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A fuga de uma vítima de violência doméstica em cinco objetos

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BBC News Brasil

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Eleanor Lawrie – BBC News

A fuga de uma vítima de violência doméstica em cinco objetos

Algumas pessoas podem ficar felizes com a perspectiva de serem temporariamente afastadas do trabalho, mas, para Victoria*, essa era uma perspectiva assustadora.

“Lembro daquele pavor em meu estômago dirigindo do trabalho para casa no último dia. Pensando: ‘Quanto tempo até eu poder escapar ?'”

Victoria já sofria há anos com o abuso de seu parceiro antes de a pandemia do coronavírus virar o mundo de ponta cabeça. Mas quando o Reino Unido entrou em lockdown em março, a vida dela se tornou ainda mais difícil.

Essa é uma situação que vítimas de abuso doméstico sofreram em todo o mundo, o que as Nações Unidas têm chamado de “pandemia das sombras” — um dos focos do projeto BBC 100 Women este ano.

Para cada três meses em que o lockdown se prolonga, é estimado que mais 15 milhões de mulheres em todo o mundo sejam afetadas por violência vinda de seus parceiros.

‘Embora ele estivesse sentado lá o tempo todo, eu podia bloqueá-lo um pouco’

Desde que ela consegue se lembrar, o parceiro de Victoria tentou controlar cada um dos passos dela.

Ele telefonava 10, 20, 30 vezes por dia. Um dia, quando o telefone dela estava em modo silencioso no andar de cima de casa, ele mandou uma amiga de sua mãe para ver como ela estava.

Antes da pandemia, ela quase conseguiu ir embora – trabalhando em turnos noturnos cansativos para economizar o dinheiro do depósito para alugar seu próprio apartamento. Mas seus planos foram frustrados quando um de seus filhos foi hospitalizado.

A essa altura, o parceiro de Victoria havia cortado o contato dela com amigos e familiares.

E agora o casal estava preso em casa, juntos 24 horas por dia, sete dias por semana. Eles não podiam sair nem para fazer compras ou exercícios, porque o problema de saúde da criança obrigava a família a se proteger.

Eles tinham um jardim, mas o parceiro de Victoria se recusava a deixá-los usar o espaço. Ele dizia que era possível pegar coronavírus mesmo em ambiente aberto, longe de outras pessoas.

Victoria então tentou atravessar os longos dias fazendo um curso online. Mesmo assim, ele se sentava ao lado enquanto ela estudava, e checava seu histórico de navegação na internet depois.

A tensão se tornou tão insuportável que Victoria pensou em suicídio. Ela ficava acordada à noite, pensando em como poderia levar antes as crianças para um lugar seguro.

“Eu pensava ‘Eu vou ter que me matar , porque não posso viver o resto da minha vida desse jeito e não consigo ver nenhuma saída’.”

Mas ela descobriu que aprender a fazer crochê ajudava a relaxá-la, dando a ela outra coisa em que se concentrar.

Muitas pessoas começaram a praticar um hobby na pandemia devido ao tédio. Mas, para Victoria, isso se tornou uma tábua de salvação.

Ela começou a passar os dias fazendo coisas para o mundo além de suas quatro paredes – roupas para o bebê de uma amiga, uma bolsa para sua filha usar quando elas pudessem voltar a sair.

“Embora ele estivesse sentado lá o tempo todo, ou me seguindo, eu podia me perder nisso e bloqueá-lo um pouco. Foi uma das poucas coisas que me fizeram seguir em frente.”

Ilustração de celular sobre superfície

BBC
Parceiro de Victoria telefonava 10, 20, 30 vezes por dia

‘Ela estava farta da maneira como ele controlava a todos e como ficávamos com medo o tempo todo’

Mas, quando a dispensa temporária do trabalho de seu parceiro foi estendida para julho, e depois para setembro, a situação doméstica começou a sair do controle.

Já um beberrão, ele começou a gastar 500 libras (cerca de R$ 3,6 mil) por mês em álcool. E beber trazia junto uma ameaça constante de violência .

Ele deixou um taco de baseball ao lado da porta da rua e um bastão no andar de cima, além de facas por toda a casa. Victoria sabia que ele poderia usá-las – ele já havia dito que cortaria a garganta dela se ela a qualquer momento tentasse ir embora.

Cerca de dois terços das mulheres da Inglaterra que convivem com a violência doméstica disseram a uma pesquisa da Women’s Aid, publicada em agosto, que suas dificuldades se tornaram piores durante o primeiro lockdown do Reino Unido no começo deste ano.

