações e, ao mesmo tempo, uma saudade que dói.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado