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Saúde

A polêmica do relatório britânico que estima mortes decorrentes da pandemia

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BBC News Brasil

Bolsonaro
REUTERS/ADRIANO MACHADO/BBC

Presidente usou reportagem do tabloide “Daily Mail” para criticar confinamento, mas cientistas britânicos dizem que interpretação do jornal está errada

Contrário às medidas de isolamento social e ao “lockdown” para conter a disseminação do coronavírus , o presidente Jair Bolsonaro recorreu a uma reportagem do jornal britânico “Daily Mail” para criticá-los.

No domingo (09/08), um dia depois de o Brasil ter superado 100 mil mortos pelo coronavírus , Bolsonaro publicou no Facebook uma reportagem do tabloide conservador e popular no Reino Unido que dizia o seguinte: segundo um relatório do governo, o “lockdown”, ou confinamento, teria matado duas pessoas para cada três que morreram de Covid-19 entre 23 de março e 1 de maio.

“No Brasil , mesmo ainda sem dados oficiais, os números não seriam muito diferentes”, escreveu o presidente. “Lamentamos cada morte, seja qual for a sua causa, como a dos 3 bravos policiais militares executados em São Paulo”, acrescentou Bolsonaro .

Só que a interpretação do Daily Mail em relação ao relatório do governo é extremamente contestada por especialistas no Reino Unido, e ignora um dado importante do documento: caso não tivesse havido medidas (como o lockdown) para impedir a disseminação do coronavírus , 500 mil pessoas teriam morrido.

Além disso, segundo especialistas, a reportagem confunde “mortes causadas pelo confinamento” com “mortes indiretas causadas pela pandemia e seu impacto no sistema de saúde” – duas coisas bastante distintas.

Mortes por covid-19

No Reino Unido , mais de 46 mil pessoas morreram por causa da covid-19, doença causada pelo coronavírus.

São quase 70 mortos por 100 mil habitantes, uma dos piores taxas da Europa. Além disso, o país tem o maior percentual de crescimento de mortes em excesso em comparação com anos passados na região.

“Ainda não sabemos qual foi o impacto do confinamento , mas uma coisa que podemos garantir é que teria sido muito pior sem o confinamento. A mortalidade do Reino Unido teria sido muito mais alta do que é”, diz a BBC News Brasil o estatístico britânico David Spiegelhalter, da Universidade de Cambridge.

A reportagem do Daily Mail toma como base cálculos oficiais do governo, apresentados em um relatório divulgado na sexta (07/08) passada.

Segundo o relatório, entre 23 de março e 1 de maio deste ano, 25 mil pessoas morreram vítimas da covid-19, 6 mil morreram vítimas de outras causas porque não receberam atendimento médico e 10 mil pessoas morreram em asilos depois de receberem alta no hospital.

O relatório também calcula 2,5 mil mortes a menos por causa de mudança de hábitos das pessoas durante a pandemia (mais exercícios físicos, menos acidentes de trânsito, entre outros).

Coronavírus

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Brasil ultrapassou a marca de 100 mil mortos

Covid não diagnosticada

Mortes em excesso são mortes acima das médias históricas. Esse número tem sido usado para calcular o real impacto da pandemia em cada país. A maior parte dessas mortes são de pessoas diagnosticadas com Covid-19. Outra parte são de mortes que podem ter sido causadas direta ou indiretamente pela pandemia.

Mas o número de mortes em excesso do relatório é contestado por especialistas. Muitos acreditam que um grande número de mortes não atribuídas à Covid-19 na verdade foram causadas pelo coronavírus, só não registradas assim.

“Grande parte dessas 10 mil mortes em asilos que não foram registradas como causadas pela Covid-19 provavelmente de fato foram causadas, sim, pelo vírus”, diz Spiegelhalter.

O próprio governo, que foi bastante criticado sobre como tratou os casos de coronavírus em asilos, já admitiu que muitas das mortes “não-covid” nesses espaços para idosos podem ter sido casos de covid-19 não diagnosticada.