Foi uma das filhas de Victoria que finalmente desencadeou sua fuga .

A filha escreveu para um serviço de ajuda psicológica confidencial. E conseguiu então fugir da casa para ficar com um parente.

“Ela estava farta da maneira como ele controlava a todos, e como ficávamos com medo o tempo todo”, diz Victoria.

‘Minha filha deu um par de calçados dela para eu usar’

Ilustração de par de chinelos

BBC
Em fuga de madrugada, filha emprestou par de chinelos à mãe

Não está claro o que a filha de Victoria disse ao serviço de saúde mental , mas a polícia visitou a casa da família para verificar seu bem estar.

O parceiro dela respondeu entrando em uma bebedeira, enquanto ela e as crianças se escondiam no andar de cima da casa.

Então, nas primeiras horas da madrugada, ele entrou no quarto de Victoria e tentou tirar o telefone dela, exigindo saber o que a filha estava falando sobre ele.

Quando Victoria se recusou a entregar o aparelho, ele deu um soco no rosto dela.

Ela gritou para sua outra filha, que ligou para a polícia, e elas rapidamente acordaram as crianças mais novas e levaram-nas para fora da casa.

Era uma e meia da manhã. Victoria não teve tempo de pegar nenhuma roupa – ela saiu de shorts e regata, e calçando um par de sapatos nos quais não conseguia andar direito. A filha dela lhe emprestou um par de chinelos e elas adentraram a madrugada.

‘O penhoar da minha mãe foi a única coisa que me assegurei de levar comigo’

Victoria e seus filhos encontraram refúgio com um parente, enquanto a polícia prendia seu parceiro. Na manhã seguinte, ela voltou à casa da família, enquanto ele era mantido sob custódia.

Ela rapidamente juntou alguns pertences – brinquedos para as crianças; sua agulha de tricô. Ela também pegou seu penhoar, um presente da sua mãe.

Ilustração de vestido pendurado na parede

BBC
Um presente especial para Victoria, penhoar foi pego às pressas

O parceiro de Victoria não havia permitido a ela ver sua mãe por dois anos, antes dela morrer de câncer. No primeiro aniversário de sua morte, ele começou a dizer que estava sofrendo do mesmo tipo de câncer.

“As atenções não estavam voltadas para ele, e ele sabia que dizer isso me aborreceria”, diz ela.

Victoria é grata por ter se lembrado de levar consigo essa lembrança de sua mãe, já que ela nunca mais retornou à casa. Ela entrou em contato com a Women’s Aid, e em poucos dias ela e seus filhos se mudaram para um abrigo.

As primeiras semanas foram difíceis. As crianças reagiam mal a barulhos altos e portas batendo, e Victoria tinha dificuldade para dormir, imaginando que seu parceiro estava atrás da porta.

Mas, eventualmente, eles começaram a se sentir de fato seguros.

“Não ter as ligações e mensagens de texto constantes, ou a ameaça de alguém chutar a porta e arrancar suas cobertas no meio da noite, te faz relaxar – como se você pudesse respirar”, ela diz.

‘Depois da tempestade, vem o arco-íris’

Ilustração de papel com arco íris desenhado

BBC
Victoria recebeu mensagem de uma pessoa querida lembrando: ‘Após a tempestade, vem o arco-íris’

Embora o abrigo ofereça um refúgio do mundo exterior, ele não está imune à pandemia.

Victoria diz que está muito aliviada de ter recebido um lugar ali. Mas os repetidos lockdowns resultam em que muitas famílias não conseguiram deixá-lo, reduzindo o espaço para outras, mesmo com um aumento de 150% na demanda.

Mensagens para a Linha de Ajuda Nacional de Abuso Doméstico do Reino Unido aumentaram 120% em uma noite em particular no início do isolamento social, e ao longo dos últimos meses, a demanda continuou a aumentar de forma constante, diz a instituição de caridade Refuge, que opera a linha de ajuda.

Quando alguém no abrigo de Victoria testou positivo para covid-19, as mulheres foram mergulhadas novamente no isolamento, o que para muitas trouxe de volta memórias traumáticas de estarem presas com seu agressor.

“Foi muito difícil começar o isolamento, porque isso me levou de volta para ‘lá’, para onde não me era permitido fazer isso ou aquilo”, diz Victoria.

