KAROL GARCIA

A obsessão pelo mito

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A obsessão pelo mito

A política sempre foi narrativa antes de ser sobre gestão. O que muda, no tempo presente, é a velocidade, a escala e o poder imagético com que essas narrativas são construídas e difundidas. Poucas ações recentes traduzem isso com tanta precisão quanto a caminhada promovida pelo deputado federal, Nikolas Ferreira, encerrada no último domingo. 

Divulgada como um gesto de fé, resistência e reconexão com o povo, a ação percorreu cidades ao longo de mais de 200 km, mobilizou apoiadores, produziu imagens cuidadosamente enquadradas e gerou um ativo valioso: pertencimento e seu efeito na sociedade. 

Janeiro não foi um mês aleatório para a escolha do deputado “caminhar”. Após exatos três anos dos eventos de 8 de janeiro, o que soa como uma provocação especialmente ao Supremo Tribunal Federal, e também é um mês, historicamente, parado por ser recesso no legislativo.  Propicio para gestos performáticos de alto impacto narrativo, quando se tem pouca notícia a explorar. E aqui quero aprofundar o tema desta análise. 

A humanidade, desde sempre, é movida por mitos. Joseph Campbell já descrevia a “jornada do herói” como um arquétipo recorrente, alguém que surge em meio ao caos, atravessa provações, caminha com o povo e retorna investido de sentido. 

A caminhada ativa exatamente esse roteiro. O herói não aparece em palanques, mas no chão. Não fala apenas, caminha. Não governa, sofre junto. Do ponto de vista da Neurociência social, o cérebro humano responde mais intensamente a histórias do que a argumentos. Movimento, sacrifício e repetição visual ativam áreas ligadas à empatia e à identificação. 

Exemplos?. Temos aos montes. Martin Luther King Jr. não entrou para a história apenas por seus discursos, mas por ter caminhado literalmente ao lado do povo negro americano. Marchas, braços dados, ruas ocupadas. O gesto físico reforçava a mensagem moral: o líder não fala de cima, ele atravessa o caminho junto.

O mesmo se aplica à política institucional. Abraham Lincoln foi alçado à condição de mito fundador não apenas por decisões de Estado, mas pela narrativa construída em torno de um homem simples, autodidata, que emergiu em meio à maior fratura da nação americana. 

No Brasil, esse arquétipo se repete. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva construiu sua força simbólica a partir da narrativa do retirante, do operário, do homem que venceu a fome e voltou para resgatar os que ficaram para trás. Não por acaso, sua comunicação sempre privilegiou emoção, identificação e pertencimento antes de técnica.

O próprio ex-presidente da República, Jair Bolsonaro (padrinho de Nikolas), emergiu, em outro contexto, como símbolo de ruptura, explorando a polarização, a linguagem simples, a oposição ao sistema e a construção de um “nós contra eles”. 

O que essas figuras têm em comum obviamente não é ideologia, mas arquétipo. Todas emergem em contextos de crise coletiva, quando a sociedade revela um traço recorrente: a necessidade de alguém que represente esperança, ordem e direção. 

O mito nasce menos do líder e mais da carência social que o convoca. Ele não nasce do nada, mas é construído quando a sociedade está emocionalmente disponível para crer. A Bíblia, inclusive, está repleta de líderes que caminham com o povo para consolidar autoridade simbólica antes de exercer poder formal. O que muda são os meios. O arquétipo permanece. 

Do ponto de vista da reputação de Nikolas, ação reforçou atributos já associados à sua imagem: juventude, fé, disposição, enfrentamento. Do ponto de vista do neuromarketing político, entregou ouro: narrativa forte, replicável, emocionalmente carregada, capaz de valer mais do que discursos inteiros, visto a força dos “cortes” de redes sociais. Do ponto de vista de resultados coletivos, o tempo dirá. Mas uma coisa é certa quando olha-se para o indivíduo: ele está reeleito e se fortalece como líder da extrema direita. 

E, falando em eleições, há também um elemento de urgência estratégica que preciso citar: a extrema direita brasileira corre contra o tempo. Ainda não há consenso em torno de um nome viável para a disputa presidencial futura. Nesse vácuo, surgem figuras capazes de manter a chama acesa, preservar a base mobilizada e oferecer esperança simbólica. Nesse sentido, Nikolas não apenas caminha; ele ocupa espaço narrativo. 

Ele entendeu que em tempos de crise quem domina a narrativa domina o imaginário. Em um ano eleitoral, o deputado oferece mais do que narrativa: entrega uma aula prática de comunicação política para os que ainda tateiam em busca de um viés claro para se apresentar ao eleitor e seguem à margem, disputando restos de atenção e pegando carona com que sabe conduzir. 

O fenômeno não precisa ser celebrado nem demonizado. Precisa ser compreendido. Porque, no fim, a caminhada diz menos sobre o homem e mais sobre o país que precisa, mais uma vez, acreditar que alguém pode tirá-lo do buraco. E, enquanto essa necessidade existir, novos mitos continuarão a surgir sempre no momento exato em que o silêncio coletivo pede um salvador.

Karol Garcia é jornalista, mentora e estrategista em reputação