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Opinião

SÉRGIO CINTRA – A parábola da ilha desconhecida

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SÉRGIO CINTRA (*)

“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”, afirmou José Saramago, em alusão ao ­­­­­­­”O conto da ilha desconhecida”, uma alegoria que leva à reflexão sobre a inquietação humana, o desconforto com o lugar comum, o inconformismo com a realidade. Mesmo que, no século XXI, haja a pasteurização do comportamento; alguns ainda teimam ir à busca de ilhas desconhecidas. São esses poucos que, atualmente, estão estarrecidos e boquiabertos com o avanço não só da mediocridade como também da insensatez que se estabeleceu em parcela significativa da sociedade brasileira.

Confúcio e Sócrates, contemporâneos que nunca se conheceram e nem  souberam de um ou de outro, disseram que o exercício da liderança deve ser exercido por quem tenha merecimento, ou seja, capacidade. Esta semana, foi disseminado nas mídias sociais um texto intitulado “Sincerídio de Bolsonaro”. Li-o  algumas vezes e não constatei nada de extraordinário, a não ser o uso de sofismas (argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade)  de maneira intensa, com o objetivo de pacificar “verdades” a respeito do “nosso” presidente. Há, ali, estultices memoráveis como: “Sem vergonha de errar, de cometer gafes, de ser ridículo, nosso Presidente acaba acertando até quando erra,” (…); “Sem papas na língua vai na sua toada com avanços inéditos com um Ministério absolutamente técnico,” (…); “Na diplomacia uma aproximação inédita com os EUA e um retorno ao protagonismo diplomático com o Brasil liderando o acordo do Mercosul com a Comunidade do Euro, um sucesso.” Três afirmações que, no mínimo, insultam até o leitor mediano: acertar mesmo errando; ministério absolutamente técnico; protagonismo diplomático. Três falácias. Ao contrário do que tenta dizer Renato Cunha Lima Filho, seu texto não resiste a uma análise mais acurada; nele, quase tudo é facilmente contestado com o simples uso do raciocínio lógico e da Análise do Discurso (Pêcheux).  Porém, sustentado pela tábula rasa que grasna na contemporaneidade, o escriba, infelizmente, obtém êxito em seu intento.

Ademais, a insensatez domina. Tanto que se vê a crescente profusão de atitudes que corroboram a assertiva anterior, por exemplo: o nós versus o eles; a misoginia; o racismo; a homofobia; a intolerância, inclusive religiosa etc. São parvoíces para todas as degeneradas distopias atuais. Horácio, poeta romano do séc. I a.C, diante do avarento, vaticinou: “de te fabula narratur” (é de ti que trata essa história). Sim, parte significativa da sociedade está, terrivelmente, doente e, ao mesmo tempo, incapaz de sair da “ilha” para perceber isso. O desatino vulgarizou-se sobremaneira e isso fez com que os mais perversos discursos fossem encarados com naturalidade; com que as maiores aberrações passassem a ser vistas com normalidade. Mas como explicar essa mudança comportamental em uma democracia? Talvez seja possível tendo como referência o pensamento de Louis Althusser em relação à ideologia. Para ele, essa funciona, basicamente, recrutando sujeitos concretos entre indivíduos concretos, essa sensação de pertencimento a determinados ritos, essa identificação pela simples interpelação do outro provoca a transformação do indivíduo em sujeito. A partir daí, esse sujeito vê ideologias  nos demais lugares, menos no seu lugar. Assim, é factível  explicar a dicotomia que se apoderou da sociedade brasileira.

Aparentemente, portanto, o problema parece insolúvel: ilhas e mais ilhas de verdades absolutas. Em Saramago, o rei (em letra minúscula) absolutista não deve ser posto em cheque; seus lacaios aumentam sua miopia; porém, ele cede à petição do homem que queria um barco para ir à ilha desconhecida, mesmo que ela jamais houvesse. De posse da caravela, ainda que não soubesse navegar; todavia, ancorado na tenacidade da  mulher da limpeza e na infinita capacidade de sonhar, o descobridor de ilhas desconhecidas concebe a caravela-ilha que, com a maré, dar-se-á ao mar. E, como diria Fernando Pessoa, “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/
Mas nele é que espelhou o céu”.

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(*) Sérgio Cintra é professor de Redação e Linguagens em Cuiabá.

[email protected]

 

 

 

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Opinião

JOSÉ ANTONIO LEMOS – Base aérea em Cáceres

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O presidente Jair Bolsonaro em sua “live” do último dia 19 trouxe o ministro da Justiça e o superintendente da Polícia Federal no Amazonas mostrando sua preocupação com a segurança das fronteiras brasileiras, não só em relação às drogas e armas, como em relação à saída de nossas riquezas naturais para o exterior.

Falou da recente instalação por seu governo de um radar em Corumbá (MS) visando detectar aeronaves suspeitas, em especial no pantanal. Lembro que em 2019, tão logo empossado, o secretário de Segurança de Mato Grosso anunciou que levaria este assunto ao governo federal, colocando na época inclusive a necessidade de instalação de uma base aérea na região, assunto capital para as cidades brasileiras e, em especial para as mato-grossenses.

A proposta da base aérea então levantada pela administração estadual é consistente pois Cáceres dispõe de uma pista de pouso subutilizada com 1.850 x 30m capaz de receber jatos, em posição estratégica aos 1.100 Km da fronteira bem como em relação ao Pantanal, que vem servindo de base receptora de cargas de drogas e armas lançadas por pequenos aviões ou vindas por terra mesmo. Seria o começo de uma revolução na segurança da fronteira e na vida de nossas cidades.