“Mas depois de alguns dias, não era mais tão ruim. Eu pensei: ‘Estou cercada de pessoas que se importam comigo, posso ir ao jardim. Você sabe que estará livre em algumas semanas’.”

Embora o abrigo tenha dado a Victoria um porto-seguro, ela não pode ter muito contato com o mundo exterior.

Para sua própria segurança, o abrigo disse a ela que mudasse seu número de telefone e mantivesse seu novo endereço em segredo, embora ela pudesse avisar amigos e familiares que estava segura.

Então foi uma surpresa inesperada quando, através de um terceiro, ela recebeu um cartão de uma velha amiga.

A mensagem na capa: “Após a tempestade, vem o arco-íris”.

Victoria está ansiosa para começar uma nova vida com sua família, de volta à sociedade, e livre do medo. O abrigo permitiu a eles se sentirem normais novamente.

“Eu não sabia o que seria de nós, mas tudo o que precisávamos estava lá. Foi confortável, agradável. Parece um lar agora.”

Muitas pessoas temem que a pandemia signifique que o Natal será diferente esse ano. Mas, para Victoria, essa é a melhor parte.

Ela ensinou algumas das outras mulheres a fazer crochê, e elas estão fazendo decorações de Natal para enviar a suas famílias.

Pode ainda ser novembro, mas ela já comprou todos os seus presentes, e seus filhos já têm árvores de Natal em seus quartos.

“O Natal vai ser maravilhoso – poderemos comer o que quisermos, e fazer o que quisermos. Estou muito animada para isso”, diz ela.

*Os n omes foram alterados

Violência doméstica: Contatos úteis

No Brasil, o Disque 180 recebe denúncias de violência contra a mulher. A denúncia é anônima e gratuita, disponível 24 horas, em todo o país.

Vítimas de abuso doméstico também pode ligar para o Disque 100, que recebe denúncias de violação de direitos humanos, ou diretamente para a Polícia Militar, através do 190.

A Casa da Mulher Brasileira presta apoio às vítimas de violência doméstica.

No Reino Unido, uma série de contatos úteis pode ser acessada aqui.

Nos Estados Unidos, a linha direta de violência doméstica é 1-800-799-SAFE (7233).

O projeto BBC 100 Women nomeia 100 mulheres influentes e inspiradoras a cada ano e compartilha suas histórias. Encontre-nos no Facebook, Instagram e Twitter e use a hashtag #BBC100Women

Fonte: IG Mundo

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Equipes resgatam 11 mineiros soterrados na China há 14 dias

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Mineiros são resgatados na China
Reprodução/EuroNews

Mineiros são resgatados na China

Equipes chinesas resgataram neste domingo (24) 11 dos 22 mineiros que ficaram presos a 600 metros abaixo do solo após uma explosão subterrânea em Qixia há 14 dias.

O primeiro trabalhador foi resgatado da mina de ouro de Hushan, na província de Shandong, por volta das 11h03 (horário local), e estava extremamente fraco. Já os outros 10 foram retirados uma hora depois, mas por uma saída diferente, que era usada para a entrega de alimentos e suprimentos.

De acordo com as autoridades locais, citadas pela imprensa chinesa, ao menos um dos funcionários sofreu ferimentos.

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Existem ainda mais 10 pessoas presas na mina , mas os socorristas não tiveram notícias delas. Nesta semana, um dos mineiros morreu devido aos ferimentos.

Desde a explosão de 10 de janeiro na mina de ouro Qixia , as equipes de resgate têm trabalhado para socorrer os mineiros presos e ameaçados pelo aumento da água. A explosão ocorreu no poço do ventilador de ar, o que causou um entupimento e danificou o teleférico que permitia a subida dos mineiros.

Além de bloquear a entrada do poço, o acidente interrompeu as comunicações. Um dos responsáveis pela mina foi detido por atrasar a informação sobre a explosão e o chefe local do Partido Comunista e o prefeito da cidade de Qixia foram responsabilizados e demitidos.

Fonte: IG Mundo

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Internacional

Saída de Trump não significa fim do “trumpismo” nos EUA, diz especialista

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Agência Pública

Saída de Trump não significa fim do Trumpismo, diz autora
Natalia Viana

Saída de Trump não significa fim do Trumpismo, diz autora

Jornalista investigativa que cobre corrupção corporativa, Andrea Bernstein acompanha a trajetória de Donald Trump desde os anos 1990. Apresentadora do podcast Trump.Inc, ela lançou no ano passado o livro Oligarcas Americanos: os Kushners, os Trumps, e o casamento entre dinheiro e poder , sem lançamento no Brasil, sobre a história familiar e empresarial de  Donald Trump e a família de seu genro e principal assessor especial, Jared Kushner.

