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O Documento - O Documento entrevista João Belém, um dos últimos tropeiros de Mato Grosso

JOÃO BELÉM

O Documento entrevista João Belém, um dos últimos tropeiros de Mato Grosso

Por: Costa Figueiredo - Especial para O Documento

Sob o pé de uma frondosa e centenária mangueira, O DOCUMENTO conversou talvez com um dos últimos tropeiros vivos da velha guarda do Estado de Mato Grosso, João Alves Belém, de 82 anos, casado com Dona Margarida, também de 82 anos, não teve filhos, vindo de uma família de 12 irmãos, natural do Distrito de Jibóia, município de Itiquira, a 360 Km de Cuiabá.

Encontramos o remanescente dos áureos cavaleiros andantes,  num lugar bucólico, chamado Formigueiro, distante 20 Km do Centro de Várzea Grande - MT.

João Belém conversa com lucidez e tem a voz mansa e devagar, possivelmente fruto de dois AVCs (Acidente Vascular Cerebral) que sofreu, faz um histórico desse período, relembra datas, nomes, lugares,  uma lenda viva que tratou com a lida de gado por mais de 60 anos.


A alegria de Belém seria voltar novamente ao manejo com a boiada, mesmo com seus 82 anos. Para complementar a renda familiar confecciona laços e arreios, contribuindo com um extrinha para ajudar na aposentadoria do INSS. Ouvimos muitos "causos" contados pelo Itiquirense, que viveu grande parte de sua vida nas rotas (estradas) que fazia principalmente entre Mato Grosso e São Paulo. Belém corre lágrimas quando ouve a Música "Magoa de Boiadeiro" e não segura a emoção, traduz a canção como retrato vivo de sua vida, por muitos tempo foi tocador do famoso "Pé de Bode",e nos concedeu essa entrevista :


O DOCUMENTO: Seu João, o Sr. é oriundo de onde, com que idade começou a tratar com as boiadas ?

João Belém: Sou do Distrito (Cartório) da Jibóia, no município de Itiquira, fiquei por lá até meus 17 anos, quando fui para o estado de Goiás, na cidade Mineiros trabalhar no cafezal com compadre Getúlio e a primeira boiadinha que tropei foi em 1953 aos 18 anos para a cidade de Santa Helena distante 300 Km. À partir dai animei-me e vi que era meu ramo, foi então que peguei uns burros de seu Elias para amansar, e essa minha primeira viagem foi perigosa, viagem de matula com medo de passar fome na estrada, não comíamos carnes de caças, somente as codornas dos campos que matávamos com piraim.

O DOCUMENTO: Qual foi sua primeira viagem entre Mato Grosso à São Paulo, qual era o caminho utilizado e quais lembranças ?

João Belém: Minha primeira viagem  entre Mato Grosso à São Paulo, foi de Poconé à Araçatuba, fui contratado pelo comissário Domatite, um mulato forte, só contava os bois se estivesse bêbado (risos), daí se mandamos, minha maior alegria do mundo era conhecer São Paulo, fiz ainda diversas viagens entre Poconé à Andradina - SP. Fui contratado por Zé Mello e realizei 18 (dezoito) viagens dos arredores de Mineiros - GO até Araçatuba. Saímos de Poconé pela estrada boiadeira, passávamos por Barão de Melgaço sempre margeando o Rio Cuiabá em direção a São Lourenço, até alcançar Coxim e mundo afora. 

O DOCUMENTO: Quanto tempo levou de viagem entre a cidade de Poconé a Andradina, quem acompanhou, teve algum problema, quais foram os preparativos ?

João Belém: Essa viagem foi muito longa, em torno de 04 (quatro) meses somente pra chegar em Macaé (Região de Andradina), nessa tropada levávamos vários animais (burros) para substituí-los quando cansados, só conseguiam cavalgar até o meio-dia, não andávamos mais que 10 km diários. Os tropeiros só utilizavam burros, o único cavalo utilizado chamava Polaco que seguia à frente da boiada (Animal que tinha um Sino no pescoço dando norte na viagem).

O DOCUMENTO: Quais eram as vestimentas utilizadas e quantos animais acompanhavam ?

João Belém: Eram muitos os animais, em torno de 900 somente gados, fora os animais usados para acompanhar, sempre trajamos Chapéu Panamá e uma grande capa que servia como abrigo quando pernoitavamos, ela nos cobria sobre a rede.

O DOCUMENTO: Quanto tropeiros acompanhavam as comitivas, o senhor lembra deles, nome, característica, como realizavam o transporte dos mantimentos e quais eram os alimentos preferidos durante o trajeto ?

João Belém: Íamos em torno de 9 a 10 tropeiros, mais o cozinheiro e o copeiro (ajudante do cozinheiro), o transporte dos mantimentos eram realizados nos lombos do burros, naquelas latas de banha e nos caixotes, eram em torno de 04 (quatro) cargueiros, não passávamos fome, comíamos frequentemente carne seca com arroz e  carne charqueada com feijão (feijoada), os peões gostavam muito, pois era muito forte. Dos antigos companheiros de tropa, lembro-me do Poxoréo, Jesuíno, Baianinho, Ismael e o Braz, que era o ponteiro (aquele que tocava o berrante), o Nativo (Cozinheiro era homem bravo), tinha também o João Redondo que sofria de asma e parecia um galo com pescoço tucado, sem folego em cima das panelas (risos).


O DOCUMENTO: Como eram os ganhos dessas empreitadas, quantos eram e como faziam a travessia do Rio Paraná ?

João Belém: Era muito pouco, tinha que fazer muita economia danada e recebíamos 5 Réis, quando chegávamos ao Rio Paraná a travessia era realizada através das balsas, tocava somente em torno de 200 (duzentas) cabeças por travessia, não cabia mais.

O DOCUMENTO: O Senhor Lembra quais eram os maiores vendedores e compradores de boiada naquela época ?

João Belém: Na região do Mato Grosso, o Lúdio Coelho (Político e Pecuarista) era o mais forte, já em Andradina tinha o Sr. Tota (brigou com a memória para relembrar) grande comprador de gado, tinha um matadouro. O Lúdio tinha outra fazenda na região de Campo Grande e possuía mais 18 retiros (local onde ficavam os gados).

O DOCUMENTO: Houve algum incidente nessas Tropas, doenças e qual era a diversão nesses caminhos ?

João Belém: O único problema que ocorreu foi o estouro da boiada próximo a Cassilândia e Aparecida do Taboado, foi um Deus nos acuda. Nunca tivemos problemas com acidentes, graças a Deus. A única diversão que tínhamos eram algumas festas pelo meio do caminho, sempre chegávamos com as roupas cheio de poeiras, não tinha nem como dançar, só se fosse peão com peão (risos). 

Comentários

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    6
    Autor: Gouveia
    Linda história!!!