Recordo ainda que em 2009, entre os inúmeros casos semelhantes que se sucedem, a Polícia Federal apreendeu no Trevo do Lagarto um carregamento de armas modernas e poderosas destinadas ao Rio de Janeiro. O transportador informou que aquela era a terceira viagem desse tipo que fazia. Quantas outras cargas já teriam passado?

Na semana anterior fora apreendida uma enorme carga de cocaína e no mês anterior havia sido descoberta uma fazenda no pantanal usada para distribuição de drogas que chegavam por avião. Claro que essa situação já vinha de muito e certamente continua até hoje de diversas formas em volumes muito maiores, justificando a preocupação do presidente e seu ministro.

Problema básico das cidades brasileiras, a insegurança pública lhes impõe um quadro de medo e violência jamais visto. Aqui esta situação é fomentada e se agrava pelos tráficos de drogas, armas e veículos, que se articulam em poderoso esquema nacional e internacional submetendo aos seus interesses e caprichos povos do mundo inteiro, em especial os jovens. Como pensar em qualidade de vida urbana numa situação destas?

Jamais será elogiado o bastante o trabalho difícil e arriscado das polícias militar e civil do estado, Polícia Federal, polícias rodoviárias federal e estadual, e pelo Exército, bem como a importância do apoio governamental a essas ações terrestres na fronteira.

Mas, no nosso caso é forçoso lembrar que Mato Grosso é um dos únicos estados do Brasil a não dispor de uma Base Aérea. Mato Grosso do Sul, Rondônia e Goiás têm, e esta vizinha à de Brasília. É claro o absurdo desta situação considerando os 1.100 quilômetros de fronteira do estado, dos quais 700 em fronteira seca, e a equivalência de seu território a mais de 10% do território nacional.

O problema se agrava com as rotas dos traficantes migrando para o único “rombo” fronteiriço ainda existente e que fica aqui. Só a presença do brasão da Força Aérea Brasileira seria, sem dúvida, um poderoso elemento dissuasivo ao crime. Que fosse a princípio ao menos um destacamento, com uns drones e alguns Tucanos de prontidão.

Será que o presidente Jair Bolsonaro e seu staff pensam nesta situação aflitiva vivida pela gente de Mato Grosso, justo o estado líder nacional do agronegócio tão cantado e decantado por sua importância produtiva e exemplo de povo que não parou de produzir mesmo com a pandemia? Uma base aérea em Cáceres seria um projeto do grande interesse para todos os brasileiros pois a brecha em nossa fronteira é uma das principais fontes de abastecimento do crime em todo o Brasil.

José Antonio Lemos dos Santos é arquiteto e urbanista, é conselheiro licenciado do CAU/MT.

 

 

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DIRCEU CARDOSO – No segundo turno, vote no “menos pior”, mas vote!

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A soma da abstenção e dos votos nulos e brancos, que no resumo significam a desistência do eleitor em participar da eleição, é maior do que os votos dos primeiros colocados – a maior parte deles já eleita em primeiro turno – em 483 municípios brasileiros, entre eles 18 das 26 capitais que elegem prefeitos e vereadores. Em São Paulo, 3,6 milhões de eleitores  deixaram de comparecer, anularam o voto ou votaram em branco no ultimo dia 15. Isso significa mais do que a soma dos votos obtidos pelos dois concorrentes levados ao segundo turno, Bruno Covas (1.754.013) e Guilherme Boulos (1.080.736) mais o terceiro colocado, Márcio França (728.441 votos). O que está acontecendo com o nosso povo? O que estaria levando tantos cidadãos a abrir mão do seu direito de eleger o governante de sua cidade, estado ou até do próprio país?

Nas localidades com menos de 200 mil eleitores ou até nas maiores onde um dos concorrentes obteve mais de 50% dos votos, não há mais o que fazer. Quem não votou, anulou o votou em branco, ficou fora e, moralmente, não terá o direito de reclamar quando não concordar com as atitudes dos escolhidos. Mas nos 57 municípios onde haverá eleição de segundo turno, ainda há a possibilidade de regeneração da participação popular. É importante que o eleitor compareça e vote, se não tiver motivação para escolher um dos finalistas, que vá por exclusão, votando naquele que entender “menos ruim”. Questão de lógica.

Quando um contingente tão grande da massa eleitoral deixa de votar, o resultado da eleição resta enfraquecido, embora legitimado pela legislação eleitoral que, comodamente, ignora abstenção, brancos e nulos. Ele manifesta a vontade dos que votaram, mas não do eleitorado, já que significativa parcela dele foi omissa.

A multidão dos desinteressados acaba, ainda, por favorecer as posições extremadas e radicais – tanto à direita quanto à esquerda – que, insufladas por  idéias e pregações do meio, comparecem e votam nos seus representantes. É por isso que, em algumas situações, candidatos sem qualquer chance aparente, acabam despontando com possibilidade até de se elegerem. Isso é um mal porque, mesmo que cheguem ao poder, não terão a sustentação da maioria da população, que é aquela que deixou de comparecer às urnas.

O eleitor paulistano – e das demais 56 cidades que farão segundo turno de prefeito no próximo domingo – deve por a mão na consciência, recorrer ao pouco de cidadania que ainda deve lhe restar, comparecer e votar. Por pior que o faça, ainda será melhor do que ficar à margem do processo e deixar que os outros – especialmente os radicais – escolham quem vai nos governar durante os próximos quatro anos. Pensem nisso e votem…

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

[email protected]                                      

 

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