Nesta entrevista, Andrea diz que as reformas feitas por  Trump para reduzir impostos sobre fortunas fizeram com que enormes fluxos de dinheiro invadissem a polícia americana, e que apenas uma nova reforma tributária poderia “reduzir a influência do dinheiro sobre a política”. 

Mesmo assim, ela alerta que a saída de Trump da Casa Branca não põe fim ao trumpismo , e que os Estados Unidos precisam de um processo de reconciliação nacional para que o povo restaure a confiança nas instituições. “Há milhões de pessoas que tiveram suas cabeças preenchidas com as mentiras de Trump, e essa é uma situação muito, muito perigosa”.

Andrea Bernstein é jornalista e cobre corrupção corporativa

Como alguém que cobre os negócios do Trump há décadas, você se surpreendeu com a recusa dele em aceitar a derrota nas eleições e a invasão do Capitólio? 

Eu estou chocada, mas não surpresa. O que eu quero dizer é que o que aconteceu era previsível. Conhecendo os apoiadores de Trump e as coisas e a maneira como ele estava se comunicando me deixou alarmada. Muitas pessoas estavam preocupadas que haveria violência no dia da votação. E as pessoas disseram, “ok, não houve violência, ufa, de alguma maneira é como se tivéssemos driblado uma bala”. De alguma maneira eles [apoiadores de Trump] não conseguiram se organizar o suficiente. Mas depois eles todos começaram a se concentrar nesse grande evento [Marcha para Salvar a América], e Trump veio. Eu escrevi recentemente um artigo para o New York Review of Books que termina assim: “tudo é legalizado se você é o presidente”.  Trump gastou uma quantidade sem precedentes de dinheiro tentando impedir os que não o apoiam de ir votar. E quando os eleitores expressaram a sua vontade nas urnas ele tentou alterar o resultado das eleições. Tudo isso é inteiramente consistente com a maneira como Trump tem levado a presidência e como ele sempre operou seus negócios durante décadas. 

Então, nada disso é surpreendente. No entanto, é bem chocante que isso aconteça num sistema em que há uma crença básica nas leis, onde há uma crença fundamental na democracia, mesmo que ela tenha muitos problemas… Nós nunca tivemos um líder que estivesse disposto a violar e destruir essas coisas nas quais acreditamos. 

Existe um futuro político para o Trump ou o Trumpismo? 

Olha, agora que a Câmara dos Deputados votou pelo impeachment, o Senado tem que votar. Mas, se Trump sofrer esse impeachment no Senado – mesmo depois de deixar o cargo – bastam 51 votos para ele não poder mais concorrer a nenhum cargo. 

Agora, isso é o final do Trumpismo? Eu acho que não. 

74 milhões de pessoas votaram em Trump e elas realmente acreditam nas coisas que ele diz. Há dezenas de milhões de pessoas que tiveram suas cabeças preenchidas com as mentiras de Trump, e essa é uma situação muito, muito perigosa. A Hannah Arendt, no seu livro As Origens do Totalitarismo , escreveu sobre as pessoas que não conseguem mais distinguir entre a verdade e mentira, e isso cria um terreno fértil para um governo autoritário ou totalitário. Acho que isso é muito, muito assustador – que um número tão grande de americanos acredita no que Trump diz. 

Quando você olha para países do mundo que tiveram regimes radicais implantados, como a África do Sul, eles derrubaram esses governos e substituíram por outro. E até mesmo na Alemanha nazista, quando ela perdeu a guerra houve uma tarefa de reconstrução e reconciliação, então acho que pode acontecer algo assim. Mas isso não acontece se você ignorar e fingir que não aconteceu nada. E depois de ver todo o impacto causado pelas ações de Trump, acho que uma das grandes questões é como vai ficar agora, sem Trump. 

Como restaurar a fé nas instituições.

Exatamente. É um problema similar ao que enfrentamos no jornalismo, certo? Aqui neste país, os jornalistas nunca foram tratados com menos respeito, porque fomos chamados de inimigos do povo. E muitas pessoas acreditam nisso agora. Então qual é a resposta? A resposta é continuar a fazer bom jornalismo, e acreditar que se você continuar fazendo isso, você vai mudar as coisas. Acho que em todas as instituições é preciso ter uma reconstrução, um sentido de justiça. 

