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Opinião

ONOFRE RIBEIRO -Brasil e brasis

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Alguns fatos simultâneos confirmam uma certa sincronicidade histórica neste momento. Tanto no Brasil como no mundo. Venho acompanhando muito atentamente todo o universo da pandemia desde o seu surgimento no começo do ano passado. E o que se vê neste fim do ano de 2021, é muito relevante e reflexivo.

De um lado temos a diminuição da força da pandemia no país. De outro, temos que conviver com as consequências sanitárias, econômicas, políticas e comportamentais que a doença esparramou. E num terceiro plano, temos a COP26, a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, em Glasgow, na Escócia. A COP do clima é um evento que discute o futuro não só do Brasil, mas de todo o planeta em relação principalmente a emissões de gases de efeito estufa.

Onde entra o Brasil nisso? Neste momento há uma pressão mundial muito grande sobre o Brasil nas questões ambientais. De um lado crítica severas, e de outro pressões econômicas com visíveis interesses futuros. Obvio que não existem, anjos e santos nesse ambiente macroeconômico mundial.  No começo deste século o agronegócio brasileiro foi demonizado pelos sistemas ambientais mundiais, em especial as ONGS ambientalistas, que são na sua maioria braços de grandes interesses econômicos mundiais. Feitos os acordos ambientais necessários, as agricultura brasileira incorporou-se aos mercados mundiais sem maiores resistências.

Hoje se olha especialmente o futuro. Mas falar em futuro sem levar em conta as incertezas climáticas mundiais é muito perigoso e o papel do Brasil nesse aspecto.  Mesmo na COP 26 que neste ano está mais proativa do que crítica, sabe-se que não se resolverá os problemas climáticos do mundo sem a cooperação e a participação do Brasil.

Melhor traduzindo: a solução dos problemas climáticos mundiais passa pelas posições do Brasil. Neste momento há pressões de alguns países europeus, mas eles sabem que terão que se sentar com o Brasil e negociar. Fora do campo dos ataques guerrilheiros, porque no futuro próximo que produzir comida de forma sustentável terá mais poder do que quem produz armas.

No momento atual o Brasil está tratando a questão ambiental fora do campo tradicional das ONGS e das organizações políticas internacionais. Está tratando dentro de uma visão nacionalista. Está gerando muito stress lá fora. Mas é o caminho, dada a importância do Brasil no tabuleiro mundial de comida e de recursos naturais. O agronegócio brasileiro, por exemplo, que já foi o alvo central de todos os ataques, aprendeu a produzir com sustentabilidade muito mais eficiente e rigorosa do que países europeus e os EUA.

Dentro do Brasil há polarizações políticas completamente divergentes defendendo posições no campo ambiental com olhares muito diferentes. Isso está trazendo mais confusão do que contribuição. Mas, na essência, o Brasil está indo na direção certa e agindo com olhar de nacionalismo. O mesmo nacionalismo que os EUA e os países da Europa usam ao defender os seus interesses nacionais. Espera-se que as divergências políticas internas brasileiras, não impeçam o caminhar do país para um novo papel inevitável no cenário mundial. O mundo pós-pandemia pensa com cabeça diferente das ideologias e dos simples interesses imediatos. Aliás, essa é a grande lição deixada para as nações.

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso – [email protected]    www.onofreribeiro.com.br

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Opinião

JOSÉ ANTONIO LEMOS – A dimensão urbana de Manso

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Não fosse Manso, no dia 15 de janeiro de 2002, exatos 20 anos atrás, teriam passado sob a Ponte Júlio Muller 3.250 m3/s de água, volume superior aos 3.075m3/s da cheia de 1974, de triste memória para os cuiabanos.

Inaugurada no ano anterior, Manso foi então logo testada como protetora da cidade contra outras possíveis tragédias, razão inicial da construção da barragem. Embora sucesso total, poucos ficaram cientes. Teria repetido em 2010.

Com algum controle posterior da ocupação do solo urbano poderia ter sido uma alternativa de solução definitiva para esse tipo de problema em Cuiabá, e outras cidades.

Importante relembrar este acontecimento, em especial aos mais jovens, para destacar que a origem da barragem foi como equipamento de proteção urbana contra inundações após a cheia de 1974, que inundou totalmente a região mais populosa de Cuiabá, formada pelos antigos bairros Terceiro (“de Dentro” e “de Fora”), Ana Poupino e Barcelos.

No dia 17 de março daquele ano o rio atingiu na régua linimétrica o nível de 10,87 m servindo de referência para posterior construção da Avenida Manuel José de Arruda, a popular “Beira-Rio”, com seu nivelamento básico na cota 150 metros acima do nível do mar.

Diziam os antigos que a estação das chuvas em Cuiabá tinha dois picos, um em dezembro/janeiro e outro em março, também chamado de “repique”, por volta do dia de São José encerrando o período chuvoso. As cheias eram aguardadas nessas épocas, ainda que nem sempre as duas com a mesma intensidade.