Charles Tallack, diretor assistente da Health Foundation, uma entidade filantrópica focada nos serviços de saúde do Reino Unido, compara com números da Nova Zelândia.

“Lá também onde houve uma redução do uso dos serviços de saúde, como no Reino Unido, mas eles não tiveram mortes em excesso além das mortes por coronavírus . Há um problema sobre como isso é registrado”, afirma.

Segundo o economista John Muellbauer, professor da Universidade de Oxford e coautor de um estudo que compara mortes em excesso em diferentes países europeus, “mortes atribuídas à covid-19 no Reino Unido representam cerca de 80% do total de mortes excedentes”.

“Na Espanha, foi menos de 60% e, no Brasil, esse número deve ser ainda menor. Mas acreditamos que muitas mortes causadas de fato pela Covid-19 não foram registradas assim”, disse Muellbauer.

Boris Johnson

BBC
Governo Boris Johnson foi criticado por adotar confinamento tarde demais e por omissão em relação aos asilos, onde grande parte das mortes ocorreram

Não é por causa do confinamento

De qualquer forma, Gabriel Scally, professor visitante de saúde pública da Universidade de Bristol, explica a diferença entre esses dois tipos de morte em excesso causadas durante a pandemia .

Um tipo, diz ele, são as mortes causadas diretamente pelo vírus . O segundo tipo são mortes causadas direta ou indiretamente pela pandemia. “Quando a pandemia não é controlada no início, ela afeta os serviços de saúde e a vida das pessoas, que deixam de ir para o médico porque têm medo de contrair o vírus. Isso pode levar à morte, diz. “Mas não tem a ver com o confinamento, tem a ver com a Covid-19.”

“O confinamento não matou essas pessoas. O coronavírus matou”, afirma. “É um pouco como as escolas terem fechado e a educação dos alunos ter sido afetada. A causa disso não é as escolas fecharem, é o vírus . Se não fosse pela existência do vírus, nada disso teria acontecido.”

Para Spiegelhalter, “as mortes não registradas por covid não são efeito direto do confinamento, mas causadas porque as pessoas não acessaram serviços de saúde”. “Isso não tem a ver com o confinamento.”

“Vamos assumir que os números estejam certos”, diz Tallack. “Não dá para concluir que o lockdown matou mais pessoas. Porque se não houvesse lockdown, o número seria muito maior. E as pessoas teriam o mesmo medo de ir para os hospitals ou procurar ajuda médica, por medo de contrair o coronavírus.”

Além disso, diz ele, sem o lockdown, os hospitais poderiam ter excedido sua capacidade de atendimento, impedindo de fato o tratamento de outras doenças de muitos pacientes.

Sir Patrick Vallance, Boris Johnson e Prof Chris Whitty

Reuters
Reino Unido tem uma das maiores taxas de morte por 100 mil habitantes

Timing, rastreamento, serviço de saúde e comunicação

Ao menos quatro elementos deixaram de ser considerados na interpretação do Daily Mail, avaliam especialistas, e os quatro têm a ver com a forma como o confinamento foi feito, e não com o confinamento em si.

“O ‘timing’ do confinamento é crucial, e não se houve confinamento ou não”, diz Muellbauer.

O governo Boris Johnson , no Reino Unido, foi bastante criticado por ter adotado um confinamento considerado tardio. Um confinamento feito com maior antecedência teria poupado mais vidas, impedido a maior circulação do vírus e permitido que a vida das pessoas voltasse ao normal mais rapidamente, alegam especialistas.

Muellbauer compara os números do Reino Unido com os da Alemanha, que teve apenas 5% de mortes em excesso em relação ao número de mortes esperadas. Um dos elementos que colocam a Alemanha à frente do Reino Unido, que teve 55% mortes em excesso, foi um confinamento mais cedo.

Além disso, ressalta, o país impôs testagem em massa e rastreamento de contatos, algo que o Reino Unido não fez de imediato e até hoje o sistema de rastreamento do país é considerado falho e insuficiente por muitos.