É a mesma coisa com o sistema de Justiça. Há muito trabalho a ser feito no sistema de justiça para fazer com que as pessoas acreditem de novo que a lei é para todos. Acho que isso tudo pode ser feito, mas tem que ser um processo longo e intencional. 

Logo após a invasão do Capitólio, algumas empresas romperam relações comerciais com Trump. Me chama a atenção que o Deutsche Bank tenha sido uma delas, porque segundo as investigações do seu Podcast Trump.Inc, o Deutsche Bank foi essencial para que Trump continuasse fazendo negócios. 

Ah sim… O Deutsche Bank manteve Trump vivo. A última vez que o Trump entrou em ruína foi em 1989, 1990. Ele devia 800 milhões de dólares para diversos bancos. Ele quase perdeu tudo o que tinha. E ele não conseguia mais conseguir empréstimos de nenhum banco americano – nem o JP Morgan Chase, nem o Citibank, nem o Wells Fargo – nenhum grande banco dos EUA financiaria os empreendimentos imobiliários do Trump depois disso. E isso afetou muito os negócios dele.Nessa época ele deixou de ser empreendedor imobiliário e passou a entrar em acordos para licenciar a sua marca.

Ele conseguiu empréstimo do Deutsche Bank para três grandes projetos. Para o Campo de Golfe em Durell, que fica na Flórida, próximo de Miami, para o Trump Hotel em Washington ser renovado, e para um terceiro empreendimento em Chicago. Mas ele conseguiu um empréstimo de mais de 300 milhões de dólares do Deutsche Bank, e o banco, obviamente, sabia do histórico de Trump com os bancos. Mas, naquela época, eles queriam entrar no mercado americano, e estavam buscando clientes famosos, como Donald Trump. 

Embora o Deutsche Bank tenha sua própria história problemática de envolvimento com lavagem de dinheiro, e tenha sido penalizado pelas autoridades americanas e britânicas a pagar bilhões de dólares em multas, seguiram junto Trump por muito tempo. 

Agora que Trump não vai mais estar no poder, especialmente depois da invasão do Capitólio, o Deutsche Bank é apenas um dos parceiros de Trump que estão fugindo. 

Há o Deutsche Bank, há o banco Signature, o município Nova York anunciou que iria cancelar seu contrato com Donald Trump, a associação profissional de golf anunciou que cancelou o torneio que fariam no campo de golfe de Trump em 2022… Ele está com um grande problema em termos de negócios, como ele vai conseguir financiamento e quem serão seus clientes?

O Trump gerencia resorts e hotéis de luxo, prédios luxuosos, e as pessoas que querem esse tipo de coisas não querem o tipo de atenção pública como o que aconteceu na invasão do Capitólio, não querem ser associadas a esse tipo de coisa. Então ele enfrenta um tipo de desconexão fundamental com seus clientes, e isso será um grande desafio para os negócios dele. 

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Andrea Bernstein é autora do livro “Oligarcas Americanos” sobre a trajetória de Donald Trump

Interessante isso, porque no seu podcast e também na cobertura da imprensa, fica muito claro que ele não pensava que iria chegar à presidência, que a campanha ia ser uma enorme operação de marketing para a marca “Trump”, e ele acabou virando presidente…

Sim, sim. 

Mas ele tem um futuro no mundo dos negócios?

A marca “Trump” está com muitos problemas. Não está claro quem serão seus clientes, não está claro onde vai conseguir dinheiro ou como Trump vai pagar suas dívidas. As coisas que Trump já disse que pretende fazer – como fundar um império midiático – serão bastante desafiadoras.  

Há algum caso criminal sobre as práticas de negócios de Trump que podem ter consequências para ele quando ele sair da Casa Branca?

O caso mais perigoso é o do procurador do distrito de Manhattan contra ele. Isso começou depois que o advogado de Trump, Michael Cohen, foi condenado por pagar “hush money” [dinheiro pelo silêncio] da atriz pornô Stormy Stormy Daniels em 2018. 

Depois disso, o procurador  de Manhattan começou a investigar não apenas para ver se houve crimes cometidos por Trump em relação a esse pagamento, mas se houve outros crimes que foram cometidos por Trump, suas empresas ou seus sócios. E esses crimes incluem fraude bancária, mentir para bancos, mentir para a Receita Federal, conspiração para cometer esses crimes graves. O maior deles pode levar a 25 anos de cadeia. 