A cheia de São José em 74 foi uma tragédia para a cidade quando esta dava um salto de crescimento em função da inauguração de Brasília. Grosso modo Cuiabá saltaria de 56 mil habitantes em 1960 para 240 mil em 80, e a cidade não estava preparada, após décadas de estagnação. Alguns visionários, verdadeiros profetas já desenvolviam, por exemplo, a ideia do CPA.

O governo Geisel tomara posse dois dias antes, dia 15, já com a inundação avançada. Logo o ministro do Interior Rangel Reis veio a Cuiabá e tomou duas decisões radicais para a cidade: determinou a demolição do que sobrara dos bairros atingidos, transferindo suas populações para conjuntos residenciais a serem construídos.

Perderam-se aí alguns marcos da cultura cuiabana que viraram saudade nas lembranças dos blocos carnavalescos “Sempre Vivinha”, “Coração da Mocidade” e “Estrela Dalva”, por exemplo. Outra determinação do ministro foi a realização de estudos técnicos para evitar tragédias semelhantes em Cuiabá resultando em Manso, em princípio só para reduzir picos de novas enchentes, um “açudão” de proteção urbana. Fosse só este seu objetivo, Manso já teria valido a pena.

Depois, em 1978 no antigo Minter, a Comissão da Divisão do Estado, da qual eu fazia parte, transformou Manso em um projeto de aproveitamento múltiplo (APM), pioneiro no Brasil para solucionar também a questão energética, na época o principal problema estadual.

Com a energização do “açudão”, foram acrescidos os objetivos de regularização de vazão do rio (além de reduzir suas cotas máximas, garantir uma cota mínima de água), a irrigação rural e o abastecimento de água por gravidade para as cidades da Baixada Cuiabana, três barragens a fio d’água rio abaixo, sendo que seu lago poderia também receber projetos de piscicultura, turismo e lazer, ampliados agora com aquicultura e as possibilidades de um parque gerador de energia solar.

Hoje é comum pensar a APM Manso só como uma usina hidrelétrica, o que seria um erro grave, ainda que sua geração elétrica seja importante garantidor da estabilidade energética ao estado.

Mas, não se pode desprezar os demais potenciais do grande empreendimento que, tem nome e sobrenome: APM Manso. E assim deve sempre ser lembrado para um dia ser aproveitado em todas suas dimensões: APM Manso.

José Antonio Lemos Dos Santos é arquiteto e urbanista, membro da Academia de Arquitetura e Urbanismo (AAU-MT)

 

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LUIZ CARLOS AMORIM – Homem livro

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Li, outro dia, uma reportagem mostrando o “Homem Livro”, de Aracaju. Por que ele é chamado “Homem Livro”? Porque angaria livros, junta-os e sai à rua para distribuí-los às pessoas, gratuitamente. Ele pede livros em doação e os entrega para quem gosta de ler. Não é sensacional? Já conheci muitos homens livros e muitas mulheres livros. Já vi muitos incentivadores de leitura, gente que sai no bairro e pede livros aos vizinhos e vai formando uma biblioteca comunitária, gente que ao invés de pedir os livros, pede lixo reciclável, então os vende para comprar livros novos para bibliotecas e escolas. Aqui em Florianópolis há até um menino que pediu um cantinho do “boteco” do pai, foi recolhendo livros na comunidade e improvisou uma biblioteca e agora empresta livros às pessoas do bairro. De graça, é claro.
Mas não tinha visto um personagem curioso assim como o “Homem Livro”, que pede livros por onde passa, vai ao centro da cidade caracterizado – na sua roupa existem trechos de livros, capas de livros, tudo sobre livros – e os oferece à comunidade. Precisamos de mais homens livros, precisamos que eles se multipliquem para que o incentivo à leitura e o acesso ao livro, objeto tão caro hoje em dia, seja democratizado de maneira tão generosa.
Precisamos de mais gente generosa como o “homem livro”, que se transformou em estandarte vivo em prol da democratização do acesso à leitura, em prol da criação de mais leitores, promovendo a distribuição de cultura e de informação. É bom ver iniciativas como esta. A gente constata que nem tudo está perdido. Que ainda existem novas ideias, criatividade e dedicação na luta conta a ignorância e a miséria. Que há quem se preocupe com a educação e com a instrução das pessoas, mesmo as mais humildes, ao contrário de nossos governantes, que deveriam promover a cultura e a educação, mas ao invés disso, fazem questão de destruí-las.

Felizmente, conheço gente empenhada em levar livros, de graça, a leitores de todas as idades, democratizando-o e possibilitando o acesso à leitura, como a professora Mariza, de Joinville, e a professora Edna Matos, de Divinópolis, com seus projetos vitoriosos. Sei que há muitas outras pessoas como elas e como o homem livro por aí, graças a Deus, e a gradeço a Ele por elas existirem.
Há uma luz no fim do túnel. Há esperança para nós, seres humanos. Ainda.

Luiz Carlos Amorim – Escritor, editor e revisor

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