E o serviço de saúde da Alemanha era mais robusto: o país aumentou o estoque de equipamentos de proteção para profissionais de saúde antes do que em outros países, tinha três vezes mais leitos de hospital que o Reino Unido e muito mais ventiladores.

“Se profissionais de saúde são protegidos com eficácia, uma menor parte deles fica doente, afetando a capacidade de atendimento do sistema de saúde, e menos pacientes são infectados”, afirma Muellbauer.

“As pessoas também ficam com menos medo de contrair o vírus dos profissionais de saúde quando vão procurar hospitais por outras condições”, diz ele.

Scally concorda: o medo das pessoas de contraírem coronavírus nos hospitais se justifica quando se leva em conta que no Reino Unido houve uma crise de falta de equipamentos de proteção para profissionais de saúde, muitos também acabaram sendo vítimas do coronavírus.

Comunicação ruim

Por fim, os especialistas apontam que, essencialmente, o problema pode ter sido mais de comunicação do que o do confinamento em si.

“Devemos buscar fazer as pessoas se sentirem mais confiantes de tomar a decisão de ir ao hospital caso precisem. Nosso sistema de saúde não foi completamente fechado”, diz Tallack. “A questão é sobre comunicação, não sobre confinamento ou não confinamento.”

Scally concorda. “As pessoas têm que medir os riscos. Se você sofre um infarto, é lógico que precisa ir para o hospital, porque a chance de morrer de infarto provavelmente é maior do que a de contrair covid-19. Não tem uma solução fácil”, diz.

“Mas pode ter a ver com problemas de comunicação. É preciso deixar mais claro que as pessoas podem se comunicar com seu médico ou os serviços de emergência para verificar qual é a melhor saída para sua situação”, diz Scally.

Para o oncologista Ajay Aggarwal, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, o problema do excesso de mortes causadas pelo confinamento também pode ter mais a ver com a forma como o confinamento foi feito.

Aggarwal estudou o impacto da resposta à crise da Covid-19 no diagnóstico de câncer na Inglaterra, e chegou à conclusão de que 3.500 pessoas poderão morrer nos próximos cinco anos vítimas de câncer de mama, pulmão, intestino ou de esôfago por demora para serem diagnosticados.

“Talvez não tenhamos considerado muito os efeitos indiretos quando comunicamos o lockdown ou quando decidimos a maneira como ele seria feito”, diz.

“Talvez pudéssemos ter chegado a um equilíbrio para tentar mitigar os efeitos indiretos do lockdown, tentando mudar nossa abordagem e informado as pessoas sobre os riscos reais um pouco mais cedo”, acrescenta ele.

Falar sobre a mortalidade, saúde e os riscos reais é um “debate público bastante difícil”, observa.

Se você tem sintomas de algo que pode ser uma doença grave e pode correr o risco de contrair coronavírus no hospital, vale a pena ir checar isso? “Talvez sim”, diz Aggarwal, porque em muitos casos o risco de contrair a covid-19 teria sido menor do que o risco de morte por falta de diagnóstico ou tratamento.

No Reino Unido, a mensagem principal do governo era: “fique em casa, salve vidas, proteja o NHS (sistema de saúde universal britânico)”.

“É uma mensagem forte. As pessoas ainda estão escutando isso, e reverter isso é muito difícil. Se você interromper todos os exames de rotina, haverá problemas, e isso será relacionado às medidas de confinamento, porque você mudou todo o sistema de saúde propositalmente.”

Tudo isso, diz ele, tem a ver, é claro, com as capacidades dos sistemas de saúde de cada país e com a capacidade de adotar outras medidas que podem ajudar a combater a disseminação do coronavírus .

Para muitos especialistas, o Reino Unido falhou em adotar o rastreamento de contatos de pessoas infectadas por coronavírus, medida que talvez tivesse amenizado o confinamento que foi preciso impor.

No Brasil , a maior parte das regiões tampouco adotou um sistema assim.

Scally concorda: “O governo britânico não pode ficar fora dessa. Se tivessem agido com mais rapidez, feito o lockdown antes, ou usado o sistema de rastreamento de contatos, o vírus teria sido controlado mais cedo.”