E como parte da sua investigação, o procurador do distrito de Manhattan estava tentando obter as declarações de impostos de Donald Trump, e o Trump o processou em uma batalha até a Suprema Corte americana e perdeu, e ele ainda está em uma batalha judicial para manter seu imposto de renda fora das mãos do procurador. Bom, ele conseguiu atrasar o caso porque argumentou que como presidente ele não pode ser alvo de uma investigação criminal. Mas essa investigação está correndo desde 2018. E sabemos que o procurador está olhando para crimes específicos como fraude bancária, fraude contra seguradoras…

E uma vez que Donald Trump não seja mais presidente, esperamos que o caso avance bastante nos próximos meses. Isso é muito sério, porque Trump nunca foi denunciado criminalmente. Ele já foi investigado por procuradores, mas nunca foi indiciado. Ele foi processado muitas, muitas vezes. Por exemplo, foi  processado pelo procurador distrital de Nova York por causa da Universidade Trump [por propaganda enganosa] e ele entrou em um acordo para pagar 25 milhões de dólares.

O Departamento do Tesouro americano deu uma enorme multa a ele – duas vezes – porque o Cassino Trump Taj Mahal não tinha controles contra a lavagem de dinheiro. Duas vezes o cassino recebeu a maior multa da história do Departamento do Tesouro. O Conselho de Ética do estado de Nova York deu a ele a maior multa da hitsória por lobby ilegal. Então, ele recebeu muitas multas, mas nunca teve uma acusação criminal. 

Ouvindo essas histórias, o que vem à cabeça é: como é possível nos Estados Unidos que uma pessoa bilionária viole a lei repetidamente e saia livre mesmo assim?

Acho que há diferentes coisas que aconteceram. Uma delas é que, toda a estrutura financeira que permitiu ao Trump construir seu império de negócios – o uso de empresas ilimitadas para comprar propriedades e a estrutura dos condomínios – ou seja, ele basicamente pôde mover montanhas de dinheiro de maneira secreta, e isso foi algo até encorajado pelos bancos. E esse tipo de fluxo secreto de grandes fortunas é o que permitiu um fenômeno como Donald Trump. 

Depois da era Trump, há muita energia apoiando leis anticorrupção, por exemplo, Elizabeth Warren apresentou uma PL [projeto de lei] para impedir que qualquer pessoa consiga fazer o que Trump fez. Vamos ver. 

Mas uma das coisas que aconteceu historicamente e globalmente é que, em sua maioria, a corrupção acontece longe dos olhos do público, e as pessoas não entendem. Mas Trump tornou isso tão visível que estamos em uma situação em que agora pode ser que haja uma real oportunidade para uma mudança. Eu acho que agora muito mais pessoas entendem as implicações da corrupção. 

E também depende do que o governo Biden vai fazer. Ou seja, foram os cortes de impostos que permitiram um maior fluxo de dinheiro para a política, e eu acho que, se os mais ricos passarem a pagar mais impostos, isso pode mudar. Houve alguns momentos na história dos Estados Unidos em que isso ocorreu, como na Era Progressista [1896-1916], onde ocorreram reformas no sistema tributário e no sistema democrático, e essas duas reformas ajudaram a reduzir a influência do dinheiro sobre a política. Acho que estamos em um momento em que isso poderia acontecer de novo. 

Há planos para isso no novo governo? 

O Biden já disse que quer taxar mais os ricos. Depois do sucesso das campanhas dos democratas Bernie Sanders e Elizabeth Warren, vimos que há apoio social para isso.

Deveríamos estar otimistas sobre o futuro dos Estados Unidos? 

Quero ser realista sobre o futuro. Mas acho que estamos em um desses momentos da história americana em que nós podemos passar por uma transformação positiva. 

Uma das coisas que gerou o Trumpismo foi que não houve uma penalização dos bancos após a crise financeira de 2008.  Isso criou uma espécie de desespero e cinismo entre as pessoas, que sentiram que estavam simplesmente sendo ferradas pelos bancos, e, bom, as regras não se aplicam aos muito ricos. Acho que agora nós temos a chance de mostrar que sim, elas se aplicam, e espero que dessa vez a gente acerte nisso. Porque se errarmos, será um desastre.

Fonte: IG Mundo

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