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Saúde

‘Apenas a vida de vocês importa?’: o desabafo de quem continua isolado em meio a aglomerações no país

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BBC News Brasil

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Paula Adamo Idoeta – Da BBC News Brasil em São Paulo

Bar lotado no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, logo após reabertura de bares e restaurantes na cidade em julho
Bar lotado no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, logo após reabertura de bares e restaurantes na cidade em julho

Andre Coelho/Getty Images

Luciana Viegas estava em um quarto de hospital ao lado do filho de três anos, que respirava com a ajuda de um balão de oxigênio — com suspeita de covid-19, depois negada por um teste —, enquanto via no seu celular fotos de amigos em praias e bares.

A professora de educação básica em Várzea Paulista (SP) resolveu desabafar.

“Eu me tranquei durante cinco meses. Eu não fui ao mercado durante quase dois meses. Eu não fiz festa, eu não participei de festa. Cinco meses com duas crianças full time , sobrecarga, choro no portão querendo passear na rua. Segurando firme”, escreveu ela em 6 de setembro, em um tuíte que acabou viralizando.

“A gente se cuidou, se preservou. A gente deixou de ver uma pá de gente. Mas para vocês tá suave, né? (…) Só não venha me dizer que você está preocupado. Porque vocês não estão. Não ligam para a vida de ninguém. Apenas a vida de vocês importa.”

Ela diz que era um recado principalmente para amigos que haviam acompanhado o sofrimento de Luciana em dezembro de 2019, quando seu mesmo filho havia sido internado na UTI infantil com uma infecção respiratória. Autista e asmático grave, ele chegou ao hospital com baixa saturação de oxigênio e quase teve de ser intubado.

“A gente já passou por essa linha tênue de quase perder o filho por uma doença no pulmão, de ver carrinho de parada cardíaca (desfibrilador) ali, de o médico perguntar se a gente tem fé, e foi desesperador. Meu filho tentava respirar e não conseguia. Ficou uma semana comendo por sonda porque não tinha força no pulmão para comer ou mamar”, conta Luciana à BBC News Brasil.

“Isso mudou a gente, e não quero que ninguém passe por isso, ainda mais se você pode causar ou pode evitar (a transmissão).”

Luciana Viegas com o marido e filhos

Arquivo pessoal
Luciana Viegas com o marido e filhos: para proteger a saúde o menino, que tem asma severa, família segue em isolamento rígido

Por isso, Luciana e sua família — o filho de três anos, que já teve alta do hospital, a filha de dois anos e o marido — se mantêm em uma quarentena rígida desde março, totalmente isolados do resto do mundo. Tanto que Luciana ainda não consegue entender totalmente o que fez o filho adoecer dessa vez.

O marido havia parado há meses de trabalhar como motorista de aplicativo, e ela dá aulas online em casa. As vistas da mãe dela são de longe, no portão; os passeios com as crianças, antes frequentes nos fins de semana, agora são só dentro do carro.

“A gente tá se virando. Mas é um estresse”, conta Luciana à reportagem.

“Quando fiz o tuíte, estava cansada. Porque vi amigos que acompanharam tudo o que a gente passou no ano passado, e que estão agora saindo, indo para a praia, como se nada estivesse acontecendo, como se não fosse importante (manter o isolamento social) pelas outras pessoas. Fiquei tão chateada com isso. Não ficar em casa é muita sacanagem.”

Queda nos índices de isolamento

Luciana e sua família personificam um grupo cada vez menor, menos visível e mais frustrado diante das cenas de aglomeração pelo país e de uma pandemia que não arrefece: o das pessoas que continuam seguindo à risca a quarentena e o isolamento social, para proteger a si mesmas ou pessoas próximas de contraírem o novo coronavírus.

A pesquisa mais recente do Instituto Datafolha sobre o tema, em 19 de agosto, apontava que os níveis de isolamento social estavam no patamar mais baixo desde o início da pandemia.

Em abril, mais da metade dos entrevistados dizia que só saía de casa quando era inevitável. Em agosto, a parcela que caiu para 43%.

A fatia de quem está totalmente isolado e não sai de casa de jeito nenhum caiu de 21% em 17 de abril para 8% em agosto.

Embora esse grupo esteja diminuindo, sua importância foi e ainda é fundamental para manter sob controle os níveis da pandemia no Brasil, explica o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Ele acha que, se não tivesse havido o esforço (mesmo que desigual) de isolamento social nos últimos meses, o já altíssimo número de mortes no Brasil teria sido exponencialmente maior.

“As pessoas em isolamento tiveram um papel muito importante, para elas mesmas e para as demais”, diz Lotufo à BBC News Brasil.

“Basta ver o exemplo de Manaus (no início da pandemia), onde o vírus teve um avanço incrível, matando tanta gente tão rapidamente, em comparação com São Paulo, onde houve mais disciplina no isolamento social”, opina. Apesar de São Paulo ser o Estado com o maior número de mortes do país, seu sistema de saúde não chegou a colapsar, como ocorreu com o amazonense.

Um homem observa o mar Mediterrâneo em Nice, na França, em março

VALERY HACHE / Getty
“As pessoas em isolamento tiveram um papel muito importante, para elas mesmas e para as demais”, diz epidemiologista

Ausência de perspectivas

No Rio de Janeiro, o tuíte escrito por Luciana Viegas levou às lágrimas a estudante de psicologia Brenda Cavalcante.

“Me doeu na alma o que ela (Luciana) escreveu, que, apesar de todo o esforço, ela não sabia se o filho estava ou não com covid”, conta Brenda à reportagem.

Distantes entre si e sem se conhecer, as duas vivem situação semelhante: também em isolamento social rígido ao lado da filha de seis anos, Brenda está há seis meses sem ter contato físico com os pais (que têm pressão alta e, portanto, são do grupo de risco) e há sete meses sem ver a avó, de 92 anos. E não vê nenhuma luz no horizonte que indique que isso vá mudar em breve.

“O mais difícil é não ter perspectiva”, diz. “Meus pais são apaixonados pela minha filha, mas só a veem da varanda. O contato físico com eles faz falta demais. E não sei se vou ter a chance de ver a minha avó com vida ainda.”

Brenda Cavalcante

Arquivo pessoal
”Eu realmente não sei como vou conseguir voltar a viver de maneira normal, diante de tanta decepção com o coletivo”, diz Brenda Cavalcante, ainda em quarentena total

E, da mesma forma, Brenda assiste com frustração às cenas de aglomeração no Rio.

“Acabei de ver no Twitter que a praia estava lotada ontem (13/9). Eu realmente não sei como vou conseguir voltar a viver de maneira normal, diante de tanta decepção com o coletivo. Com o governo nem se fala. Mas as pessoas não só fazem (aglomeração), como fazem questão de postar nas redes sociais. E eu que nem vejo a minha família. Mal vou ao mercado”, diz.

“Eu tento não julgar, porque sei que as pessoas estão sem perspectiva, e isso acaba banalizando (as mortes na pandemia): ‘morreu de covid’. (…) Mas por que a saúde mental deles vale mais do que a minha? A minha filha de seis anos tem medo de chegar perto da avó para não deixá-la doente, e quem tem 40 anos não pode se policiar mais e se isolar?”

O que dá para flexibilizar?

É bom ressaltar que não costuma ser fácil decidir, em âmbito individual, o que pode ou não ser flexibilizado na rotina familiar, profissional e de lazer – em um momento em que o número diário de casos e mortes continua elevado, embora esteja em um patamar menor do que há duas semanas.

Praia no Rio em 3 de setembro

EPA
Pesquisa de agosto apontava que níveis de isolamento social estavam no patamar mais baixo desde o início da pandemia

“Temos de ter muito cuidado, porque a Europa, com sua alta no número de casos, mostra que a doença volta mesmo”, afirma o epidemiologista Lotufo. “Apesar que, aqui no Brasil, já tivemos uma intensidade tamanha da pandemia que talvez (o repique) não seja igual (ao dos europeus).”

Lotufo lembra que atividades ao ar livre, com máscara, distanciamento social adequado e uso constante de álcool gel para higienização oferecem baixo risco de contaminação. Isso porque a livre circulação do ar ajuda a dissipar aerossóis e gotículas potencialmente infecciosas – ao contrário de de ambientes fechados, onde o compartilhamento de ar entre as pessoas é muito maior.

Nas praias, embora haja livre circulação de ar, o problema está na grande quantidade de pessoas próximas umas das outras, como tem sido visto em parte do litoral brasileiro nos últimos fins de semana e feriados.

A Associação Médica do Texas preparou um guia avaliando diferentes atividades do dia a dia e quais riscos elas oferecem para a disseminação do novo coronavírus.

Ir à praia, por sinal, é considerada uma atividade de risco moderado pelos autores.

Gráfico de risco de contágio por Covid-19 segundo a atividade realizada

BBC

Exaustão da quarentena

No caso de Luciana Viegas, o pulmão frágil do filho faz com que qualquer contato com o mundo externo ainda pareça muito assustador, principalmente porque as recentes idas ao hospital ainda estão frescas na memória da família.

Mas isso não quer dizer que o cotidiano com as crianças esteja fácil.

“Eu estou exausta da quarentena, meu marido também. Às vezes precisamos pegar o carro para dar uma espairecida, ou durmo 12h para descansar. A gente tem um motivador, que é a vida do meu filho, e saber que o que eu não quero que aconteça com meu filho, eu também não quero que aconteça com os demais”, diz ela.

“Se eu fosse solteira, sem filhos, e dependesse puramente da minha empatia, não sei se seria ‘chata’ e ‘fiscalizadora de quarentena’. Mas é porque as pessoas não passaram por esse terror que eu passei. Meu desabafo (no Twitter) foi justamente para os amigos que me viram noites e noites chorando desesperada. Ao mesmo tempo, fiquei feliz de ver que várias outras pessoas estão passando pelo mesmo que eu. Que bom que a nossa voz vai ser ouvida, porque as notícias são só sobre as pessoas que estão saindo da quarentena.”


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Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Vítimas recentes da dengue podem ter imunidade contra a Covid-19

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Mosquito transmissor da dengue
Venilton Kuchler / ANPr

Mosquito transmissor da dengue

Um estudo preliminar do cientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor catedrático da Universidade Duke, na Carolina do Norte, mostra que lugares onde parte da população teve cass recentes de dengue demoraram mais para que fosse registrada a transmissão comunitária do novo coronavírus (Sars-CoV-2), responsável por causar a Covid-19.

A pesquisa ainda não passou pela revisão dos pares nem foi publicada em uma revista científica, mas indica que existe uma possível interação imunológica entre o vírus causador da Covid-19 e do da dengue.

Desde o início da pandemia, Nicolelis se dedica a estudar o comportamento do novo coronavírus no Brasil. Ainda de acordo com a pesquisa, há a possibilidade de que vacinas aprovadas ou em desenvolvimento para a dengue possam provocar alguma forma de proteção contra o novo coronavírus.

“Essa descoberta surpreendente levanta a intrigante possibilidade de uma reação cruzada entre o vírus da dengue e o SARS-CoV-2. Se comprovada correta em futuros estudos, esta hipótese pode significar que a infecção pela dengue ou uma eventual imunização com uma vacina eficaz e segura para dengue poderia produzir algum tipo de proteção imunológica para SARS-CoV-2, antes de uma vacina para SARS-CoV-2 se tornar disponível”, diz um trecho do estudo.

Em entrevista à agência de notícias Reuters, o pesquisador disse que já existem trabalhos mostrando que algumas pessoas que testam positivo para o novo coronavírus não tem o vírus no organismo, o que sugere que essas pessoas produzem um anticorpo que age nas duas doenças.

“Isso indica que existe uma interação imunológica entre os dois vírus que ninguém poderia esperar, porque os dois vírus são de famílias completamente diferentes”, afirmou.

Fonte: IG SAÚDE

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